1.3. ELEŞTİREL DÜŞÜNCE MODELLERİ
1.3.3. Uygulama Odaklı Eğitimde Eleştirel Düşünce Modeli
Encontramos, sobretudo, na estabilidade financeira e na valorização do ambiente escolar pelos pais, explicação razoável para a longevidade escolar de Bia. Entretanto, como vimos, a sua afiliação ao ensino superior não está efetivada. Supomos que a sua dificuldade em afiliação relaciona-se ao fato de que Bia escolheu a área de elétrica, como influência do pai para cursar Eletrotécnica em Furnas. Temos como hipótese de que essa opção seria uma estratégia inconsciente de Bia, para se reaproximar afetivamente do pai, para resgatar uma dedicação que antes o pai tinha com ela, seguindo um caminho por ele delineado.
Se está na graduação como meio de chamar a atenção do pai, entretanto, o seu nervosismo e a ausência de uma autoconfiança não lhe permitem um bom desempenho na faculdade. Nesse sentido, o seu sentimento de culpa por não alcançar um bom desempenho acadêmico, apenas agrava esse nervosismo. Por essas razões, Bia ainda vive o tempo de estranhamento no ensino superior:
4.8 René
René, na data da entrevista, tinha 21 anos de idade e estava cursando o quinto período de Engenharia Elétrica. É natural de Itabira, onde vive a família. O pai é comerciante, trabalha com compra e venda de ouro e é proprietário de um estacionamento no centro da cidade. A mãe é dona de casa e auxilia o marido nas atividades de compra e venda de ouro. Pai e mãe estudaram até a quarta série do Ensino Fundamental. Moram em residência própria e quitada.
René é o terceiro filho de uma fratria de quatro irmãos e estudou durante toda a educação básica em escolas públicas, em regiões centrais de Itabira. Frequentou a Educação Infantil. Durante a educação básica não interrompeu os estudos, também não teve nenhuma reprovação. Concomitantemente ao Ensino Médio, frequentou curso de Aprendizagem em Mecânica, porém
não concluiu, e Técnico de Mecatrônica, também no Senai. Também fez um curso preparatório para o ENEM, em uma instituição particular, ainda no terceiro ano do Ensino Médio. Matriculou-se na UNIFEI logo quando concluiu o Ensino Médio.
O irmão mais velho de René, casado, trabalha com manutenção de computadores, mas René não soube dizer se ele teria feito algum curso técnico. O segundo filho da fratria trabalha em uma empresa mineradora de Itabira e também cursa Engenharia Elétrica, porém, na UFOP, campus João Monlevade, cidade próxima a Itabira. O irmão caçula está no Ensino Médio, em idade regular de escolarização.
4.8.1 Práticas socializadoras familiares e condições para o ingresso
no ensino superior
René ingressou na educação infantil aos cinco anos de idade, onde foi alfabetizado. Ao falar dessa etapa de sua escolarização demonstra bastante afeto. Durante a Educação Básica frequentou duas escolas, em uma estudou de primeira à quarta série e na outra, da quinta série ao terceiro ano do Ensino Médio. Da primeira à quarta série participou de campeonatos de redação nos quais sempre era premiado, internamente. Gostava de ler revistas em quadrinhos e esse gosto teria facilitado a sua boa atuação nos campeonatos de redação: “Naquela época, eu era bom de contar história, sabe? Literatura mesmo. Eu era bom nisso [...]” (Entrevista de René). Da quinta a oitava série participou de campeonatos de xadrez em que também foi premiado. Diz que aprendeu a jogar por conta própria, por curiosidade, lendo os manuais e
jogando: “Eu aprendi, era tipo uma barsa e atrás tinha mostrando os movimentos, ai eu aprendi
os movimentos e fui lá, na seletiva do JEI.69 ” (Entrevista de René). Nas competições de xadrez, foi premiado na modalidade individual e em equipe, inclusive foi selecionado para participar de umas das etapas do campeonato na cidade de Itajubá, porém, não foi autorizado pelo pai.
Ao longo da entrevista de René, pudemos perceber uma facilidade do mesmo em descrever cada etapa de sua vida escolar, narrando eventos com detalhes, entretanto, não percebemos essa mesma facilidade em descrever questões relacionadas a sua vida familiar. René, por exemplo, não soube dizer a idade dos irmãos, a cidade onde os pais nasceram ou se o irmão mais velho teria feito um curso técnico, ou não. Percebemos assim um distanciamento de René em relação a sua vida familiar. Ele, inclusive, relata que a maior parte de suas decisões, como por exemplo, fazer o curso de aprendizagem e técnico do Senai e o cursinho preparatório
69 Jogos esportivos itabiranos (JEI)
para o ENEM, foram iniciativas dele. Encontramos aqui, portanto, evidências de uma trajetória escolar com fortes sentimentos de solidão, no que se refere à participação do núcleo familiar.
Nos conteúdos escolares, há um predomínio de preferências pelas disciplinas da área de exatas como Matemática e Física. Sempre se destacou como um ótimo aluno e esse seu bom
desempenho na escola, dispensou da mãe de um acompanhamento mais próximo: “Só que eu,
desde pequeno, eu gostava de escola. Nas matérias, eu ia bem. Então, ela não precisava
preocupar muito, entendeu?” (Entrevista de René). Não há relatos de indisciplina e problemas
de relacionamento. Participava, inclusive com premiações, de competições, como campeonato de redação e xadrez. Foi alfabetizado ainda na educação infantil, não interrompeu os estudos e também não teve nenhuma reprovação. Seu bom desempenho nas redações esteve ao lado do interesse pela Matemática e conteúdos da área de exatas.
Na infância, costumava brincar na rua, jogar videogame, futebol e outras brincadeiras típicas de crianças. Não há lembrança de algum evento traumático. Gostava de ler, mas não nos ficou claro se essa prática teria sido incentivada pelos pais. Durante o Ensino Médio, também auxiliava o pai no trabalho.
O pai é descrito como um homem bravo, com pouca disponibilidade para o diálogo. Parece compreender a educação como instrumentação para o trabalho. Decorrente dessa percepção, apresenta uma certa ressalva pelo fato de René apenas estudar e não trabalhar. Para ele, filhos devem ser sustentados pelos pais até os 18 anos de idade, após isso devem caminhar
sozinhos: “Assim, meu pai até tem condições de comprar mais coisas, mas meu pai é um tipo
de cara que não mima, sabe? Que não te dá aquilo que você, tipo assim, como ele falou: para
ele, filho, tem que sustentar até os 18 anos, entendeu? Ai depois, a gente se vira.” (Entrevista
de René) Nos parece que essa percepção decorre de um estilo de vida baseado na valorização do trabalho, de um homem que se fez na vida pela dedicação ao trabalho, disciplina, sem contudo, necessitar de um capital cultural institucionalizado. Nesse sentido, como conseguiu obter os bens materiais e sustentar a família pelo fruto do trabalho, acredita que esse caminho também poderia ser seguido pelos filhos, sendo a escolarização um aspecto secundário na formação dos filhos. A mãe, contudo, nos parece ter um comportamento diferente do marido, buscando inculcar nos filhos uma dedicação aos estudos.
René diz que sempre gostou de estudar e tentou fugir dessas determinações; mas foi uma escolha solitária, resultando inclusive em mal estar com o pai:
Então, meu pai e minha mãe não incentivam assim: ‘Ah, faz isso, faz aquilo.’ Eles me incentivam a arrumar um emprego. Acho que é essa a preocupação da maioria dos pais, quer que você arrume um emprego. E isso não é tão difícil assim, quando é, para
qualquer emprego, entendeu? Você quer, sei lá, esses técnicos de informática, por exemplo, até que meu irmão é (risos) Técnico em Informática só que ele já tem uma loja, tal, ele conseguiu evoluir bem. Mas, assim, você faz um cursinho e você já consegue. Como eu vou explicar, é, se nessa trajetória toda não tem ninguém para te incentivar, quando você chegar lá no final do Ensino Médio você vai, sei lá, virar peão em qualquer lugar, ou fazer um serviço, vendedor de loja, essas coisas assim, bem básicas. (Entrevista de René)
Nosso entrevistado, então, longe de seguir as determinações colocadas pelos pais, que seria arrumar um emprego logo que concluísse o Ensino Médio, optou pelo ensino superior, em uma escolha sem base simbólica de apoio. Isso nos permite supor que René não encontra no seio familiar um sentimento de identidade e solidariedade com seus entes, o próprio fato dele não conhecer a origem dos pais, não saber dizer a idade certa dos irmãos ou se o mais velho teria feito curso técnico, ou não, nos demonstram que ele sente um certo isolamento em relação aos entes de seu núcleo familiar.
Financeiramente, não há relatos de dificuldades. É um núcleo familiar marcado pela austeridade do orçamento e que busca inculcar nos filhos a valorização do trabalho e dos bens adquiridos. René é um jovem que apresenta um gosto pelo saber, uma curiosidade de descobrir novas coisas o que, portanto, tem contribuído, sobremaneira, para seu sucesso escolar. Essas disposições de René, aliada a estabilidade financeira de sua família, apesar da sobrevalorização do pai pelo mundo do trabalho, permitiam o ingresso de René no ensino superior.
Em termos de escolha do curso superior, a frequência aos cursos de Senai forneceu aos nossos entrevistados subsídios para a decisão, já que, no ambiente doméstico, não encontrava recursos suficientes para esse tipo de orientação. Assim, os cursos de aprendizagem em Mecatrônica e o curso técnico em Mecatrônica, do Senai, possibilitaram a René ter contatos com profissionais da área, novas tecnologias que lhe subsidiaram a escolha do ensino superior.
Como dito, ainda no terceiro ano, René também frequentou um curso preparatório para o ENEM em que muitos dos professores eram alunos de Engenharia Elétrica da UNIFEI Itabira e esse contato também favoreceu a escolha de René, que inicialmente, tinha interesse em cursar Engenharia de Controle Automação, na UFMG. Dessa forma, as atividades realizadas fora do ambiente da escola do Ensino Médio foram ferramentas importantes para o ingresso de René no ensino superior. De outro lado, em termos mais subjetivos, o gosto pelo saber, a disciplina escolar e a curiosidade, justificam a longevidade escolar de nosso entrevistado: “Acho que tudo, a maioria das coisas que eu fiz, foi meio que por curiosidade. O xadrez, eu fiz por curiosidade, é, o, a aprendizagem no Senai, o técnico, foi tudo por curiosidade. A primeira vez que eu fiz o ENEM também foi por curiosidade (risos). Só para testar.” (Entrevista de René).
Apenas em um segundo momento é que a UNIFEI Itabira apareceu como opção para René, que tinha interesse pela graduação na UFMG, onde inclusive foi aprovado na primeira etapa do vestibular. Entretanto, para contenção das despesas, o pai de René o orientou para que ficasse mesmo em Itabira e por isso desistiu de realizar a segunda etapa do vestibular na UFMG. Aqui também, cabe-nos destacar que é clara a importância da interiorização dos campi universitários.
A entrevista de René nos evidencia uma trajetória marcada pelo gosto pelo saber e pela curiosidade, que tem o apoio material e a segurança financeira da família. Entretanto, simbolicamente, há evidências de uma trajetória solitária. Não nos ficou claro que René, encontre nos pais, ou mesmo nos irmãos, apoio simbólico, espaço para o diálogo em que possa, inclusive, discutir questões com a escolha do ensino superior, a participação, ou não no Ciências sem Fronteiras, por exemplo. A entrevista de René nos desenha um núcleo familiar que se preza pela garantia das condições básicas de existência, mas que relega o diálogo e o apoio simbólico na trajetória de vida dos entes. Quando, por exemplo, é perguntado sobre qual a participação de seus pais na escolha do ensino superior, ele responde: “Nenhuma”. (Entrevista de Pedro).
Em síntese, podemos, portanto, elencar a presença de um campus universitário na cidade onde mora, o gosto pelo saber, a curiosidade, a existência de um núcleo familiar com estabilidade financeira e a frequência aos cursos do Senai, como condições favoráveis à chegada de René ao ensino superior.
4.8.2 Integração e afiliação no ensino superior
René ingressou no curso de Engenharia Elétrica no ano letivo de 2012. Não é beneficiário do Programa de Assistência Estudantil. Não participou de nenhuma seleção para o programa uma vez que diz não precisar do auxílio. No quinto período de graduação, não tem nenhuma reprovação. Sua média de coeficiente de rendimento é 84,45. Como atividades complementares, já foi bolsista do Programa Jovens Talentos para as Ciências e, atualmente, é bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti), um programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Nosso entrevistado deixa em evidência o gosto pelo curso e considera que não teve problemas de adaptação ao ensino superior. Ele já estava acostumado com uma rotina recheada de atividades complementares, o que favoreceu a sua organização do tempo e forma de estudos
na universidade.70 Paralelo ao bom rendimento nas disciplinas regulares do curso, René apresenta bom desempenho nas atividades de pesquisa, reconhecendo, inclusive, seu desenvolvimento intelectual quando comparado a sua participação no Programa Jovens Talentos, ocorrida no primeiro ano do curso e agora no Pibiti:
Eu acho, eu acho (com ênfase) que escrevo bem, né. Tem o exemplo do “Jovens Talentos”, quando eu fui fazer o relatório, final. Eu estou fazendo com o (nome do professor), meu orientador, então eu fiz o relatório e foi uma coisa bem difícil, assim. De colocar cada coisa, em um lugar, sabe? E montar aquilo. Ele me mandava, várias vezes, para eu refazer e tal. E fui aprendendo. Já nesse, no relatório de PIBIT. (...)Eu já fui bem melhor. Eu peguei, o parcial, eu fiz e ele só corrigiu erros de português, praticamente. Não teve. (...)Estava perfeito, entendeu? (Entrevista de René)
Com base nisso, podemos supor que René já está integrado acadêmica e socialmente ao curso. Ele já alcançou o tempo da afiliação ao ensino superior uma vez que já internalizou, já tem inculcadas as regras, explícitas e implícitas, e demonstra capacidade de construção autônoma do conhecimento. Pelos relatos de René e seu histórico escolar, podemos supor que ele é capaz de ler, escrever e pensar, de forma autônoma, apresentando as competências necessárias ao ofício de estudante no ensino superior.
Além de atender a exigências do ofício do estudante universitário, René inclusive apresenta, com confiança, críticas para a melhoria do curso. Para ele, as disciplinas básicas dos primeiros períodos são muito distantes da área profissionalizante do curso e, não fosse o seu envolvimento nos projetos de pesquisa, teria considerado essa fase pouco interessante. Segundo René:
Acho que essa parte de Iniciação Científica foi a que mais me atraiu na universidade. (...) É, porque você sai de um Técnico e chega aqui você só vê teoria. Porque o técnico você vê, você vê direto só técnica, né? Só prática. E você chegar de lá, aquela prática toda e começar aqui, tudo teoria, sabe? E às vezes nem é relacionado diretamente à Eletricidade, você fica até meio triste. Nossa, eu tenho que estudar dois anos de bac71!
Eu que estava mexendo em tudo lá no técnico. (Entrevista de René)
Assim como vimos em Pedro, os graduandos, egressos de cursos técnicos, possuem subsídios para fazer uma reflexão crítica acerca da estrutura curricular do curso, orientando para a necessidade de melhor articulação entre teoria e prática e proximidade da estrutura curricular com a perspectiva de atuação profissional. Seria necessário, portanto, uma formação acadêmica que conseguisse aliar teoria, prática e formação profissional, aliança que tem sido
70 Temos que lembrar que no terceiro ano do Ensino Médio, além das atividades da escola regular, cursava o
técnico no Senai, o cursinho preparatório para o ENEM e ainda auxiliava o pai no trabalho.
proporcionada apenas pelas atividades complementares e não da estrutura curricular do curso, como um todo.
Da mesma forma que se encontra bem integrado academicamente, René também não transparece problemas de adaptação social ao ensino superior, afirmando inclusive que teve facilidade em realizar novas amizades: “[...] até que com o pessoal de Itabira, que eu já conhecia, já foi pegando amizade com os outros, com os colegas deles das outras turmas e tal, meio que uma rede de amigos.” (Entrevista de René). Também participa das festas organizadas ou frequentadas pelos colegas da turma do curso e relaciona-se adequadamente com os professores.
René apresenta ser um garoto bastante seguro de sua trajetória, tem clareza das áreas de atuação e perspectivas para o egresso de Engenharia Elétrica. Entretanto, não nos parece que essa segurança ou autoconfiança em conseguir atender com sucesso às cobranças que o curso lhe tem impostas, tem alicerce no ambiente familiar. Se por um lado, René fala com bastante desenvoltura sobre o curso, as disciplinas e seus projetos de pesquisa, essa desenvoltura, ou mesmo prazer na fala, não é percebida quando se trata de assuntos familiares.
Pelos motivos expostos, portanto, podemos afirmar que nosso entrevistado está integrado acadêmica e socialmente no curso. Ele vive o tempo da afiliação intelectual e institucional.