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Uyarı Mesajları (Hata Günlüklerine ve Raporlara Yazdırılır)

Após explicitar a estrutura e organização, assim como o projeto político pedagógico da Oficina Escola, passamos a descrever as observações contidas no diário de campo feitas no local.

No dia 21.08.2001, na turma de terça-feira, à tarde, realizamos a primeira observação na aula teórica. Dos trinta alunos matriculados, estavam presentes dezesseis. A maioria dos alunos era meninos com a presença de algumas meninas. Antes de descrever a aula propriamente dita, vamos fazer algumas considerações a respeito da estrutura da sede da escola.

O prédio-sede é muito pequeno em termos de espaço físico. É o prédio do antigo Teatro Apollo e que foi restaurado pelos aprendizes e é onde funciona o Centro Histórico. Na sala da coordenação também funciona a secretaria. Na ante-sala da coordenação, há um ambiente maior, retangular, onde fica a entrada da sede. Este ambiente funciona como refeitório e sala de aula. Possui mesas grandes e bancos inteiriços. Em uma terceira sala, são guardados os materiais para restauração e ferramentas.

Consideramos importante descrever o espaço físico da sede onde funcionam as aulas teóricas porque a estrutura parece não contribuir muito à elas. O conteúdo trabalhado corresponde ao segundo conteúdo do módulo I – ferramentas (o primeiro conteúdo foi segurança no trabalho). Nessa aula as ferramentas estudadas foram: prumo, nível de bolha, desempenadeira de aço dentada, pé-de-cabra, martelo, serrote, escova de aço com cabo e

sem cabo, espátula. Os sub-itens do conteúdo foram: funções, características, nomenclatura, utilização, acidentes causados e manuseio.

A metodologia utilizada pelo mestre geral de obras foi a aula expositiva ilustrada pelas ferramentas, lousa e giz. Os sub-itens do conteúdo estavam escrito a giz na pequena lousa da sala de aula e o mestre professor ia mostrando as ferramentas aos aprendizes e discorrendo sobre cada item. À cada explicação oral, o professor solicitava que os alunos repetissem suas palavras. Nenhum aluno possuía material (caderno, lápis) para registro da aula. A justificativa dada, quando questionamos, é que a maioria dos alunos aprendizes não são alfabetizados. Portanto, podemos observar que as aulas são ministradas oralmente, apoiadas em perguntas e respostas, na repetição e memorização. Baseados nessas observações, questionamos: como será o processo de avaliação dos alunos dentro dessa metodologia?

Em relação à sociabilidade, observei que, pelo fato da aula acontecer à tarde, depois do almoço e a sala ser pequena, quente, em frente à rua (o movimento dos carros, transeuntes, etc.), o interesse dos alunos ficava muito disperso. Alguns alunos não assistiam à aula sentados. Duas meninas da outra turma ficavam em pé, na porta as sala, conversando com os colegas. O professor chamava a atenção delas e isso dispersava a turma. Como é muito comum em salas de aula, os alunos sentados à frente, perto do professor, pareciam mais interessados, fazendo perguntas e respondendo ao professor. Durante a exposição do conteúdo, muitos alunos brincavam, fazendo “jogo com as palavras”. Por exemplo: desempenadeira de aço dentadas, eles falavam: de “acidentada” e “aço deitada”.

Na semana seguinte não houve aula porque era dia de pagamento da bolsa aprendizagem. Quinze dias após, também não houve aula porque, segundo o auxiliar administrativo, os alunos aprendizes estavam nas obras para cumprir os prazos de entrega. Além do mais, estavam faltando materiais para a restauração.

No dia 02.10.2001, à tarde, fui observar mais uma aula teórica na Oficina Escola. Dessa vez, a escola já estava funcionando na sede nova, no antigo prédio da Febemce. A reforma do prédio ainda não estava concluída, mesmo assim as atividades estavam em funcionamento. Parece pura coincidência que uma instituição voltada à “recuperação” de jovens em situação de risco tenha tomado como sede o antigo prédio da Febemce (não podemos esquecer do convênio com a Prefeitura local e da “falta de opção” da EAO). Na

fotografia podemos verificar os jovens aprendizes concluindo as reformas do prédio. Este localiza-se na saída do município portanto é um local de difícil acesso. Até lá, não há transporte público urbano. É preciso ter veículo próprio ou recorrer aos serviços de uma moto-táxi. Tal qual uma instituição total, segundo Goffman, seu fechamento ou seu caráter total é simbolizado pela barreira à relação social com o mundo exterior, através de “barreiras”, tais como, portas fechadas, paredes e muros altos, arames farpados, etc.

Não havia ventiladores na sala e o calor era insuportável. Não havia bebedouros no prédio. A aula foi ministrada pelo instrutor, estagiário do Curso de Tecnologia (Centec). Segundo ele, a aula era improvisada porque a apostila do curso ainda não estava pronta. No início da aula foram distribuídos cadernos aos aprendizes.

O conteúdo da aula foi “Pintura”. Na lousa está escrito: Pintura externa: calhação = primeira mão de tinta. O professor instrutor utiliza uma lata de tinta látex e explica que é importante saber ler as instruções da lata para usar a tinta. É preciso misturá-la com a água. O professor pede aos alunos que passem a lata de mão em mão. Um dos alunos comenta: é só para olhar? E retira-se da sala. O professor não diz nada e segue a aula ditando oralmente as características da tinta e pergunta: o que é diluir a tinta? Um dos alunos responde. O professor continua a aula falando sobre solventes de tinta: aguarrás, etc.

Essa aula da Oficina Escola da atualidade nos remete ao que Rugiu (1998) aponta sobre o método de ensino utilizado nas Corporações de ofício. Ele era o gestural-manual e o conhecimento dava-se por via intuitiva e prática, condicionada pela didática ativa, guiada pela palavra e pelo exemplo prático do mestre. Até o século XVII, tratava-se de conhecimentos e ligações conceituais-operativas não codificadas por escrito, ou seja, não transmitidos através do estudo de textos, tendo em vista que o surgimento dos manuais de artes e ofícios e diversos livros técnicos surgiram somente no século XIV.

Enquanto o professor desenvolve a aula, alguns alunos empurram a porta para entrar com as cadeiras, conversando, sem pedir licença. Há 17 alunos na sala. Eles prestam a atenção na explicação do professor mas estão descontraidamente sentados nas cadeiras. Há quatro alunos sentados no birô do professor, copiando a aula. Alguns conversam muito. De repente, o professor chama a atenção: Hei, Sandro. Dá um tempo, cara!.

Depois entra na sala o contra-mestre M. Ele pergunta ao professor instrutor se está tudo bem na sala. Chama atenção de um aluno que está no canto da sala sem escrever. Após faz

um ar de desculpas porque percebe que o aluno é um dos que não é alfabetizado. Pergunta quando vai ficar pronta apostila do curso e comenta que está fazendo muito calor na sala, confirmando a nossa impressão sobre o ambiente. Muda três alunos de lugar, eles saíram do fundo da sala para sentar perto da porta. O contra-mestre M passa ao lado dos alunos, olha os cadernos, elogia alguns pela letra bonita. O menino que não é alfabetizado faz um sinal para o professor e se retira da sala. Um dos alunos levanta do seu lugar, olha pela janela e senta novamente. Outro aluno cochila.

Voltando à aula, o instrutor V faz na lousa um cálculo sobre o rendimento da tinta, ou seja, a quantidade adequada de tinta a ser utilizada em cada pintura. Utiliza o seguinte esquema:

Lata – área

2 l - metro quadrado x - 20m

Enquanto o professor explica o conteúdo, alguns alunos conversam outros assuntos. O professor adverte que pode pedir o conteúdo da aula na avaliação. Um dos alunos que havia saído da sala retorna vestido com o equipamento utilizado nas aulas práticas de restauro e pergunta: Posso entrar para dar aula a vocês?.

Para exemplificar a aula sobre o rendimento adequado da tinta, o professor utiliza a pintura do novo prédio sede. Para o professor, houve muito desperdício de tinta durante a pintura do prédio, afinal, foram três galões de tinta com “nada”. Um dos alunos comenta a crítica do professor: Tá cobrando?

O professor V lança um problema matemático para os alunos responderem. Um dos alunos – D – pára de desenhar no caderno, presta atenção no problema e dá a resposta. Recebe elogios do contra-mestre M: Bote dinheiro nas mãos dele que ele faz render! Novo desafio matemático. Novamente D acerta

Verificamos várias fragilidades no processo de inserção dos jovens no mercado de trabalho proposto pela Oficina Escola de Artes e Ofícios. Numa análise apurada sobre o que ela faz deixa insatisfação: os aprendizes não recebem uma educação integral científica e técnica mais ampla, há impossibilidade de resgatar o tempo perdido que gerou defasagem idade/série escolar, a utilização de um método de ensino nas aulas teóricas basicamente oral, a falta de recursos didáticos, entre outros aspectos, revelam os limites de uma

educação que não rompe com o adestramento pela própria direção para a produção, sem outros fins.

Isso se reflete na forma como os jovens percebem o processo formativo, pois não há uma concepção homogênea sobre ele. Alguns expressam em seus discursos táticas adaptativas de conversão e de colonização, ou seja, no primeiro caso, os jovens expressam uma certa satisfação ao processo. Ao mesmo tempo em que há outros depoimentos ambíguos que revelam, no mesmo jovem, concordância e discordância em aspectos do processo formativo, exemplificando a tática de colonização. E, por fim, jovens que analisam criticamente suas reais possibilidades de ingressar no mercado de trabalho através da aprendizagem do restauro e dos ofícios.

Os fenômenos da viração e da circulação estão presentes na vida dos jovens tanto na fase pré-paciente quanto durante o internamento na instituição. É como se os jovens criassem uma segunda pele, ou, nas palavras de Goffman, uma segunda natureza, já que espera-se mudança nas capacidades adaptativas do indivíduo à sociedade e não a transformação do sistema. Isso colabora para uma perpetuação das condições de vida dos jovens pobres.

Mas, diante desses fatos, como os jovens aprendizes reagem? Será que em seus discursos os jovens podem ser encarados como sujeitos que analisam a realidade onde estão inseridos e sinalizam uma outra perspectiva de formação? É o que tentaremos verificar no capítulo a seguir.

Benzer Belgeler