Além do Expositor Cristão a Igreja Metodista apresentou outros textos que de forma direta ou indireta destacavam a posição da Igreja sobre o combate ao uso do álcool como bebida, passo agora a destacar alguns destes.
No ano de 1935, a Junta Geral de Educação Crista da Igreja Metodista no Brasil publica o texto do Rev. Epaminondas Moura, um folhetim com o nome
Informações para Candidatos e Crentes Novos, e, nele descreve claramente que os
novos crentes precisam fazer em seus primeiros passos...
8- Largai todas as bebidas alcoólicas que levam tantas pessoas a ruína, miséria e perdição; deixai outros vícios, o fumo, etc. ‘O vinho é escarnecedor, a bebida forte alcoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio’.
(Prov. 20:1) ‘Bom é não... beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça’ (Romanos 14:21) (MOURA, 1935, p. 8).
No ano de 1962, os Secretários Gerais da Igreja Metodista, publicaram um livreto voltado a formação do laicato intitulado Ação Leiga e a Preocupação Social
da Igreja. Nele é apresentado um calendário de atividades para o ano, onze estudos
para serem desenvolvidos na comunidade, dentre eles sete estudos sobre o Credo Social. No que diz respeito a bebida alcoólica o texto apresenta um destaque quando estuda os males sociais a partir de um testemunho como segue:
Há poucos dias andando numa das principais ruas da cidade de São Paulo, encontramos com um senhor não estanho, de roupa suja e em farrapos, corpo curvado e cabeça baixa, e de passo incerto. Ele estava caminhando sem prestar atenção aos demais pedestres e aos automóveis inumeráveis que ali passavam, colocando em perigo sua vida.
Tentamos lembrar onde o havia encontrado antes lembramos que há quase dois anos numa reunião de culto em casa particular o encontramos um tanto sob a influência do álcool, onde a convite do dono da casa, estava para assistir a um trabalho de evangelização. Após o culto tivemos uma conversa demorada sobre seus problemas e angústias. Tentamos achar-lhe uma colocação, pois, disse-nos estar apto para trabalhar com vidraceiro, mas mesmo achando uma possível colocação, ele não compareceu para uma entrevista. Assim, alguns dias depois veio até ao nosso escritório, com uma outra conversa dizendo que queria ir para Santos, onde tinha parentes e onde o emprego era mais fácil. Depois de conversar outra vez durante bastante tempo, cometemos o engano de entregar-lhe dinheiro suficiente para comprar a passagem. Passados dois dias apenas, o cidadão voltou, desta vez com roupa bastante esfarrapada, com uma grande ferida na cabeça e uma desculpa daquelas...
Em ocasiões posteriores tentamos encaminhá-lo à Associação dos Alcoólatras Anônimos e ao Serviço Social do Estado. Todas as tentativas malograram. Por fim tivemos que dizer a ele que sem um pouquinho de vontade própria, nada mais podíamos fazer para ajudar o seu caso. Daí então, perdemos contato por completo, até esse dia recente que nos encontramos com ele, agora, um exemplo ainda mais triste de um ser humano em decadência (SECRETÁRIOS GERAIS DA IGREJA METODISTA, 1962, p. 68).
Após apresentarem o testemunho, o estudo afirma a posição contrária da Igreja em relação aos vícios como diz o Credo Social. A “Igreja Metodista do Brasil sempre se opôs a eles, combatendo-os veemente, pois não se coadunam com o sistema de vida que pregamos e vivemos”. E dizem: “Sim, somos decididamente contra qualquer praxe ou hábito que reduza uma vida humana, dádiva de Deus, à ruína”.
O estudo levanta uma questão que é: somos contra o quê? A resposta é veemente, somos contra os males sociais. Outras questões são incitadas neste estudo, tal como esta a seguir,
O que é que a sua igreja poderá fazer para ajudar indivíduos desajustados que buscam um refúgio, através da prática de vícios? (SECRETÁRIOS GERAIS DA IGREJA METODISTA, 1962, p. 74).
Outra publicação que destaco é o Plano Quadrienal 1979 a 1982, em cujo texto uma das áreas contempladas é a ação social. No VII capítulo, o texto apresenta o Plano para as áreas de vida e trabalho, onde, como meio de ação para o desenvolvimento do trabalho a Igreja é orientada a realizar denúncia pública e oficial daquilo que vicia, como se segue, “[...] do uso dos meios de comunicação como instrumento de propaganda de males sociais (bebidas alcoólicas, fumo, exploração do sexo, violência, jogos de azar, loterias, etc.), que contribuem para destruição da saúde física, mental, social e espiritual do ser humano” (PLANO QUADRIENAL 79-82, 1978, p. 22).
A Igreja Metodista, através do Conselho Geral publicou em 1980, as Ênfases
Metodistas no Ministério Pastoral na série Documentos – 1, um texto publicado pelo
Departamento Editorial da Imprensa Metodista. Neste texto, o corpo pastoral da Igreja é chamado a atuar nas mais diversas áreas da vida humana e para tal é alertado com informações. O capítulo III, trata das áreas que exigem atuação ministerial, dentre elas a social, onde é transcrito a parte do Credo Social que discorre sobre os Problemas Sociais.
Odilon M. Chaves publicou em 1982, um pequeno livreto denominado O
Metodismo e a Baixada, onde descreve alguns estudos referentes ao ser crente
metodista para a região da baixada Fluminense, e, um dos itens abordados foi o Credo Social. De forma prática ele apresenta tópicos e discorre um pouco sobre os mesmos. Na página 20, ele transcreve parte do tópico que diz respeito aos vícios no Credo Social, como segue: “Os vícios e jogos de azar devem ser alvo de combate, tanto pelos efeitos danosos, como pelas implicações sócio-econômicas que acarretam ao país”; (CHAVES, 1982, p. 20).
Em 1984, o Conselho Geral da Igreja Metodista, na preparação para o Encontro Nacional de Pastores/as solicitou a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista que elaborasse um material com vistas a nortear as discussões sobre o Plano para a Vida e Missão da Igreja, que depois de pronto foi publicado como o nome de Espiritualidade na Missão. Neste texto, o Professor Geoval Jacinto da Silva, discorre em seu artigo A Busca de Linhas Específicas de Evangelização, que “a evangelização é uma arte de comunicar o amor de Deus”, e para isto ele
apresenta um tópico onde a evangelização é praticada na forma da ação social. Embora não apresente diretamente o tema do alcoolismo, pode-se entender que na busca do cuidado e da libertação de tudo o que escraviza o ser humano, a evangelização pode sim atuar diretamente no combate ao consumo danoso do álcool. Como escreve:
O PVMI diz que o objetivo da evangelização é: Libertar a pessoa e a comunidade de tudo que a escraviza e conduzi-las à plena comunhão com Deus e com o próximo (Lc 4, 18-19). A verdadeira ação evangelizadora ‘precisa, por intermédio de Jesus Cristo, salvar o ser humano de seu dilema espiritual, purificar sua mente, soerguer o seu coração e curar o seu corpo’. Isto significa que o Evangelho deve alcançar o homem em sua totalidade. É preciso considerar o bem-estar como pessoa e, para tanto, propiciar-lhe uma sociedade compatível com os direitos humanos. No cumprimento de sua vocação, a igreja é chamada a denunciar os poderosos e principados, o pecado e a injustiça; a consolar viúvas e órfãos, curando e restaurando os que foram feridos e a celebrar a vida em meio à morte. Ao realizarmos, em nome de Cristo, a ação social, estaremos anunciando o Evangelho (Jo 20.21) (SILVA, 1984, 33).
Uma ação mais efetiva sobre a síndrome da dependência do álcool foi uma cartilha publicada pelo Ministério Regional de Prevenção às Drogas da 1ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista no decorrer da década de noventa. Esta cartilha tinha o objetivo de apresentar orientações básicas para a Igreja no sentindo da prevenção ao uso indevido de drogas. Nesta cartilha os autores se ocuparam em realizar uma conceituação básica das drogas apresentando os efeitos danosos causados pelo uso indevido, discorreram sobre as causas e as consequências do uso de drogas, concluindo com uma orientação de prevenção para as famílias.
A cartilha é um instrumento no processo de capacitação, e, Paulo Lockmann, assim a apresenta:
Este material busca ser um instrumento no processo de capacitação para que, como comunidade missionária a serviço do povo, possamos testemunhar a vitalidade do evangelho frente aos desafios enfrentados por nossas comunidades. A prevenção ao uso indevido de drogas é uma das responsabilidades sociais que temos, como filhos e filhas de Deus, no processo de implantação do seu Reino, pois somos chamados e chamadas a ações que dignifiquem o ser humano em sua plenitude (LOCKMANN, s/d, p. 5).
Após sua autonomia no ano de 1930, a Igreja Metodista, sob o forte desejo de expandir suas ações missionárias em solo brasileiro buscou proporcionar aos seus membros a instrução para que suas ações fossem coerentes e uniformes, processadas de forma intencional, sistemática e organizadas coletivamente, em seus Concílios Gerais.
Considerando o exposto é possível inferir que a Igreja Metodista não desenvolveu, em suas ações, um combate exaustivo em relação ao consumo indevido do álcool como bebida, como está sugerido nas Regras Gerais e no Credo
Social. Não foi dada a devida atenção ao tema que continua degradando a vida
humana provocando grande mal a sociedade, a questão da síndrome da dependência do álcool.