O papel do cão como principal reservatório doméstico de
Leishm ania leva a um crescente interesse de pesquisadores que
tentam entender melhor quais fatores seriam responsáveis pela sua resistência ou susceptibilidade à infecção. Assim, alguns grupos de pesquisa vêm concentrando esforços no sentido de melhor compreender os mecanismos imunopatológicos envolvidos com a história natural da doença no cão, buscando correlacionar clínica com a resposta imune celular e humoral (PINELLI et al., 1994; PINELLI et al.,
1995; BOURDOISEAU et al., 1997b; SOLANO-GALLEGO et al., 2001b;
CORDEIRO DA-SILVA et al., 2003; QUINNEL et al., 2003; ALMEIDA et al.,
2005; GIUNCHETTI et al., 2006; REIS et al., 2006a; REIS et al., 2006b;
REIS et al., 2006c). Em relação à imunidade protetora e aos processos
imunopatológicos, durante a infecção por parasitos do gênero
Leishm ania, evidências experimentais demonstram que os aspectos
referentes ao parasito e ao hospedeiro podem influenciar de maneira crucial na infecção. A incapacidade do hospedeiro em controlar a infecção pode estar relacionada a dois fatores principais: o estabelecimento de um perfil de imunidade celular e humoral pelo hospedeiro vertebrado capaz de favorecer a formação de um microambiente apropriado para a instalação do parasito; e a habilidade de algumas cepas de Leishm ania resistirem aos efeitos
microbicidas ocorridos durante os processos de imunidade inata e adaptativa do hospedeiro (GRIMALDI & TESH, 1993).
Uma observação relevante referente à resposta imune na infecção por Leishm ania é que, durante a infecção, o organismo do
hospedeiro fica exposto a uma série de antígenos pertencentes ao parasito, respondendo a estes estímulos através de mecanismos da
imunidade celular e humoral. Neste contexto, a leishmaniose torna-se uma disfunção imunológica específica resultante do parasitismo do
SMF por Leishm ania, produzindo um grande número de
manifestações clínicas e imunológicas, reversíveis com o tratamento específico ou espontaneamente nos indivíduos imunologicamente competentes. Assim, a leishmaniose apresenta-se como um bom modelo para estudo da resposta imune humoral e da imunidade mediada por células nos hospedeiros infectados.
Devido a estes fatores a leishmaniose tem sido amplamente investigada, permitindo o entendimento da imunidade protetora bem como dos mecanismos imunopatológicos desencadeados por este patógeno. Em determinados modelos murinos parecia ocorrer uma dicotomia na resposta imune, sendo dividida inicialmente em Th1 e Th2 (COFFMAM & MOSMANN, 1989). Atualmente, a resistência do
hospedeiro tem sido associada com a ativação seletiva e diferenciação de um padrão de imunidade do tipo 1, no qual, citocinas como o INF-γ, e TNF-α são de fundamental importância para o estabelecimento de mecanismos de proteção. Por outro lado, a infecção progressiva e fatal está relacionada a uma resposta predominantemente do tipo 2, com participação de citocinas como a IL-4, IL-5 e IL-10 (COFFMAM & MOSMANN, 1989; HEINZEL et al., 1991;
ERB et al., 1996; MIRALLES et al., 1994; SACKS & TRAUTH, 2002).
Entretanto, no modelo canino os estudos realizados até o momento ainda são insuficientes para estabelecer um padrão de resposta imune do tipo resistência versus suscetibilidade em cães naturalmente e/ou experimentalmente infectados por Leishm ania
spp. (BARBIERI, 2006; REIS et al., 2008). Estudos pioneiros indicam
que a resistência está associada a baixos níveis de anticorpos específicos e a presença de uma forte resposta mediada por células levando a produção de IL-2, INF-γ e TNF-α (PINELLI et al., 1994). Tais
citocinas são responsáveis por estimular diretamente a atividade leishmanicida dos macrófagos o que corresponderia a uma provável
resposta tipo 1 (PINELLI et al., 1995; VOULDOUKIS et al., 1996). Já a
susceptibilidade estaria correlacionada a altos níveis de anticorpos e a ausência de uma resposta mediada por células, correspondente a uma resposta tipo 2 (ALVAR et al., 2004), como observada em
modelos murinos.
Mais recentemente nosso grupo de pesquisa somou informações interessantes a respeito da resposta imune na LVC. Em estudo realizado em cães naturalmente infectados com L. infant um chagasi, (REIS,2001; REIS et al., 2006c) observaram uma elevação no
percentual de linfócitos T CD8 + em culturas in vitro estimuladas com
antígenos de L. infant um chagasi, em relação a culturas controle, no
grupo de cães assintomáticos. O detrimento da habilidade de cães sintomáticos em recrutar células T CD8 + antígeno-específicas estaria comprometendo o estabelecimento de mecanismos imunoprotetores. Estes autores também mostraram que animais sintomáticos apresentavam predomínio de linfócitos T CD8 + circulantes, quando comparados aos animais sintomáticos. A razão (CD4 +/CD8 +) na população de esplenócitos totais apresentou-se diminuída apenas no grupo de cães assintomáticos, devido a um aumento seletivo da sub- população de esplenócitos T CD8 + (REIS, 2001; REIS et al., 2006c).
Estes dados reforçam o papel protetor de células T CD8 + na LVC, sugerindo ainda que uma migração preferencial dessas células para o baço possa ocorrer com o objetivo de promover a lise de macrófagos infectados. Consistente com esta hipótese, REIS et al. (2006c)
demonstraram a existência de um menor parasitismo esplênico em cães assintomáticos.
Em estudo pioneiro de histopatologia da LVC KEENAN et al.
(1984) preconizaram que a presença de anticorpos específicos anti-
Leishm ania não seria suficiente para promover a proteção da doença,
mas que a proteção também não aconteceria na ausência de anticorpos. Com isto diversas pesquisas têm focado nas correlações existentes entre o perfil das classes e subclasses de Ig com o tipo de
resposta produzida durante o processo de infecção no hospedeiro (BOURDOISEAU et al., 1997; SOLANO-GALLEGO et al., 2001b; CORDEIRO DA-SILVA et al., 2003; QUINNEL et al., 2003; ALMEIDA et al., 2005; REIS
et al., 2006a).
Inicialmente, DEPLAZES et al. (1995), observaram a presença de
maiores níveis de IgG2 em cães assintomáticos enquanto que em animais sintomáticos os níveis mais elevados seriam de IgG1. A partir daí diversos estudos passaram a sugerir novos perfis de classes e subclasses de Ig como biomarcadores de resistência versus susceptibilidade em relação ao status clínico na LVC. Alguns pesquisadores demonstraram que os níveis de IgG anti-Leishm ania
eram maiores em cães que apresentavam características clínicas da LVC (SOLANO-GALLEGO et al., 2001b; ALMEIDA et al., 2005; INIESTA et
al., 2005; REIS et al., 2006a). Além disso, foi relatado que altos níveis
de IgG específica anti-Leishm ania estavam correlacionados com baixa
imunidade celular específica (PINELLI et al., 1994; MARTINEZ-MORENO et
al., 1995; RHALEM et al., 1999; FERNANDEZ-PEREZ et al., 2003). Estudos
recentes demonstraram que os níveis de IgE estão diretamente correlacionados com a susceptibilidade do animal à L. infant um
(ALMEIDA et al., 2005; INIESTA et al., 2005; REIS et al., 2006). Níveis
elevados de IgM foram detectados em cães sintomáticos infectados por L. infant um no Brasil e na Espanha (RYAN et al., 2002; RODRIGUEZ
et al., 2006), porém REIS et al. (2006ª) não encontraram relação
entre status clínico e níveis de IgM.
Podemos dizer que a infecção em animais sintomáticos está correlacionada a altos títulos de imunoglobulinas anti-Leishm ania das
classes IgG, IgE e IgA (INIESTA et al., 2005; REIS et al., 2006a),
porém, a utilização de classes e subclasses de Ig como marcador de resistência e suscetibilidade ainda é considerada controversa na literatura, pois não se tem um padrão claro de comportamento deste marcador frente à infecção por Leishm ania sp. em cães.
Resumindo, os estudos referentes aos eventos imunológicos associados à imunoproteção e patologia na LVC mostram, até o momento, que os padrões de imunidade protetora em cães infectados por Leishm ania são semelhantes àqueles observados em modelos
murinos e em humanos. Este padrão de imunoproteção requer o estabelecimento de uma resposta imune celular, antígeno-específica, com a produção de um padrão específico de citocinas e de imunoglobulina antígeno-específica.