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Uygulamanın Metodolojisi, Teorik Altyapısı ve Varsayılan Hipotezler

BÖLÜM 3: ÜLKELERİN FİNANSAL GELİŞMİŞLİKLERİ İLE ENERJİ

3.3. Uygulamanın Metodolojisi, Teorik Altyapısı ve Varsayılan Hipotezler

 

É  preciso,  para  uma  compreensão  correta  do  fenômeno  da  Homeopatia,  entender qual era a medicina oficial praticada quando de sua chegada ao país, pois  foi  ela  sua  verdadeira  antagonista  histórica  e  não  a  Medicina  Científica  praticada  contemporaneamente. Isso nos permitirá estabelecer mais claramente o cenário de  disputa  entre  ambas,  considerando  que  os  elementos  que  mobilizavam  as  respectivas  comunidades  portadoras  da  Medicina  e  da  Homeopatia  no  século  XIX  não são exatamente os mesmos que as sustentam em sua disputa contemporânea. 

No Brasil do século XIX, com o qual Mure se deparou, a medicina praticada  oficialmente,  nos  termos  de  Lycurgo  Santos  Filho,  FILHO  (1991),  era  ainda  uma  Medicina  Pré‐Científica.  Deve‐se  considerar  também  que  Mure  aporta  no  Rio  de  Janeiro  apenas  32  anos  após  a  chegada  da  família  Real  portuguesa  em  1808  e,  portanto, muito pouco tempo depois que o Brasil havia sofrido sua radical mudança  de status, saindo da condição de colônia para a de metrópole e tornando a cidade do  Rio de Janeiro a capital do império português. Foi só após a chegada da família Real  que se criaram as primeiras escolas médicas no país, as escolas de cirurgia da Bahia  e  do  Rio  de  Janeiro.  Antes  da  criação  dessas  escolas  os  médicos  atuantes  no  país  (que  eram  pouquíssimos  e  assim  continuaram  por  quase  todo  o  século  XIX)  eram  em geral portugueses ou brasileiros formados em Portugal (nas escolas de Coimbra  e Lisboa). Só com a criação destas duas escolas por ordem de Dom João VI é que o  Brasil  passa  a  ter  médicos  verdadeiramente  brasileiros.37  Outro  momento  de 

impacto na medicina praticada no Brasil, anterior à chegada de Mure, foi quando o  Brasil se eleva à categoria de reino em 1815, e emancipa‐se de Portugal em 1822,  pois  neste  período  há  um  rompimento  profundo  de  laços  culturais  entre  Brasil  e  Portugal.  No  ambiente  da  medicina  isso  significou  um  afastamento  dos  estudantes  brasileiros  das  universidades  de  Coimbra  e  Lisboa  e  os  aproximou  fortemente  da  cultura  médica  francesa,  cuja  influência  foi  transformadora  da  prática  médica  no  Brasil.  Em  termos  gerais,  a  partir  deste  momento  o  Brasil,  como  grande  parte  do  mundo,  passa  a  ter  na  França,  ou  melhor  na  cultura  francesa  como  um  todo,  um  constante ponto de referência. Mesmo após grandes mudança, como a abertura dos  portos  (e  sua  consequente  afluência  de  conhecimentos  estrangeiros  e  uma  maior  cosmopolitização do país), ou como a mudança de referência cultural para a França,  

 

Sob  o  império,  as  mesmas  deficiências,  os  mesmo  obstáculos  oriundos  de  precárias  condições  socioeconômicas,  continuam  presentes.  E  o  ensino  médico,  sente  e  sofre  os  reflexos.  Prático  e  rudimentar  a  princípio,  quando  limitado  à  anatomia  e  à  cirurgia,  tornou‐se essencialmente teórico, livresco, nas academias e faculdades.  (…) eram rudimentares as instalações e aparelhagens nas escolas. (…) 

Os lentes das disciplinas básicas, como a Anatomia, a Fisiologia, a Física  e  a  Química,  baldos  de  recursos,  diluem‐se  na  mediocridade  e  ignorância gerais. (FILHO, 1991, p. 10‐11) 

 

Com  relação  à  condição  social  dos  médicos,  Lycurgo  Santos  Filho,  nos  diz:  “Uns são palacianos, validos do monarca, médicos da Imperial Câmara, titulares como 

barões,  viscondes  ou  condes.  Enveredam  pela  política.  São  deputados  ou  senadores,  presidentes  de  província  e  excepcionalmente  ministros  de  estado.”  (FILHO,  1991,  p. 

12). Não poucos nunca praticaram a profissão de médico ou professor, ou fizeram  fama superior com outras atividades, pois também se encontram entre eles literatos,  poetas e historiadores. Por muitas décadas do século XIX, a medicina praticada no  Brasil foi a mesma do século XVIII, teórica e clínica limitando‐se à observação dos  sintomas  visíveis  ou  supostos  da  doenças  e  com  definições  muito  confusas  e  díspares sobre as doenças, suas causas e suas profilaxias. A patologia repousava na  sintomatologia, e as causas eram atribuídas, como no século anterior, às condições  climáticas,  aos  miasmas,  aos  desregramentos  alimentares  e  sexuais,  à  estados  emotivos,  e  à  germes  (então  uma  entidade  genérica  sem  significado  claro).  As  principais  teorias  em  voga  na  Europa  e  no  Brasil  do  século  XIX  eram  o  vitalismo  animista galênico, a teoria da irritabilidade de Cullen, e a incitabilidade de Brown e  Broussais.  O  quadro  nosológico  das  doenças  continuou  igual  ao  dos  séculos  anteriores. Muitas epidemias, como a febre amarela, a varíola, o sarampo, a cólera, o  tifo e outras entidades mórbidas ainda não diagnosticadas corretamente no século  XIX  e  chamadas  então  genericamente  de  febres  malignas,  dizimavam  populações  pelo  Brasil  afora.38  A  cirurgia  por  sua  vez  sofreu  poucas  alterações  no  Brasil  até 

184839 com a primeira cloroformização de um paciente pré‐operatório, ou seja com 

a introdução da anestesia dos pacientes antes de submetê‐los a uma cirurgia ‐ antes  da anestesia e da posterior noção de assepsia criada por Pasteur, as cirurgias eram  procedimentos  interventivos  tão  traumáticos  como  uma  sessão  de  tortura  e  não  raro  eram  fatais.  A  primeira  ligadura  de  aorta  abdominal  realizada  no  Brasil  foi  comemorada em 1842, para a glória do famoso cirurgião Cândido Borges Monteiro e  para  o  infortúnio  de  seu  paciente  –  que  morreu,  como  era  costume  dos  pacientes 

submetidos à este tipo de procedimentos cirúrgicos então. Procedimentos estes que  eram praticados com um instrumental singelamente composto por tesouras, serras,  pinças,  lancetas,  agulhas,  martelos  e  cautérios.  Na  realidade,  grande  parte  dos  procedimentos cirúrgicos restringia‐se à amputações dos mais variados membros e  órgãos. Mas também trepanava‐se crânios, operava‐se catarata e extraia‐se cálculos  vesiculares.  

 

Durante este período a obstetrícia ainda não havia se tornado uma atribuição  exclusivamente  médica,  de  modo  que  era  trabalho  praticado  por  parteiras  populares,  comadres,  ou  parteiras  francesas,  a  odontologia  (arrancar  dentes)  era  ainda praticada por barbeiros e a enfermagem era delegada às religiosas das Santas  Casas de Misericórdia e aos escravos. A este tempo, os hospitais ainda eram apenas  depósitos de doentes, os loucos e alienados iam ou para a cadeia ou para as celas das  Casas de Misericórdia, e os leprosos eram apartados da sociedade nos famigerados  lazaretos  ou  leprosários.  Por  ordem  de  Dom  Pedro  II,  em  1852,  cria‐se,  numa  tentativa de humanizar um pouco o tratamento dos alienados, o Hospício Pedro II,  que  os  tratava  segundo  os  novos  métodos  de  Pinel.  Em  1854,  funda‐se  o  Imperial  Instituto dos Meninos Cegos, dirigido pelo famoso médico francês Dr. José Francisco  Xavier Sigaud e voltado ao atendimento dos desvalidos. Porém, em meio à sociedade  em geral, “O curandeirismo e o charlatanismo vicejam, florescem no seio da população  inculta. Curadores examinam e medicam, empregando as mesmas práticas dos séculos  anteriores, às quais acrescentam os novos e “miraculosos” elixires estrangeiros.” 40   

Mas  é  também  durante  a  segunda  metade  do  século  XIX  que  se  encerra,  segundo aponta Lycurgo Santos Filho, a fase brasileira da medicina pré‐científica, ou  como  ficou  conhecida,  a  “fase  heroica”  da  medicina  (que  devia  se  chamar  heroica,  pois  proporcionava  um  sofrimento  épico  aos  seus  pacientes).  Os  arautos  de  uma  nova  fase  da  medicina  (chamada  de  medicina  experimental  por  Lycurgo)  ficaram  conhecidos  como  grupo  de  tropicalistas  da  Bahia.41  Seus  integrantes  foram 

responsáveis  por  uma  nova  fase  de  pesquisas  experimentais  que  culminaram  na  acurada  descrição  de  novas  doenças  como  a  Filariose  (elefantíase)  e  a 

ancilostomíase  por  Oto  Wucherer,  que  também  descreveu  os  sintomas  do  envenenamento  ofídico,  e  com  as  descrições  de  Silva  Lima  sobre  o  beri‐beri,  o  anhum,  a  bouba,  o  máculo,  a  dracontíase  e  outras  doenças  tropicais  (foram,  majoritariamente  estudos  de  parasitologia).  Suas  descobertas  e  observações  terminam  por  ser  confirmadas,  replicadas  e  ampliadas  por  outros  médicos  brasileiros  do  Rio  de  Janeiro  e  Salvador.  A  efervescência  causada  pelos  trabalhos  destes  três  médicos  (José  Francisco  da  Silva  Lima,  Oto  Edward  Henry  Wucherer  e  John Ligertwood Paterson) enseja a criação do “mais importante órgão da imprensa 

médica  brasileira  do  século  XIX” 42  –  a  Gazeta  Médica  da  Bahia  (1866),  sobre  a 

direção de Virgílio Clímaco Damásio (professor da Faculdade de Medicina da Bahia).   

É na fase pré‐científica, que os poucos médicos formados nas escolas do Rio  de  Janeiro  e  da  Bahia,  substitutos  dos  antigos  “físicos”  dos  séculos  anteriores,  premidos  pela  necessidade  de  total  auto  suficiência  e  forçados  a  entender  e  a  praticar  todas  as  especialidades  (dada  a  escassez  de  recursos  e  profissionais),  tornam‐se aquilo que se convencionou chamar de “médicos de família” – ou seja “o 

facultativo que medicava os componentes de uma família, do recém nascido ao ancião,  de ambos os sexos, atendendo‐os ora como clínico, ora como cirurgião, e ainda como  parteiro.”43 O médico da família é um personagem que sobreviveu no Brasil (e em 

muitos  outros  países)  até  mais  ou  menos  as  décadas  de  1960/70,  quando  houve  uma mudança na estrutura e na natureza da prestação de serviços de saúde, com a  sedimentação das empresas de planos de saúde e suas estratégias econômicas e de  mercado,  que  reorganizaram  as  relações  de  trabalho  na  área,  acabando  com  essa  modalidade  de  prestação  de  serviços.  Contribuiu  para  isso  também  a  rapidez  com  que o conhecimento médico se atualizou e especializou da década de 60 em diante.   

  Embora  se  possa  usar  muitas  páginas  para  descrever  a  interessantíssima  história  da  evolução  da  medicina  brasileira  em  seus  detalhes,  nenhuma  descrição  pode expor melhor o que queremos demonstrar do que a descrição que a medicina  de  então  fazia  sobre  as  doenças,  suas  causas  e  seus  respectivos  prognósticos  de 

tratamento.  Por  isso,  vamos  agora,  examinar  algumas  das  doenças  mais  citadas  durante o século XIX, suas possíveis causas e seus respectivos tratamentos. 

 

  A  bouba  (também  piã)  Framboesia  trópica,  foi  citada  em  uma  sessão  da  Sociedade  de  Medicina  do  Rio  de  Janeiro  em  1835,  por  João  Álvares  Carneiro,  que  informou  que  ela  poderia  se  apresentar  de  três  formas  distintas:  a)  a  úmida  (com  lesões  eruptivas  encontradas  na  região  anal  e  genital;  b)  a  seca  (com  pústulas  recobertas  com  crostas  amarelo‐esverdeadas)  e  c)  cristalina  (com  pústulas  semelhantes  àquelas  da  vacina  antivariólica).  Seu  contágio  podia  se  dar  tanto  por  meio de relações sexuais como por meio de picadas de mosquitos. Sigaud descreveu  a doença como endêmica no país e preconizou que os boubáticos poderiam tornar‐ se  leprosos44  devido  “à  uma  origem  comum  com  a  sífilis”.45  Como  tratamento,  há 

uma  prescrição  de  1814  em  que  se  preconiza  a  ingestão  de  mercúrio,  ou  ainda  a  infusão de folhas de maracujá maceradas e misturadas com acetato de cobre. 

 

Durante  a  primeira  metade  do  século  XIX,  as  disenterias  que  assolavam  frequentemente  vastas  regiões  do  país  e,  que  invariavelmente  atacavam  os  estrangeiros recém chegados, ainda não tinham seus agentes conhecidos. Em 1819,  James Hall, médico inglês residente em São Luís do Maranhão, informa que naquela  capitania, os praianos, por encontrarem‐se mais expostos à evaporações marítimas,  seriam mais suscetíveis às diarreias do que os habitantes do interior. Em Belém do  Pará  as  disenterias  eram  associadas  à  intensificação  das  chuvas  que  causavam  os  sintomas  “pútridos  e  coliquativos”  das  disenterias.  Para  Sigaud  as  “disenterias  epidêmicas”  do  Brasil  eram  causadas  por  lesões  no  fígado  ou  inflamações  intestinais. Ele dizia, por exemplo, que a “disenteria hepática” podia ser causada por  uma hepatite ou por “febres intermitentes”. Em 1854, a cidade de Vitória no Espírito  Santo,  foi  devastada  por  uma  epidemia  de  disenteria  chamada  de  “câmaras  de  sangue”.  Em  caráter  de  emergência  o  próprio  governo  da  província  aconselhou  como  tratamento  a  “infusão  de  linhaça,  gotas  de  láudano  e  clisteres  de  infusão  de 

linhaça ou de clara de ovo.” (NOVAIS,  apud  FILHO,  1991,  p.  184).  Durante  o  século 

suas causas e agentes eram desconhecidos e os únicos elementos considerados para  identificar  uma  doença  eram  seus  sintomas  visíveis  (ou  imaginados),  “as hipóteses 

mais  esdrúxulas  eram  aventadas  sobre  a  eclosão  e  a  evolução  da  afecção.”  Os 

tratamentos ainda não eram baseados no combate às reais causas das doenças, mas  na supressão da expressão de seus sintomas (exatamente como na Homeopatia de  Hahnemann). Sob a ótica atual, alguns dos tratamentos preconizados então podem  ser considerados como de caráter tragicômicos. Tomemos como exemplo o caso de  Luis  Pientznauer,  professor  da  faculdade  de  medicina  do  Rio  de  Janeiro,  que  publicou  nos  Anais  Brasilienses  de  Medicina  (1858‐9)  um  artigo  intitulado  “Memória  sobre  a  aplicação  do  óleo  de  cróton  tiglio,  das  preparações  opiadas  e  do 

vinho, na disenteria”. Resta observar que atualmente se sabe que o óleo extraído das 

sementes do Croton tiglium age no organismo como um violento purgante, de modo  que  certamente  ajudou  a  matar  muitos  de  seus  pacientes  (restava‐lhe,  provavelmente, como era costume em sua época, observar aos familiares do doente  que ele havia “morrido curado”). 

 

As febres foram uma outra “entidade” que, durante o século XIX, ocupou um  papel  de  grande  importância  no  campo  da  patologia  clínica.  Francisco  de  Melo  Franco, adepto da concepção de William Cullen sobre as pirexias, escreve em 1829,  que as febres mais graves existentes no Rio de Janeiro eram a “malárica”, seguida da  “tífica”  e  por  ordem  decrescente,  a  “biliosa”,  a  “mucosa”  e  etc.46  Broussais,  médico 

francês  muito  influente  no  Brasil,  combatendo  a  doutrina  de  Cullen,  propôs  uma  classificação diferente e diferenciou as febres produzidas por “gastroenterites”, por  “gastroduodenites”  e  por  gastroencefalites”.  Em  1810  e  1812,  morreram  de  “febre  maligna” respectivamente os condes de Anádia e de Linhares, ambos ministros de D.  João VI. Spix e Martius atribuiram estas mortes à “febre pútrida” e à “decomposição  dos humores”. A este respeito, eles escreveram o seguinte:     Não é cousa  rara aqui no Rio, e sobretudo nos países tropicais,  ver‐se um indivíduo, ainda poucos dias antes em pleno viço de saúde,  após  curto  sofrimento,  cólicas,  diarreia,  febre,  etc.,  perto  da  morte, 

com  a  fisionomia  hipocrática,  em  plena  agonia  e  em  última  fase  da  febre  pútrida.  (SPIX  e  MARTIUS.  Viagem  pelo  Brasil.  1:108,  apud  FILHO, 1991, p. 186) 

 

Mas  havia  também  a  “febre  nervosa”  (que  acontecia  por  “inflamação  das  meninges”), a febre tifoide, também chamada de “febre lenta nervosa de Huxan”, a  “febre  hética”,  a  “febre  nervosa  com  paralisia”,  a  “febre  tifo‐malárica”  e  tantas  outras.  O  Barão  de  Torres  Homem,  o  mais  famoso  clínico  brasileiro  de  seu  tempo,  escreveu  que  as  febres  tifo‐maláricas  eram  “entidades  nosológicas”  das  “pirexias  essenciais” e a parte mais importante da história da nosologia nacional. Nesta época,  a  sangria  ainda  era  tratamento  corrente  contra  as  febres,  ela  podia  ser  feita  por  meio  de  cortes,  aplicação  de  ventosas  ou  sanguessugas.  Além  das  mais  diversas  ervas empregadas no tratamento das febres e da dieta de caldo de galinha, por não  poucas  vezes  foi  preconizado  um  tratamento  para  certos  tipos  de  febre  que  prescrevia  o  uso  de  cautérios  (instrumentos  de  cauterização,  normalmente  hastes  de  metal  em  brasa  –  não  por  acaso  a  palavra  é  sinônimo  de  castigo)  aplicados  na  barriga das pernas, no interior das coxas e na nuca. Outra opção similar era arrancar  a pele da barriga da perna com escova e agua fervente,47 pois assim, imaginava‐se, a 

febre  migraria  para  as  chagas  que  serviriam  como  porta  de  saída  do  corpo  para  a  febre. 

 

  O século XIX foi um século bastante atribulado em termos de saúde pública,  pois diversas epidemias, como as de cólera‐morbo e febre amarela, assolaram o pais  por  boa  parte  do  século,  matando  milhares  de  pessoas.  A  febre  amarela  que  aparentemente não se fazia ver desde o século XVII, irrompe no Brasil em setembro  de 1849, trazida para Salvador pelo navio norte americano “Brasil”, vindo de Nova  Orleans. Conta‐se que o navio não foi posto em quarentena, pois o capitão escondeu  que havia perdido dois tripulantes para o “vomito negro” durante a viagem. Tendo  Salvador como epicentro (onde relata‐se que matou por volta de 7.000 pessoas48), a 

febre  amarela  foi  espalhada  pelo  resto  do  país,  atingindo  primeiro  as  cidades  portuárias  e  depois  as  cidades  do  interior.  No  Recife,  faleceram  quase  três  mil 

pessoas, no Rio Grande do Norte, foram aproximadamente 200 mortos e em Belém  do  Pará,  “em  poucas  semanas”  a  febre  matou  quase  4%  da  população.49  Um  dos 

grandes  problemas,  além  do  desconhecimento  das  causas  da  febre  amarela,  era  o  fato de que não havia acordo entre as autoridades sobre a própria existência de uma  epidemia, de modo que mesmo as medidas mais simples levaram muito tempo para  serem  tomadas.50  No  Rio  de  Janeiro,  em  princípios  de  1850,  o  provedor  da 

Irmandade  de  Misericórdia  alertou  o  ministro  do  império  sobre  os  casos  de  febre  amarela  em  seu  hospital,  mas  os  membros  da  Academia  Imperial  de  Medicina  negaram que a doença descrita fosse febre amarela. Assim, em pouco tempo, mais  de 10.000 pessoas contraíram a doença e por volta de 2.000 morreram. Em 1850 o  pânico já havia se instalado na corte e nobres, burgueses e cidadãos com recursos  mínimos fugiram das cidades para a serra ou para subúrbios distantes (D. Pedro II e  sua família foram para Petrópolis, então conhecida como Fazenda do Córrego Seco).  Uma  vez  disseminada  a  doença,  os  governos  imperial  e  provinciais  tomaram  medidas acautelatórias e estabeleceram quarentena em todo o país, com isolamento  de naus e viajantes procedentes de todos os portos atingidos. Quase um ano após o  início  da  epidemia,  o  ministro  do  império,  José  de  Costa  Carvalho,  o  Marquês  de  Monte  Alegre,  nomeou  uma  “Comissão  Central  de  Saúde  Pública”,  incumbida  de  propor ao governo as ações necessárias para o refreamento da epidemia. Um código  sanitário  foi  elaborado  pela  Comissão  Central,  que  impunha  atender  e  medicar  os  pobres  gratuitamente,  dificultava  os  enterros  nas  igrejas,  ordenava  a  confecção  de  uma mapa estatístico semanal sobre óbitos e aconselhava medidas de higiene (como  a  desinfecção  dos  quartos  dos  mortos  e  doentes  por  meio  de  fumigação  de  “uma 

mistura de ácido sulfúrico, sal de cozinha e peróxido de manganês”). Também deviam 

ser  combatidos  os  perigosos  “miasmas”  dos  pântanos  bem  como  as  “emanações  pestilentas”  originárias  do  lixo  das  ruas  e  das  latas  de  excrementos  transportadas  pelos  “tigres”  (escravos  incumbidos  de  jogar  os  excrementos  no  mar).  Todas  as  medidas  tomadas  então,  em  nada  diferiram  das  medidas  preconizadas  durante  a  epidemia do século XVII. Sendo a causa da febre amarela ainda uma incógnita, tudo  que se possa imaginar foi tentado para contê‐la. Em Belém do Pará, por exemplo, o  governo  da  província  mandou  dar  “tiros  de  canhão  nas  esquinas  das  ruas  para 

purificar o ar”, e com o mesmo intuito, fogueiras de lenha e alcatrão eram acessas  nas  ruas,  nas  praias  e  nas  praças  públicas.  Pouca  coisa  adiantou  e,  de  1850  até  o  início  do  século  seguinte,  a  febre  amarela  permaneceu  no  Brasil  manifestando‐se  por  meio  de  surtos  epidêmicos  em  praticamente  todas  as  províncias  do  país.  E  assim,  a  cidade  do  Rio  de  Janeiro,  capital  do  império,  onde  a  doença  adquiriu  um  caráter endêmico epidêmico, tornou‐se uma cidade muito mal afamada e evitada ao  máximo por todos os estrangeiros em viagem. Nesta cidade, entre os anos de 1860 a  1873 um surto chegou a matar, de acordo com Lycurgo Santos Filho, 10 pessoas por  dia. Em 1889 na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, houve um surto tão  grave  (matando  centenas  de  pessoas  em  poucas  semanas)  que  a  cidade  foi  praticamente  evacuada  pela  população.  Entre  os  meses  de  abril  e  maio  as  mortes  diárias  oscilaram  entre  25  e  40.  Até  o  início  do  século  XX  a  epidemia  de  febre  amarela em Campinas manteve a cidade praticamente abandonada. Outro exemplo  do poder de devastação da febre amarela é a cidade de Cataguases, na província de  Minas  Gerais  ‐  que  foi  despovoada  num  surto  de  febre  amarela  em  1889,  assim  permanecendo até por volta de 1896. “Enquanto os médicos discutiam se a moléstia 

era a febre amarela, genuína ou modificada, a febre biliosa grave dos países quentes, a  febre  palustre  nas  suas  manifestações  mais  temerosas,  a  parca  implacavelmente  ia  ceifando  vidas.”  51  Para  se  ter  uma  ideia  da  confusão  reinante  dentro  do 

establishment  médico  sobre  a  febre  amarela,  basta  dar  uma  olhada  nos  títulos  dos 

artigos,  livros  e  pesquisas  sobre  o  tema  publicados  na  época:  “A febre amarela e o 

cólera‐morbo  são  provenientes  de  um  envenenamento  miasmático”.  Bahia,  1858.; 

“Diagnóstico  diferencial  da  febre  amarela  e  febre  biliosa  dos  países  quentes”  Rio  de  Janeiro,  1870.;  “Os banhos frios no tratamento da febre amarela”,  Gazeta  Médica  da  Bahia,  1872‐3.;  “Qual  o  melhor  tratamento  para  febre  amarela?”,  Bahia,  1875.;  “O 

micróbio  da  febre  amarela”,  Brasil  Médico,  Rio  de  Janeiro,  1887.;  “Tratamento  da  febre amarela pela água clorada”, Rio de Janeiro 1897. 

 

  Até  que  se  descobrisse  as  causas  da  febre  amarela  nada  pôde  ser  feito  de 

Benzer Belgeler