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15-UYGULANACAK MÜEYYİDELER (YAPTIRIMLAR)

Em 1978, o israelense Itamar Even-Zohar publicou uma coletânea de textos escritos entre 1970 e 1977, sob o título de Paper in Historical Poetics, onde apresentou pela primeira vez o termo “polissistema”. Ele cunhou o termo para se referir a toda a rede de sistemas correlacionados – literários e extraliterários – na sociedade e desenvolveu uma abordagem chamada teoria dos polissistemas, na tentativa de explicar a função de todos os tipos de escrita em determinada cultura – englobando os textos canônicos centrais até os mais marginais, ou seja, não canônicos (GENTZLER, 2009, p. 148).

Segundo Gentzler, a definição de Even-Zohar de polissistema é igual ao conceito de sistema de Iuri Tinianov (1929), “incluindo as estruturas literárias, semiliterárias e extraliterárias.” (ibid, p. 149). O termo polissistema, portanto, engloba todos os sistemas literários, maiores ou menores, existentes em uma determinada cultura. Even-Zohar não adotou apenas o conceito de sistema de Tinianov, mas também sua estrutura hierárquica de diferentes sistemas literários, seu conceito de desfamiliarização e seu conceito de mutação e evolução literária. Em seu texto The

entender que a relação entre obras traduzidas e o polissistema literário não pode ser categorizada como primária ou secundária, e sim como variável, dependendo da circunstância específica atuante no sistema literário (GENTZLER, 2009, p. 150-11).

Com base nos postulados de Even-Zohar, questionamos sobre o espaço destinado à tradução das obras de autores afro-brasileiros no polissistema literário. Primeiramente, porém, passemos a alguns questionamentos sobre a tradução nesse polissistema. Há um reconhecimento quanto a sua função neste espaço? Como esta se apresenta no polissistema? Que posição ocupa? Consideremos Pascale Casanova (2002, p. 169) em seu posicionamento a respeito da tradução como literarização:

A tradução é a grande instância de consagração específica do universo literário. Desdenhada como tal por sua aparente neutralidade, ela é contudo a via de acesso principal ao universo literário para todos os escritores “excêntricos”: é uma forma de reconhecimento literário e não uma simples mudança de língua, puro intercâmbio horizontal que se poderia (deveria) quantificar para tomar conhecimento do volume das transações editoriais no mundo. (grifos da autora)

A partir das palavras de Casanova, percebemos como a tradução adquire inconteste valor, com este papel preponderante que lhe é atribuído no universo literário. Ela passa a assumir uma posição central, de relevante autoridade, uma vez que um escritor, para atingir reconhecimento neste cenário, precisa ter sua obra submetida às dores e delícias da tradução. Além disso, só o fato de se acreditar que um texto mereça ser traduzido já indica certo destaque que esse conquistou. Isso representa um avanço significativo na história da tradução, se considerarmos seu

status marginal ao longo dos séculos, de acordo com várias correntes teóricas.

O tradutor, por conseguinte, nessa ‘nova’ maneira de concepção da tradução, assume o papel de consagrar o escritor, principalmente se sua língua fonte for traduzida para uma língua literária central ou hegemônica. Sua atividade assume tal importância que deixa de ser uma mera operação de mudança de língua e promove tal obra “na realidade, a ascensão à literatura, a obtenção do certificado literário” (CASANOVA, 2002, 171). Corroborando ainda as observações acima, destacamos as idéias de Goethe, que atribuía ao tradutor o papel de ator central neste universo e não apenas de agente intermediário, mas igualmente de criador de

‘valor’ literário. Goethe (citado por CASANOVA, 2002, p. 29) vai mais além em suas constatações e afirma que “por mais insuficiente que seja a tradução, essa atividade continua sendo uma tarefa das mais essenciais e dignas de estima do mercado de intercâmbio mundial universal”. Desta forma, o tradutor assume um papel-chave num cenário onde escritores (e seus escritos) agem como atores transitando entre dominadores e dominados, numa luta desigual e constante por reconhecimento e legitimação de seus trabalhos.

Se, como nos afirma Casanova, a propósito de um dos princípios contrários às representações comuns da arte literária afirmados por Henry James, “existe de fato um objeto a se descobrir em cada obra, e esta é a tarefa legítima da crítica (CASANOVA, 2002, p. 15)”, o que não revelará, então, o texto de uma obra traduzida? Cremos que este movimento poderá revelar não apenas “um objeto”, mas vários objetos existentes na obra prontos para serem descobertos; alguns destes, até mesmo imperceptíveis pela crítica da cultura de origem; às vezes, podem vir à tona no momento de uma análise do texto na cultura de chegada, quando se toma como parâmetro de comparação os textos de duas realidades linguístico-culturais distintas.

Fazendo considerações históricas, para nos situar a respeito desse espaço mundial, Casanova (2002, p. 25) assinala que “[o] espaço literário internacional foi criado no século XVI, ao mesmo tempo em que se inventava a literatura como ensejo de luta, e ele não cessou de se ampliar e estender desde então [...].” A Itália renascentista foi a primeira a ter reconhecimento de potência literária, seguida da França, que contestava o avanço da Itália e a hegemonia do latim. Depois, a Espanha, Inglaterra e outros que formavam o conjunto de países europeus, “a partir de ‘bens’ e tradições literárias diferentes, entraram aos poucos na competição” (ibid). E não parou por aí: na Europa central surgiram movimentos nacionalistas ao longo do século XIX que abriram espaço para manifestações com o propósito “de novas reivindicações ao direito de existência literária” (ibid). Neste mesmo século, aos poucos, a América do Norte e a America Latina também passaram a disputar seu espaço, além de, “com a descolonização, todos os países até então excluídos da idéia mesma de literatura própria (na África, na Índia, na Ásia...) reivindicaram o acesso à legitimidade e a existência literárias” (CASANOVA,

2002, p. 26). É claro que a conquista do direito de existir literariamente por qualquer país não foi fácil ou simples. A história da literatura dá conta de que houve movimentos literários, manifestos, violências, revoluções especificas, recusas, muita luta e rivalidades, assim como consta na história da humanidade.

O movimento de recuperação, cujo resultado pode reposicionar obras de grupos específicos, tem de lidar com um universo de elementos distintos, ou seja, o espaço literário mundial, que pode tanto contribuir para a evolução de uma obra literária como impedir tal evolução. Para entendermos melhor o significado de tal afirmação, vejamos as palavras de Casanova (2002, p. 19) sobre o assunto:

O espaço literário mundial, como história e como geografia – cujos transtornos e fronteiras jamais foram traçados ou descritos –, encarna-se nos próprios escritores: eles são e fazem a história literária. Daí a crítica literária internacional ter por ambição permitir uma interpretação especificamente literária e histórica dos textos, isto é, dissolver a antinomia considerada insuperável entre a crítica interna, que encontra unicamente nos próprios textos o princípio de sua significação, e a crítica externa, que descreve as condições históricas de produção dos textos, mas sempre é denunciada pelos literatos como incapaz de explicar sua literalidade e sua singularidade. Trata-se, portanto, de conseguir situar os escritores (e suas obras) nesse espaço imenso que é de certa forma uma história espacializada.

Neste espaço, os escritores, numa esfera mundial, assumem um papel preponderante uma vez que, sem eles, não há como existir história literária completamente constituída, apesar de todos os percalços que eles encontram para conseguir fazer parte desse universo. Trazendo essas considerações para o contexto da história dos afrodescendentes e para as obras produzidas por escritores que se definem dessa forma no cenário literário internacional, questionamo-nos sobre o tão famigerado preconceito étnico-racial que os relega às margens dos grandes centros de produção cultural, como podemos constatar nos registros oficiais da história. Desta forma, considerando os argumentos de Casanova, podemos dizer que, para Evaristo, ter seu romance traduzido para uma língua literária de um grande campo de produção cultural (grande, porque hegemônico), fez com que sua obra passasse a “existir” no espaço literário internacional e, desta feita, pudesse alcançar maior reconhecimento ainda no espaço literário nacional.

Benzer Belgeler