Indubitavelmente, o clima desempenha um papel fundamental na composição da paisagem, pois além de influenciar a distribuição e a disponibilidade dos recursos hídricos, também controla a ação dos processos exógenos (SOUZA et al., 2009). Mas, por outro lado, ele é condicionado por fatores estáticos globais e locais.
Segundo Magalhães e Zanella (2011), a altitude do relevo e a latitude são os principais fatores estáticos que condicionam o clima da Região Metropolitana de Fortaleza. A sazonalidade é decorrente da atuação de diferentes sistemas atmosféricos e da baixa altimetria que favorece a entrada destes sistemas pelo oceano. O principal deles é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), mas também estão presentes os Vórtices Ciclônicos de Ar Superior (VCAS), os Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs), as Linhas de Instabilidade, as Frentes de Brisas e as Ondas de Leste. Os três últimos interferem na espacialização das chuvas, onde se observa valores mais altos no litoral.
Outra característica a se observar é a variabilidade inter-anual, pois a quantidade de precipitação também é influenciada pela atuação dos fenômenos El Niño e La Niña, assim como pela temperatura da superfície do mar do oceano Atlântico Tropical Norte e Sul
(Dipolos do Atlântico Tropical) (SOUZA; ALVES; XAVIER, 1998; XAVIER, 1998 apud MALVEIRA, 2003; FERREIRA; MELLO, 2005). Marengo (2006) e Magalhães e Zanella (2011) observam um incremento no volume de chuvas, mas isso não significa a não ocorrência de secas, pois podem ocorrer anos de chuvas excessivas, anos com chuvas escassas ou meses extremamente chuvosos como o ocorrido na quadra chuvosa de 2005.
Para Repelli et al. (1997), a precipitação é um elemento tão determinante que, na região Norte do Nordeste Brasileiro, é ela que define as estações do ano e não a temperatura. Em média, a temperatura do ar situa-se em torno de 26,7°C, alcançando os valores mais elevados entre os meses de Novembro a Janeiro e, mais baixos, de Junho a Agosto. Ao longo do ano, a maior amplitude é alcançada em Agosto, correspondendo a um valor de 7,7°C e a menor (6,3°C), em Março (PETALAS, 2000).
Comparadas às de latitudes mais elevadas, a amplitude térmica mensal e anual de Fortaleza pode ser considerada pequena. Talvez esse seja um dos motivos que faz com que somente as condições hídricas sejam consideradas nos planos diretores. Isso é um fato constatado que se reflete na evolução da cidade. Zanella e Moura (2013) observam que apesar do volume dos estudos realizados no campo térmico, no atual PDPFor, o clima continua a ser definido de modo bastante genérico.
O processo de ocupação da cidade de Fortaleza, propriamente dito, inicia-se em meados do século XVII, às margens do Riacho Pajeú, mas a sua firmação como principal núcleo administrativo acontece somente no início do século XIX. Nesse período, é elaborado pelo engenheiro Silva Paulet, o primeiro Plano Diretor de Fortaleza, originando sua atual estrutura urbana composta por um traçado em xadrez que atua em conjunto com o sistema rádio-concêntrico formado pelas estradas de acesso ao interior (PETALAS, 2000).
As frequentes secas registradas no Estado do Ceará impulsionam o crescimento urbano desordenado devido ao êxodo rural, pois a cidade é vista como esperança de melhores condições de vida e de trabalho, mas, sem uma política habitacional, não consegue absorver todo o contingente de migrantes. Segundo Marengo (2006), entre 1872 e 1998 são registrados 31 anos de seca na região do Nordeste Brasileiro.
A população praticamente duplica entre as décadas de 40 e 70, levando à formação das primeiras ocupações irregulares concentradas em áreas próximas às ferrovias, indústrias, zonas de praia e às margens dos rios (PAIVA, 2010; SOUSA FILHO; SALES, 2010; SANTOS, 2011).
Apesar da tentativa de elaboração e implantação de novos Planos Diretores, a cidade segue crescendo desordenadamente. Na década de 60, observa-se que as reservas
paisagísticas e os recursos hídricos não são preservados, as novas praças são raras e as que já existem, dividem seu espaço com edifícios públicos, não existe harmonia entre os espaços abertos e construídos e a arborização é escassa (PETALAS, 2000).
Na década de 70, a malha urbana começa a penetrar nos municípios vizinhos, a sobreposição dos anéis viários às principais vias de acesso modifica os fluxos de circulação e requalifica os espaços localizados em sua área de influência, provocando uma descentralização das funções urbanas e a emersão de novos centros. Nesse período, a ação imobiliária começa a mudar a paisagem com a verticalização e a instituição da Região Metropolitana de Fortaleza acelera ainda mais o crescimento populacional.
Paralelamente, o governo do Estado atrai a instalação de indústrias e de empreendimentos voltados ao turismo, que, apesar das benfeitorias, agravam os contrastes sociais e incrementam a especulação imobiliária.
Segundo Sousa Filho e Sales (2010), os primeiros problemas relacionados às áreas de risco, principalmente nas margens dos principais rios que banham a cidade, datam desse período. Petalas e Luna (2011) verificam que o maior crescimento da mancha urbana é registrado entre as décadas de 80 e 90, com o acréscimo de 23,5% da área construída e redução de 35,8% da cobertura vegetal.
No processo de urbanização da cidade observa-se uma constante falta de continuidade e revisão dos Planos Diretores, fazendo com que eles funcionem mais como um instrumento corretivo que diretivo. Mas, se por um lado, o potencial hídrico e o relevo de Fortaleza favorecem a sua ocupação, por outro, como ressaltado por Souza et al. (2009), a cidade detém um complexo mosaico de sistemas ambientais sujeito a alterações provocadas pelas atividades socioeconômicas.
A expansão urbana de Fortaleza vem acompanhada por alterações no balanço de radiação decorrentes do uso e ocupação do solo, nível de impermeabilização, verticalização, características físico-químicas dos materiais de construção, morfologia urbana, desmatamento, assoreamento dos recursos hídricos, dentre outros, que se refletem diretamente no clima da cidade com a identificação de ilhas de calor (MOURA, 2008; SANTOS; GOMES; AZEVEDO, 2013) e alterações climáticas (XAVIER; XAVIER, 1996; PETALAS, 2000; MALVEIRA, 2003; SOUSA FILHO; SALES, 2010).