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“UYAN ve KENDİ GERÇEĞİNİ

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Nesta parte de nosso trabalho, trataremos de algumas circunstâncias que se referem ao tratamento dispensado a certos indígenas no período da Ditadura Militar.

Durante esse período, que se configurou como um dos mais repressores e autoritários da história do Brasil, qualquer ato que não fosse o de total aceitação da política vigente, era tido como subversivo e, desta maneira, os indivíduos envolvidos em qualquer insurgência eram perseguidos, presos, torturados e muitas vezes mortos. E a população indígena não ficou fora disso.

Neste subcapítulo, as informações foram retiradas de um documentário chamado “Ditadura criou cadeias para os índios com trabalhos forçados e torturas”26, publicado em junho de 2013, e numa reportagem de André Campos, produzido pela Agência Pública, com imagens cedidas por várias instituições como Funai, Cimi, Museu do Índio (dentre outras) e por pesquisadores como Geralda Soares, Márcio Ferreira, e extraídas também do Relatório Figueiredo27.

Em 1969 a Ditadura criou o Reformatório Agrícola Indígena Krenak (em Resplendor, MG). Foram mandadas pra lá povos de várias etnias e regiões do país: Xavante, Terena, Guarani, Urubu Ka’apor, Pankararu, Pataxó Hã Hã

23

Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acessado em 9 de março de 2017.

24

Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Convencao_169_OIT.pdf. Acessado em 9 de março de 2017.

25

Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/2002/decretolegislativo-143-20-junho- 2002-458771-convencao-1-pl.html. Acessado em 9 de março de 2017.

26

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FwSoU3r1O-Q. Acessado em 14/03/2017. 27

Hãe, Canela, Xerente, Krahô, Maxakali. (...) Os motivos alegados para as prisões incluíam roubos, assassinatos e ‘crimes’ como embriaguez e vadiagem28

Se referindo às várias etnias que para lá foram conduzidas, Edmar Krenak declara: “lá funcionava assim como um presídio de base, assim, do Brasil né?”

E além de prender vários povos indígenas de diversas etnias, percebemos motivos banais, sem justificativas para as detenções. Isto é sentido no depoimento de um homem, de nome João Bugre, o qual relata que ficou preso 9 meses “por causa de uma pinga”.

É relatado também pela pesquisadora da história indígena de Minas Gerais, Geralda Soares, que os habitantes de Resplendor, que antes eram livres, durante esse período, tinham que se remeter às autoridades e pedir licença para atravessar o Rio Doce. A referida autorização era necessária, inclusive para exercer a atividade de pesca. Os índios eram obrigados a falar somente o português, pois tinham que se comunicar em linguagem que os militares pudessem entender. Nas palavras de João Bugre: “tinha que aprender na marra, ou falava ou apanhava”. Geralda Soares relata que a polícia prendeu por engano dois índios da etnia Urubu Ka’apor e que os mesmos não sabiam falar português. Segundo ela, a polícia bateu muito neles para que confessassem o dito crime.

João Geraldo Itatuitim Ruas (assumiu a chefia da Ajudância Minas Bahia – Funai – em 1973) diz que ao fazer um levantamento das pessoas que estavam presas constatou que 80% dos índios confinados não possuíam documentos e nem registro da causa de estarem ali.

Geralda Soares relata a tortura sofrida por Zé Maxacali, o qual foi obrigado a tomar leite fervendo e depois tomar água gelada. Segundo ela, ele não conseguiu ingerir mais nada depois disso e foi emagrecendo até morrer.

Mais adiante no vídeo, vemos a seguinte informação: “em 1972, os presos e os índios Krenak que viviam na região do reformatório foram transferidos para a Fazenda Guarani, uma área da PM (Polícia Militar), em Carmésia (MG)”.

Segundo Edmar Krenak, eles foram transferidos de trem, dentro de vagões, mas vagões de transporte de carga, “que nem animal”.

Toninho Guarani, da Aldeia Tekoa Porã (Aracruz/ES), diz:

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Quando a gente começou a lutar pela demarcação de terras aqui no município de Aracruz, aí que eles levaram nós pra fazenda Guarani. A Funai colocava mesmo a Polícia Militar pra vigiar a gente assim na entrada, ninguém podia entrar e ninguém podia sair. Em cada região do Estado de Minas ou aqui do Espírito Santo, se tivesse alguma resistência do povo em alguma comunidade indígena, pegava esse pessoal dessa região e levava pra lá.

Geralda Sores diz que muitos desses indígenas, em sua concepção, são considerados presos políticos, tratados como inimigos da pior espécie, que tinham que apanhar... “Na verdade, eles estavam com uma luta justa, lutando pela terra, uma parte da história que nunca é contada, porque é vergonhosa né?”

Uma outra obra da governança militar durante a ditadura (além do Reformatório Krenak e da Fazenda Guarani) foi a criação da GRIN (Guarda Rural Indígena) criada em 1969 e extinta em 1970, a qual, segundo narração do documentário foi originada

Com o intuito de colocar os próprios índios para receber treinamentos militares sendo treinados em esquemas de punição, repressão, confinamento, para atuarem contra seus próprios parentes.

Mais adiante, no vídeo, vemos a seguinte informação:

Quatro meses depois, o jornal “O Estado de São Paulo”, relatou crimes da Guarda Indígena na Ilha do Bananal (TO). “A maior arbitrariedade da Guarda (...) foi praticada contra um caboclo residente nas proximidades do Araguaia. A Guarda o acusa de vender bebida aos índios. (...). É do conhecimento público em toda a ilha que a Guarda o obrigou a praticar, com os índios, orgias sexuais.

E quanto à formação e criação da GRIN, o antropólogo e ex-funcionário da Funai, Olympio Serra, considera:

A história começa na facilidade que a ditadura oferecia a militares. Então, um militar que não era nem do exército, era um cara da PM, Capitão Pinheiro é que surge com a ideia da Guarda Rural Indígena e faz a Funai aceitar a Fazenda Guarani que era da Polícia Militar. Transforma uma fazenda em uma prisão de índios e ali fazia o treinamento (...) lá em Belo Horizonte, (...) dos

tais guardas rurais indígenas. Eles eram treinados como militares pra ir para suas aldeias, seus povos, pra não sei o quê, pra reprimir não sei o quê...eles são formados aí, estimulados, recebem salários, (...) pra agir exatamente contra as culturas das quais eles foram nascidos e criados. É um processo de uma violência cultural inaceitável.29

No fim do vídeo, vemos a seguinte informação:

Além do presídio Krenak e da Fazenda Guarani, existem outras áreas que também abrigaram cadeias indígenas no passado. Não existe nenhum índio ou comunidade indígena indenizado pelos crimes de direitos humanos cometidos nesses locais. O Estado brasileiro nem sequer reconhece oficialmente a existência de tais crimes. A Comissão Nacional da Verdade, criada para apurar as violências de agentes estatais entre 1946 e 1988, anunciou que irá focar também os povos indígenas. O relatório final da Comissão será entregue até maio de 2014.

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