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5. SİSTEMİN GERÇEKLEŞTİRİLMESİ

5.2. Kullanılacak Donanımların Seçimi

5.2.5. Uygulama devresi

De acordo com a historiadora, Maria da Conceição Silva, os testamentos-cerrados de padres constituem-se como fontes importantes de análise na compreensão das relações estabelecidas entre o testador, a direção de seus bens, o reconhecimento de filhos naturais, além de outras disposições testamentárias. Este documento era uma escritura particular, pública ou sigilosa, feita na intenção de orientar os rumos da vida familiar e os direitos sucessórios na América Portuguesa (SILVA, 200., p. 318-31.). No caso dos eclesiásticos, Padre Antonio Pereira Ramos Jubé e Padre José Iria Xavier Serradourada, houve uma bifurcação sócio-religiosa sob uma mesma raiz, diante do condicionamento imposto pela regra do celibato pela Igreja, ser padre e ser, ao mesmo tempo, pai e chefe de família. Ambos

foram homens que viveram a imbricação de duas realidades aparentemente antagônicas, sacerdócio e paternidade/conjugalidade.

Este tipo de documentação permite ao historiador descortinar as relações sociais e religiosas construídas pelos seus atores em confrontos com outras fontes que podem vir a enriquecer esta temática. Denomina-se por testamento-cerrado o documento dativo escrito por uma pessoa, sob o consentimento de um tabelião de notas, assinado por testemunhas. A oficialidade deste tipo de documento se daria pela entrega do testamento a um representante do cartório da circunscrição em que o requente residia, sendo após o término da escrita, assinalada o nome do tabelião de notas desta localidade. Este documento era lacrado com cera e linha sendo aberto somente com a morte efetiva de seu produtor.

A formulação dos testamentos-cerrados dos Padres Antonio Pereira Ramos Jubé e de José Iria Xavier Serradourada.visou manter às escondidas fatos ou situações vivenciados no cotidiano destes sacerdotes, principalmente as referentes a formação de uma família ou filiação heterodoxa. A vida privada oficialmente tornar-se-ia revelada somente após a morte dos autores testamentários, embora socialmente uma parcela significativa da sociedade ou mesmo da Igreja estivessem a par desta ocorrência sacro-familiar.

Tanto as falas quanto os desejos dos dois reverendos (Padre Antonio Pereira Ramos Jubé e Padre José Iria Xavier Serradourada) permaneceram em silêncio até a confirmação de seus óbitos, momento adequado para a publicação do conteúdo (ou do sigilo) a respeito de suas vidas como clérigos e, notadamente, do reconhecimento da paternidade dos filhos. As particularidades da vida privada, portanto, induziam indivíduos a ações como as escritas nos dois documentos, somente, revelados quando seus autores já haviam falecido. (SILVA, 200., p. 320)

O padre Antônio Pereira Ramos Jubé, padre colado da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Fino101, produziu o seu testamento aos dias cinco de março de 1885. Ele foi ordenado sacerdote aos dias sete de agosto de 1842, pelo então bispo, Dom Francisco Ferreira de Azevedo, sendo natural da Cidade de Porto Imperial102 (SILVA, 2006, p. 187). Conforme termo de abertura, a revelação de seu conteúdo se deu ao dias quinze de janeiro de 18.6, quando já eram decorridos um pouco menos de dez anos de sua produção. Este documento, segundo consta o registro, foi descoberto entre os pertences do referido padre.

101 Ver nota de rodapé da pag. 144. 102

Atual cidade de Porto Nacional/TO.

Foram descritos além desta descoberta, detalhes sobre o dia, a hora e o local da morte do Padre Ramos Jubé.

Termo de Abertura. Aos quinze dias do mez de Outubro de mil oitocentos e noventa e seis, nesta cidade de Goyaz, em casa de residencia do meretissimo Juiz de Direito da Comarca Doutor Manoel Lopes de Carvalho Ramos, onde eu escrivão do seu cargo fui vindo no impedimento do effectivo, achei pelo Cidadão Ayres Feliciano de Mendonça, foi apresentado o testamento com que falleceo o Padre Antonio Ramos Jubé, encontrado entre os seus pertences no Arrayal do Ouro Fino, e pelo apresentante foi declarado que o Reverendo Padre Antonio Pereira Ramos Jubé, falleceo n’esta Capital no dia vinte e nove de setembro do corrente anno, pelas sete horas da noite, em caza do apresentante. (JUBÉ, 18.6, p. 4v)

Na época da produção do testamento, no ano de 1885, o Padre Ramos Jubé dirigiu-se ao cartório da cidade, acompanhado de quatro testemunhas para validar o seu documento pelo aferimento do tabelião da cidade, o Senhor José da Costa Xavier de Barros (IDEM, 18.6, p. 4). A revelação deste testamento trouxe a tona existência de um modelo familiar heterodoxa vivenciada por este sacerdote. Apesar de seu estado sacerdotal exigir o cumprimento do celibato, o Padre Ramos Jubé teve nada menos que seis filhos, sendo quatro mulheres e dois homens, com três genitoras diferentes. Todos estes filhos foram legitimados e reconhecidos através da perfilhação feita em cartório público. Aos testamenteiros foi recomendado que estes pudessem zelar pelo cumprimento das vontades últimas do requerente vigário.

Declaro que sou filho legitimo do Tenente Coronel José Antonio Ramos Jubé e D. Urçula Pereira Valle: Qué tenho seis filhos; sendo uma Eufemia Marcellina Ramos Jubé tida com Maria Eufemia de Mello; quatro que são: Januaria Pereira Ramos Jubé, Urçula Pereira Ramos Jubé, Antonio Pereira Ramos Jubé, e Joaquim Rufino Ramos Jubé, tidos com Joanna Cordeira de Sant’Anna, e uma Benedicta Pereira Ramos Jubé menor de três annos, havida com Maria Carolina da Conceição, que é natural da Cidade da Uberaba (Província de Minas). Declaro que mais nada devo ate esta data; e que da minha terça se faça o enterro e o remanecente seja applicado em suffragios a minha alma; e nomeio aos ditos seis filhos meos herdeiros, para que os herdem e gozem com a benção de Deos; para cumprirem este meo testamento nomeio para meos testamenteiros a Joaquim Ignacio da Silveira, Ayres Feliciano de Mendonça, meos genros e o meo filho Antonio Pereira Ramos Jubé, aos quaes dou todas as faculdades que como ataes concede o direito. (IBIDEM, 18.6, p. 3-3v)

Em contrapartida, quase trinta e três anos antes, o Padre Antonio Pereira Ramos Jubé já havia previamente reconhecido os seus filhos em cartório, por meio de uma escritura de reconhecimento de filhos, datada em vinte de novembro de 1863. Nesta época, foram reconhecidos apenas cinco filhos, talvez porque a última filha, Benedicta Pereira Ramos Jubé, ainda não havia nascido. Foram especificados os nomes e a idade de cada filho em correspondência com o nome da genitora.

Escriptura de reconhecimento de cinco filhos que faz o Reverendo Antonio Pereira Ramos Jubé. Saibão quantos esta virem que no Anno de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e sessenta e três, aos dias vinte de Novembro nesta Cidade de Goiás, em o nosso cartório, compareceu presente o Reverendo Padre Antonio Pereira Ramos Jubé, morador na Freguesia de Ouro Fino, que reconheceo a punho proprio de que trato e dou fé, e por elle me foi dito, em presença das testemunhas abaixo assignadas, que ele teve com Maria Eufemia de Melo uma filha de nome Eufemia Marcellina da Silveira Ramos Jubé, que hoje tem vinte e um annos mais ou menos, e com Joanna Cordeiro da Silveira tres filhos, digo quatro filhos, a saber Januaria Cordeiro Ramos Jubé, que está com treze annos de idade mais ou menos, Ursula Cordeiro Ramos Jubé, com onze, Antonio Cordeiro Ramos Jubé com

seis e Joaquim Cordeiro Ramos Jubé com quatro mais ou menos; e por que reconhecia a todos por seus filhos, assim o declarou a mim Tabellião, afim de tornarem-se os mesmos legalmente reconhecidos na forma da ley de dous de Setembro de mil oito centos e quarenta e sete e quer conseguinte seus legitimos herdeiros, declarando ainda mais que a mae da primeira e dos ultimos erão solteiras. E de como assim o disse, lavrei a seu pedido esta escriptura, que lhe li, aceitou, e assignou, aceitando-a seus justos enteressados descendentes, e tambem assignaram como testemunhas Manuel Tristão da Silva e Francisco José Cavalcante, conhecidos de mim Tabellião [?] [?] [presenciarão?] de que dou fé. Eu Sebastião Manoel de Andrade, [?] Tabellião a escrevi por [?]. Pe. Antonio Pereira Ramos Jubé, Manuel Tristão da Silva, Francisco José Cavalcante. (IBIDEM, 1863, p. 1v-2)

A legitimação de cinco filhos deste vigário deu-se muito antes da produção de seu testamento. Nesta perfilhação a senhora Maria Eufemia de Melo, foi descrita como genitora de uma filha, Eufemia Marcellina, de idade de vinte e um anos. Hipoteticamente, a mãe de Eufemia pode ter falecido a um bom tempo, o que levou o Padre Ramos Jubé a assumir um novo relacionamento. Os demais filhos foram relacionados como pertencentes à senhora Joanna Cordeiro de Sant’Anna, sendo eles: Januaria Pereira Ramos Jubé, Urçula Pereira Ramos Jubé, Antonio Pereira Ramos Jubé, e Joaquim Rufino Ramos Jubé. É incontestável que diante da revelação da idade destes filhos sacrílegos, encontra-se uma relação estável entre um padre e uma mulher. Ambos constituíram uma família legítima. A filha mais velha do casal, Januária, tinha a idade de treze anos. A segunda, Urçula, onze anos. O terceiro,

Antonio, a idade de seis anos. E o último, Joaquim, quatro anos de idade. Já em 1863, teve-se pelo menos treze anos ou mais de relacionamento conjugal. Quanto a Benedicta Pereira Ramos Jubé, ela não deveria estar viva nesta época. Talvez tenha sido este o motivo que levou o Padre Ramos Jubé a invalidar todas as disposições anteriores à confecção de seu testamento, pois no documento de perfilhação não foi contemplada o nome de todos os seus filhos, nem o poderia, pois não havia vindo ao mundo a sua última filha.

E por este meo testamento revogo e anullo outro qualquer que anterior tiver feito antes deste, que faço digo pois só quero e é minha vontade que valha este, que faço na prezença das testemunhas que assignão no instrumento de approvação que adiante vai feito pelo official Publico. E por esta forma hei por findo este meo testamento de ultima vontade que assigno, Cidade de Goiáz 5 de Março de mil oitocentos e oitenta e cinco. Pe - Antonio Pereira Ramos Jubé. (IBIDEM, 18.6, p. 3v)

Estes cinco filhos foram reconhecidos por intermédio de uma escritura de reconhecimento de paternidade, registrada em cartório, sendo portanto, declarados por legítimos herdeiros de seu pai. Tal prole já havia sido legitimada desde o ano de 1863, sendo que o testamento apenas ratificou a inclusão de mais uma filha, no ano de 18.6. Para justificar ou amenizar o tipo de relacionamento assumido com duas mulheres, o Padre Ramos Jubé destacou que ambas eram solteiras, isto é, sobre elas não havia nenhum outro tipo de impedimento que maculasse a sua filiação. Porém, o sacerdócio (celibato) se constituiu como o eixo motriz deste problema, embora a Igreja tenha jogado sobre a mulher a carga e o fardo produzido por uma representação equivocada do serviço ministerial dos padres.

Benzer Belgeler