A intervenção visou superar o segundo desafio indicado pelo Ministério da Saúde (2002) que é o de sensibilizar e capacitar profissionais de saúde para compreenderem o significado, as manifestações e as conseqüências dos maus-tratos para o crescimento e desenvolvimento das crianças e dos adolescentes e da mesma forma, capacitá-los para o diagnóstico, a notificação e os encaminhamentos dos problemas que constataram. O conteúdo da capacitação dividiu-se em quatro temas principais, a saber:
1. Definição sobre violência contra a criança e o adolescente, situando-os no contexto da violência social brasileira e da forma como o Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde a considera;
2. Definição do conceito de notificação e a diferenciação da denúncia e sua importância para a sociedade;
3. Apresentação de informações sobre o funcionamento e as dificuldades dos Conselhos Tutelares, Sistema Judiciário e das Redes Sociais de Apoio;
4. Utilização adequada da ficha de notificação de maus-tratos;
Adicionalmente, a intervenção apoiou-se na experiência de capacitação do LAPREV (Laboratório de Análise e Prevenção da Violência) no ensino a diferentes profissionais como, por exemplo, policiais (WILLIAMS; GALLO; MALDONADO; BRINO; BASSO, 2000), professores (BRINO; WILLIAMS, 2003; BRINO; WILLIAMS 2008; BRINO; WILLIAMS 2009; WILLIAMS ET AL., 2009), conselheiros tutelares (SILVA, 2004) e monitores de abrigos infantis (PRADA; WILLIAMS, 2007).
Os objetivos específicos da capacitação foram que, ao final do curso, os profissionais fossem capazes de: a) identificar o fenômeno da violência; b) identificar os tipos de violência contra crianças e adolescentes; c) identificar os sinais e sintomas
31 associados; d) identificar fatores de risco e proteção; e) analisar mitos envolvendo a temática; f) analisar a forma de abordar vítimas de maus-tratos; g) identificar a rede de proteção na cidade; h) identificar e analisar os fatores que promovem resiliência; i) estabelecer diálogo entre a equipe e as entidades responsáveis pela infância e juventude e j) preencher corretamente a ficha de notificação.
A duração da capacitação foi de 15 horas divididas em 10 encontros quinzenais, com 1 hora e meia de duração cada. Faz parte da rotina de todas as equipes uma reunião de equipe, às quintas-feiras, com duração de quatro horas. Para não preencher todo o tempo desta reunião, dificultando o funcionamento da equipe e para não utilizar horários extras, garantindo a máxima participação de todos, foi utilizada uma hora e meia desse período para a capacitação, que foi acordado entre a pesquisadora e as equipes.
A dinâmica dos encontros estava vinculada ao material utilizado. Nos encontros 2 e 6 (vide Anexos 9 e 13) houve discussões a respeito do material escrito compilados pela pesquisadora. Nos encontros 3 e 7 (Anexos 10 e 14) foram passados um trecho do filme Marcas do Silêncio (DIGIULIO; HUSTON, 1996) e uma animação Era uma vez uma família (PROMUNDO; SAVE THE CHILDREN, 2007) para ilustrar a discussão determinada para aquele encontro. Além disso, no encontro 7 foram utilizadas reportagens de jornais locais e nacionais sobre casos de maus-tratos veiculados na mídia para que fosse feita análise dos fatores de risco e procedimentos envolvidos. No encontro 4 (ANEXO 12) houve a dramatização de um texto pelos próprios participantes que foram divididos em duplas e ficaram responsáveis por cenas distribuídas aleatoriamente e, no encontro 9 (ANEXO 15), foi feita uma análise detalhada de duas fichas de notificação, sendo uma utilizada pela Secretaria Estadual de Saúde e outra, pelo Ministério da Saúde. Os encontros 5 e 8 foram pautados pela visita de um representante do Conselho Tutelar e pela vista da Equipe Técnica da Vara da Infância e Juventude.
Após cada encontro, a pesquisadora realizava registros dos mesmos sendo produzido um diário de campo. Ao final do curso foi aplicado um questionário para avaliar o grau de satisfação do participante com a capacitação.
A Tabela 2 a seguir apresenta os conteúdos e atividades desenvolvidas encontro a encontro:
Tabela 2: Conteúdos e atividades desenvolvidas encontro a encontro.
Encontro Objetivo Tema Atividades/ Materiais
1 - Apresentação do curso e levantamento de sugestões e demanda própria - Termo de Consentimentos Livre e Esclarecido - Instrumentos de coleta de dados 2
- Identificar o fenômeno da violência. - Identificar os tipos de violência contra crianças
e adolescentes.
- Identificar os sinais e sintomas associados.
- Tipos de maus tratos conforme a literatura
- Dificuldades para notificar - Leitura e discussão de material compilado pela pesquisadora - (Assis ; Eisenstein, 2009) 3 - Analisar a forma de abordar vítimas de maus-- Analisar mitos envolvendo a temática.
tratos.
- Legislação brasileira referente aos Direitos da Criança e do Adolescente. - Recomendações sobre abordagem
- Leitura e discussão de material compilado pela pesquisadora - Filme Marcas do Silêncio (DiGiulio ; Huston, 1996)
4 - Identificar a rede de proteção na cidade. - Qual a rede de proteção existente na cidade? - Representação do Caso Cidinha – elaborada por Maria Graça Saldanha Padilha - Leitura e discussão de material compilado pela pesquisadora 5 entidades responsáveis pela infância e juventude - Estabelecer diálogo entre a equipe e as
- Identificar a rede de proteção na cidade
- O que faz o Conselho Tutelar e como
aumentar sua inserção na saúde? Visita do Conselho Tutelar do município 6
- Analisar variáveis de risco e proteção no desenvolvimento infantil.
- Identificar e analisar os fatores que promovem resiliência.
- Quais são os fatores de risco e proteção
relacionados aos maus-tratos? - Leitura e discussão de material compilado pela pesquisadora - (Lidchi, 2009)
7
- Analisar variáveis de risco e proteção no desenvolvimento infantil.
- Identificar e analisar os fatores que promovem resiliência;
- Como ampliar e articular a rede de proteção?
- Assistir e debater filme “Era uma vez uma família” (Promundo ; Save the Children, 2007) - Discussão de reportagens de casos de maus-tratos 8
- Estabelecer diálogo entre a equipe e as
entidades responsáveis pela infância e juventude - Qual o papel do Sistema Judiciário na rede de proteção à criança e adolescente?
Visita da Equipe Técnica (Psicóloga e Assistente Social) da Vara da Infância e Juventude do município – Apresentação da legislação para embasar quais são as ações
cabíveis ao Conselho Tutelar e quais são cabíveis ao Judiciário 9 - Preencher corretamente a ficha de notificação - Qual a ficha de notificação em Saúde e
como preenchê-la? - Ficha de notificação – Secretaria Estadual da Saúde e Ministério da Saúde
10 Avaliação e reaplicação de instrumentos
- Instrumentos de coleta de dados
- Notificação de maus-tratos contra crianças e adolescentes pelos profissionais de saúde: um passo a mais na cidadania em saúde (Ministério da Saúde, 2002)
- Fichas de notificação
- CD Abuso, maus tratos e proteção à criança e ao adolescente (CEIIAS, IESC, ISPCAN ; LAPREV, 2009)