Um primeiro fator condicionante do mercado internacional de produtos têxteis, em todas as suas categorias, diz respeito aos acordos comerciais. Em 1973, o Acordo Internacional sobre Comércio Têxtil (Arrangement Regarding International Trade in Textiles), comumente denominado Acordo Multifibras – AMF estabeleceu que os países poderiam limitar as suas importações de todos os produtos têxteis e de vestuário quando estivessem enfrentando prejuízos reais ou potenciais decorrentes do rápido aumento da entrada de produtos estrangeiros. Os objetivos declarados para isso eram a expansão do comércio, a redução barreiras e a liberação progressiva do comércio mundial de produtos têxteis, assegurando um desenvolvimento ordenado e equilibrado sem disrupções nos mercados exportadores ou importadores. Adicionalmente, pretendia o referido acordo fomentar o desenvolvimento econômico e social de países em desenvolvimento e assegurar um aumento substancial que garantisse uma maior participação desses países no mercado têxtil internacional. Do ponto de vista prático, o AMF definia regras para a imposição de cotas, seja por acordos bilaterais ou ações isoladas, a serem aplicadas em situações de desequilíbrios de mercado provocando ondas de importações prejudiciais ao mercado importador (OMC, 2004). Este acordo serviu como base para acordos ou ações unilaterais, o que significa que o AMF foi usado quase que exclusivamente para proteger os mercados desenvolvidos das importações provenientes de países em desenvolvimento, frustrando assim os seus objetivos originais.
Além disso, seu princípio colidia com as orientações do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade – GATT10) que manifestava uma preferência pelas tarifas aduaneiras ao invés de medidas de restrições
10O Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) é um conjunto de regras e normas de comércio internacionalmente aceitas criadas para impulsionar a liberalização comercial e combater práticas protecionistas. Foram instituídas na primeira negociação multilateral de comércio, em 1947, e revistas ao longo de um total de oito rodadas de negociação até 1994, sendo que na última delas, conhecida como a Rodada Uruguai, foi criada a Organização Mundial do Comércio – OMC.
quantitativas. Em particular, o AMF confrontava o princípio da não-discriminação (principle of non-discrimination ou Most Favoured Nations), pelo qual um país não pode ditar vantagens comerciais a um país e a negar a outro, ou seja, se garante os mesmos direitos de acesso aos mercados por qualquer dos países pertencentes ao GATT, independentemente de seus tamanhos e níveis de desenvolvimento. Assim, em 31 de dezembro de 1994, o AMF deu lugar ao Acordo sobre Têxteis e Vestuário – ATV ou Agreement on Textiles and Clothing – ATC, como um dos resultados da Rodada do Uruguai.
Esse novo acordo tem por objetivo formular meios para a integração do setor têxtil às regras e disciplinas da OMC contribuindo para o objetivo de maior liberalização do comércio, através da redução e eliminação das quotas previamente estabelecidas. Foi acordado também um período de 10 anos para que o comércio internacional de têxteis e confecções se integre completamente às regras da OMC, durante o qual se extingue gradativamente o sistema de cotas, conforme demonstrado Quadro 2.
Data Fase Integração
01de Janeiro de 1995 1 ª fase 16 % dos produtos importados em 1990 01 de Janeiro de 1998 2 ª fase 17 % dos produtos importados em 1990 01 de Janeiro de 2002 3 ª fase 18 % dos produtos importados em 1990
31 de Dezembro de 2004 Fase final 49 % remanescentes dos produtos importados em 1990 Quadro 2 – Escala de eliminação das quotas de importação conforme o ATV
Portanto, até 1º de janeiro de 2005, o comércio internacional de produtos têxteis e de vestuário deverá com as cotas quantitativas extintas e os países importadores não mais podendo discriminar entre os exportadores. O ATV ganha assim a característica de ser um instrumento de transição, que tem como seus outros elementos principais: uma cobertura mais ampla dos produtos envolvidos na cadeia têxtil, da fiação à confecção; um mecanismo especial de salvaguarda para lidar com novos casos de prejuízo real ou potencial a produtores domésticos durante o período de transição; a criação do Textiles Monitoring Body – TMB, para supervisionar a sua implementação; e provisões outras incluindo regras para a superação das cotas, administração e tratamento de restrições externas ao AMF e compromissos assumidos sob os acordos e procedimentos da OMC aplicáveis a este setor da economia mundial.
Com a redução progressiva das barreiras não tarifárias de base quantitativa, o cenário da concorrência mundial hoje está fortemente influenciado pela organização do comércio intrablocos econômicos (GORINI, 2000), na forma de Acordos Comerciais Preferenciais – APT (Preferential Trade Agreement), pelos quais um país ou grupo de países concedem vantagens especiais recíprocas, comumente envolvendo concessões de tarifas mais reduzidas do que a tarifa consolidada na OMC. Estes podem ser firmados no contexto previsto no art. XXIV do GATT que dispõe sobre a aplicação territorial, tráfego de fronteiras, uniões aduaneiras e áreas de livre comércio. Mas, sob outra formatação, estes acordos também são obstáculos à expansão de mercados para os países externos a tais acordos.
Por exemplo, as exportações de confeccionados do México para os Estados Unidos, a partir de tecidos fabricados e/ou cortados nos EUA, México ou Canadá, são totalmente isentas de tarifas ad valorem. Gereffi (1998) coloca a relação entre EUA e México em termos de “complementaridade”, no sentido de que o primeiro tem boa base na produção de fios e fibras sintéticas, têxteis e varejo, enquanto no lado mexicano o ponto fraco é exatamente a produção de têxteis com uma grande maioria de tecelagens descapitalizadas, tecnologicamente atrasadas, ineficientes e produtoras de mercadorias de baixa qualidade.
Alguns países caribenhos têm condições de privilégio semelhante no mercado norte- americano, o que permitiu a formação de núcleos de produção altamente especializados, como de roupa íntima na República Dominicana, Honduras, Costa Rica e El Salvador, que abastece 40% daquele mercado. Na Europa Central e Oriental, o Outward Processing Trade – OPT garante a exportação temporária de tecidos para os países vizinhos em que a mão-de-obra é mais barata, com posterior importação dos produtos finais pela comunidade européia com tarifas apenas sobre o valor adicionado (GORINI, 2000).
A eliminação progressiva das cotas de importação não deve ser assumida, portanto, como o fim do protecionismo e garantia de um livre comércio em plenitude. De fato, um estudo da UNCTAD (2000a) reconhece que até o início de 2000, ou seja, já superada a 2ª fase de extinção do MFA, as tarifas médias de muitos países haviam sido reduzidas para níveis relativamente baixos, como resultado das negociações da Rodada do Uruguai e de reformas tarifárias locais, mas ainda era possível identificar problemas que denotavam altos níveis de proteção em alguns setores econômicos, sendo que a produção de têxteis e confecções ocupava a quarta posição em tal lista.
O mesmo estudo revelou que em quatro mercados representantes dos destinos mais expressivos das exportações de países em desenvolvimento (Canadá, União Européia, EUA e Japão), a entrada da maioria dos produtos oriundos de países em desenvolvimento ainda sofria restrições quantitativas e uma taxação média entre 12% e 30%, sendo que 20% das tarifas norte-americanas, 30% das européias e japonesas e 14% das canadenses excediam 30% ad valorem. Entre os mercados em desenvolvimento mais dinâmicos que foram avaliados, (Brasil, China, Coréia e Malásia), as tarifas superiores a 12% eram mais freqüentes, porém com uma menor incidência de tarifas extremamente altas.
Mas, para o entendimento do panorama do comércio internacional de vestuários deve ser levado em conta que o poder competitivo de muitos países não desenvolvidos impôs alterações nas estratégias relacionadas à produção têxtil e de vestuário, elevando o padrão de concorrência para outros fatores que não apenas preços, mas também qualidade, flexibilidade e diferenciação de produtos.
Em termos de divisão do trabalho, a organização da cadeia têxtil como um todo reflete hoje uma certa polaridade: de um lado os países periféricos como Singapura, Indonésia e China, entre outros, dominando o mercado de commodities e de itens de menor valor agregado; de outro lado, as grandes empresas de países ocidentais buscando a liderança tecnológica e mercadológica, por meio da organização da cadeia produtiva com uso de produção terceirizada (CAMPOS, CÁRIO E NICOLAU, 2000; MONTEIRO Fª e SANTOS, 2002), principalmente no que se refere à confecção. Isso porque esta atividade ainda permanece intensiva de mão-de-obra e é, portanto, bastante sensível aos baixos salários predominantes nos países de menor desenvolvimento econômico.
Do ponto de vista produtivo, Campos, Cário e Nicolau (2000, p.351-352) esclarecem que os determinantes tradicionais de competitividade tais como a disponibilidade de matérias-primas, baixos salários, incentivos fiscais e favorecimentos cambiais foram sendo sucedidos por fatores mais dinâmicos que resultaram em avanços na sofisticação de produtos, nas relações de cooperação vertical e horizontal interfirmas e na proximidade com o consumidor final, entre outros. A produção massificada e, portanto, restrita a volumes e lotes mínimos foi substituída pela produção flexível realizada em menores unidades produtivas equipadas com máquinas e equipamentos que permitem, a baixo custo, alterações de toda sorte nas ordens de produção. Esta característica, segundo os autores, tem sido o elemento básico de
competitividade no âmbito empresarial, pois não só possibilita que o mercado determine quantidades, como também dá ao fabricante condições de acompanhar as mudanças de moda sem incorrer em custos e riscos adicionais na manutenção de estoques.
Da mesma forma, “a produção flexível promove a especialização das etapas da cadeia produtiva, proporciona a ampliação da diferenciação dos produtos, entre outros aspectos favoráveis”. As indústrias da Europa e dos Estados Unidos, por exemplo, investiram em aplicações tecnológicas para aprimorar o estilo, o processo e as vendas, tornando-se cada vez mais intensivas de capital e especializando-se em nichos mais lucrativos e de qualidade diferenciada (GORINI, 2000).
Não menos importante para a configuração do mercado internacional de produtos têxteis está a formação de redes de cooperação entre as empresas, conduzindo a relações mais próximas entre produtores, fornecedores e clientes. A integração cooperativa de empresas por um lado atua na redução dos estoques intermediários e conseqüente minimização de perdas nas tradicionais liquidações de estoques, mas ao mesmo tempo exige maiores esforços de planejamento para o que contribui o desenvolvimento tecnológico conjunto (CAMPOS, CÁRIO E NICOLAU, 2000).
Nesse processo, destacam-se as cadeias de varejistas e lojas de departamento desempenhando a função de colocação de produtos importados naquele mercado e/ou adquirindo mercadorias fabricadas no local de sua origem para posterior colocação em suas lojas no exterior. Estas redes estão ampliando sua fatia de mercado visando a consolidação dos seus mercados, beneficiando-se das economias de escala em volume de compras, forma de comercialização e administração de espaço de vendas, etc que lhes são permitidas pelas amplas atividades de varejo que têm. (Gherzi11, 1999 apud CAMPOS, CÁRIO E NICOLAU, 2000).
A coordenação entre empresas responsáveis por várias das etapas de toda a cadeia, com suporte de modernas técnicas de gerenciamento e de logística, aliadas a um processo de informatização intensivo, permitiu grande flexibilidade a empresas norte-americanas e européias. Do desenvolvimento de relações próximas com as redes varejistas, as empresas de confecção de vestuário adquirem capacidade para o fornecimento de produtos acabados
11 GHERZI TEXTIL ORGANISATION. Desenvolvimento da competitividade da indústria
associados a um conjunto de serviços complementares, como desenvolvimento de produto, controle de qualidade e logística (GORINI, 2000). Dessa forma, no cenário internacional de produtos têxteis em geral, e de confeccionados, em particular, a força competitiva atual se descreve pela grande importância das relações entre empresas e da proximidade aos consumidores finais.