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Figura 5 – ai, pareciam eternas!

Fonte: Galeria Celma Albuquerque, Belo Horizonte

A terra do poema de Drummond aparece, como indicamos anteriormente, em outra instalação, cujo título vem de um verso de “Morte das casas de Ouro Preto”: ai,

pareciam eternas! Entre parênteses, Nuno Ramos acrescenta “3 lamas”. É nessa obra que ele

consegue reativar o chamado da terra contido no poema de Drummond. Existe no título uma equivalência da origem e do destino das casas que marca uma passagem sobre a matéria que é imemorial e permanente: a lama. A morte está ligada à terra. Ela é telúrica e ao mesmo tempo erótica e, em suas distintas forças e vetores, nos convoca para a vida. Por ser erótica, a morte é lúbrica por dois motivos: pelo deslizamento ao incognoscível e pelo espaço do não-saber. O primeiro seria a própria animalidade que faz com que o homem deslize em direção ao animal. A segunda implica na ênfase contínua da matéria. Esse seria um espaço o qual poderíamos nomea-lo de informe.

A terra também está ligada ao “luto”. A partir de Os sertões, de Euclides da Cunha, esse “luto” torna-se “luta”.18 É preciso entender a terra – e a lama – como uma zona de tensão entre o homem e o animal em que se rearticulam “luto” e “luta”, e que tem um de

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CUNHA, Euclides da. Os sertões. Edição, prefácio, cronologia, notas e índices por Leopoldo Bernucci. São Paulo: Ateliê Editorial, Imprensa Oficial do Estado, Arquivo do Estado, 2001.

seus pontos de fuga fundamentais na elaboração de um abrigo, de um lugar para o corpo, tanto para os vivos (a casa) quanto para os mortos (o túmulo). A terra tem, para Nuno Ramos, a consistência de um corpo, o que pode ser lido em seu ensaio sobre Euclides da Cunha intitulado “A terra (Euclides da Cunha)”. Ele escreve que a primeira parte do livro Os sertões, “A terra” (as outras duas são intituladas “O homem” e “A luta”), está “como numa lição de anatomia, (e) é à exumação de seu cadáver que estamos assistindo neste primeiro capítulo.”19 Existe um movimento do cadáver ao túmulo e retornamos à terra, à sua matéria e à sua força de composição e de decomposição. Em Ó, livro de Nuno Ramos de 2008, existe uma narrativa intitulada “Túmulos”. Talvez conhecidos como um lugar de proteção entre os vivos e os mortos, os túmulos – por extensão à “Morte das casas de Ouro Preto” de Drummond – também morrem: “há uma ilusão fundamental em todo túmulo, uma matéria básica de que sempre são feitos: o esquecimento de que o próprio túmulo também morre e apodrece.”20 O apodrecimento do túmulo faz parte do tom fabular por onde começamos o nosso percurso: no

início era a morte. À medida que se lê o poema de Drummond com o ensaio e a narrativa de

Nuno Ramos citados, o tom fabular marcado começa a se esvaziar: no início era a morte. Tal início, que espelha o cemitério na cidade, acontece pela história da distinção entre o homem e o animal, o que faz tanto da casa quanto do túmulo os rastros de um drama que os distingue, o que inclui um horror, uma aversão à morte e aos mortos que, para Bataille, é extremamente ambígua.21

A ambiguidade que está nessa “aversão” passa pelo “desgosto” ou por uma “repugnância”. Le dégoût, do filósofo húngaro Aurel Kolnai, publicado em 1929, foi uma leitura inquietante para Georges Bataille, justamente por que nesse pequeno livro Kolnai abordava uma reação somática e psíquica diante certas qualidades materiais de objetos, de onde destaca-se a “viscosidade”.22 Por esse viés, a consistência da lama participa ativamente do drama da passagem do animal para o homem: a casa e o túmulo. Observando o espaço instalativo utilizado por Nuno Ramos para ai, pareciam eternas! (3 lamas), a casa é o túmulo. O túmulo é a casa. E ambos morrem. Essa obra foi executada em setembro de 2012 na Galeria de Arte Celma Albuquerque, em Belo Horizonte, onde Nuno Ramos remontou partes das três casas nas quais ele viveu e que, na exposição, soçobravam na lama. As três casas estavam agônicas, em vias de morrer, no espírito do embate que acontece em Morte das casas. A instalação participa de um trabalho de luto e de melancolia, mesmo que relute no espaço

19 RAMOS, Nuno. Ensaio Geral. São Paulo: Globo, 2007. p. 27. 20 RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008. p. 40. 21

BATAILLE, L’histoire de l’érotisme, p. 62. 22

físico do sonho. Lorenzo Mammi, a partir do sonho, busca uma dos elementos constantes na obra de Nuno Ramos. No breve texto do catálogo ai, pareciam eternas! (3 lamas), Mammi toma como ponto de partida “uma imaginação sem imagens”23 para chegar a uma indefinição originária. A associação entre as palavras e as coisas não está apenas restrita ao corpo desperto e às normas da linguagem. Existe um espaço de formação das imagens ainda indefinido. Isso, no entanto, acontece no lapso entre o verso do poema (que dá título à obra) e a instalação artística.

Figura 6 – ai, pareciam eternas!

Fonte: Galeria Celma Albuquerque, Belo Horizonte

Essas três casas que se diluem na lama evocam um lamento que está na simples interjeição do poema, “ai”, seguida de “pareciam eternas!”. “Ai”, interjeição que marca um lamento ou um grito de dor, enfim, uma ferida a ser escutada, nos termos de Georges Didi- Huberman.24A partir desse “ai”, as casas assumem a instabilidade e a inconstância próprias da vida, e toda sua segurança se desfaz em sua própria matéria. A alvenaria se torna lama. A instalação, enfim, abre uma experiência da forma encontrada em alguns quadros de Nuno Ramos dos anos 1990, nos quais a matéria está acumulada na tela ao ponto de minar o espaço vertical do quadro pelo excesso e pela diversidade de materiais, que insinuam o movimento

23 “Uma das constantes do trabalho de Nuno Ramos é apontar para uma imaginação sem imagens – o fundo confuso do qual, no pensamento e no sonho, as coisas emergem, e de que temos consciência apenas porque, uma vez formadas, elas mantêm alguma marca da indefinição originária. Em sonho, uma vaga presença se torna algo quando dizemos: ‘é uma casa, é um cachorro, é meu tio’. As coisas passam a existir ao nomeá-las, mas, se nomeamos, é porque de alguma forma já estavam lá. Nomear se parece com acordar, mesmo que continuemos dormindo”. MAMMI, Lorenzo. Ai, pareciam eternas! (3 lamas). Belo Horizonte: Celma Albuquerque, 2012. p. 19.

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do quadro para o chão. Isso acontece pois o quadro não é apenas o pigmento, ele obedece à gravidade e insinua o movimento da queda. A lama, para Nuno Ramos, tampouco se restringe aos pigmentos terrosos. Ela é uma massa inerente aos movimentos contínuos da morte e da vida, marcando nesse movimento uma topografia. Nesse sentido, a utilização do chão pelo artista como um espaço privilegiado para as instalações faz parte dessa ligação com a terra, com a utilização de materiais viscosos, com o erotismo e com a morte.

Benzer Belgeler