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Diante desse conjunto de falas proferidas em situações de conflito ideológico, ratifica- se a noção de que, no Eixo Sul da RMBH, o tema das áreas protegidas é inseparável do da mineração. Constata-se, além disso, que todos os atores se consideram conscientes acerca da importância da proteção da natureza, havendo, inclusive, aqueles que se consideram ambientalistas.

Não obstante, as remissões à natureza e à “sustentabilidade” foram usadas com os mais variados objetivos: seja no caso das empresas, para justificar sua produção em termos de eficiência e competitividade, seja no caso de alguns moradores que visam atestar a legitimidade da permanência de certas práticas sociais. Para autores como Laurent Thévenot e Claudette Lafaye (1993 apud ACSELRAD, 2004, p. 19), essa parece ser uma característica nos debates ambientais: “ao contrário de uma causa universal ecológica que se manifestaria através de atores particulares, como sugere com freqüência o debate corrente, observa-se uma busca pela universalização de causas parcelares através de valores compartilháveis que tornam os atos justificáveis”.

Esses autores verificaram que, nesses fóruns, as estratégias discursivas de persuasão – no sentido dessa universalização do particular – são mais decisivas que a “veracidade” dos argumentos. Nos termos de Acselrad (2004, p. 22), trava-se uma complexa

luta classificatória pela representação legítima da Natureza pela distribuição de poder sobre os recursos territorializados, ora questionando o seu uso “interessado”, ora reivindicando o “respeito aos equilíbrios naturais”, ora evocando a natureza como reservatório de recursos, como cenário de distinção nobre, como paisagem de consumo estético ou espaço de reprodução de grupos socioculturais.

Nessa perspectiva, constata-se que o que de fato está em jogo nesses debates – como nos ocorridos nas audiências consideradas – não é a proteção da natureza em si, mas sim a representação da natureza que torna certas práticas espaciais mais legítimas que outras. Ou, usando os termos de Chauí (2007), o que está em disputa é a capacidade de determinado modo de uso e apropriação do espaço ser elevado à condição de discurso competente sobre a proteção ambiental. Tendo isso em vista, cabe verificar, nas falas aqui aludidas, “o modo como as remissões ao meio ambiente afirmam ou contestam a distribuição de poder sobre o território e seus recursos” (ACSELRAD, 2004, p. 20).

Assim procedendo, é possível identificar, nas falas das ONGs, a esperança de conter o avanço da mineração e da urbanização irregular. Para alcançar esses objetivos, as entidades defendem (ou mesmo realizam) práticas como a educação ambiental e a instituição de áreas protegidas. Em alguns casos, seus entendimentos se coadunam com os de determinadas empresas ou com os do Estado, o que se reflete tanto em parcerias – a exemplo das empresas patrocinadoras da ONG Amda –, como no convite do poder público para opinarem sobre o tema nas referidas audiências.

Entretanto, seja em função da crença de que a devastação da natureza possa ser controlada por meio da modernização ecológica do Estado171, seja por não perceber a fetichização do mundo material que implica esse tratamento do tema172, as entidades acabam por afirmar a distribuição de poder sobre o espaço. Exemplo dessa afirmação está na visão das

171 Mecanismo segundo o qual o Estado administra seus conflitos e questões socioambientais por meio de

regulação e burocracia, em consonância com o discurso científico dominante e de acordo com o grande capital (HARVEY, 1996). Para Acselrad (2004, p. 21), trata-se de “um modo de reação discursiva que preserva a distribuição de poder sobre os recursos ambientais em disputa”.

172 Cumpre notar que esse tipo de percepção se funda na noção de que sociedade, cultura e mundo material são

esferas descoladas, o que fetichiza a natureza, resumindo-a a quantidades de matéria e energia. Sob essa perspectiva limitada, a questão ambiental seria supraclassista – em última análise, uma questão de cooperação e consenso –, havendo uma “consciência ambiental” una, alcançável por todos os que fossem devidamente orientados, por exemplo, por meio da educação ambiental (ACSELRAD, 2004, p. 15).

UCs como mecanismos de planejamento, capazes de restringir certos usos em determinados lugares, sem que isso implique construção coletiva de novas formas de usos ou redução de assimetrias sociais. Assim, suas posturas quanto às UCs revelam um conflito capitalista por diferentes projetos de uso do espaço.

Já no caso das empresas, verificou-se a existência de dois diferentes posicionamentos com relação às UCs, sendo ambos pela permanência da atual estrutura de poder sobre o espaço do Eixo Sul. De um lado, nota-se a incorporação das UCs existentes às práticas empresariais; nesses casos, a atuação das empresas na constituição ou na manutenção das áreas é vista/difundida como participação ativa na proteção da natureza, sinal de seu compromisso ambiental. De outra parte, apreende-se certo desconforto/rejeição desses atores com relação à criação de novas UCs, quando afirmam, reiteradamente, que os impactos ambientais causados pela atividade mineradora são pouco expressivos e passíveis de compatibilização com a proteção ambiental (já estabelecida).

Esses posicionamentos concorrem com o constante pleito pelo aménagement do território, entendido como o instrumento científico, portanto isento, que encerrará as discussões sobre a proteção dos patrimônios natural e cultural na região, assegurando que nenhuma outra área, além das definidas no zoneamento, virá a ser declarada UC. Desse modo, ainda que executadas por sujeitos que acreditam que as RPPNs e os estudos patrocinados pelas empresas sejam contribuições compatíveis com a devastação ambiental causada por sua atividade, essas medidas visam à manutenção das condições políticas e sociais necessárias à obtenção de seus altos lucros.

O aparelho estatal, por sua vez, ao reunir sujeitos com visões de natureza muito distintas, atuantes em diferentes escalas espaciais e de poder, refletiu perspectivas variadas sobre as áreas protegidas – mas todas compatíveis com o Estado neoliberal. Os agentes do Poder Executivo estadual, por exemplo, mostraram-se tendentes a rejeitar as propostas de UCs, seja por reconhecerem as limitações de recursos para adquirir os terrenos necessários às novas UCs, por vislumbrarem a diminuição da arrecadação de impostos relacionada à desaceleração das atividades econômicas decorrente de “obstáculos” como as áreas protegidas, seja por outros motivos políticos não explicitados.

Por outro lado, o Estado mínimo se fez notar também no reconhecimento, por representantes de diversos setores do poder público, da fragilidade das normas ambientais, tanto das que criam UCs como das que estabelecem penalidades às empresas que cometem crimes ambientais – o que remete às “crises de lealdades coletivas”, próprias de campos de disputa simbólica, que confrontam a mecânica do Estado racionalizador com desvios em

massa com relação às normas estatais do bom uso da natureza (ACSELRAD, 2004, p. 22). Também se identificam tendências neoliberais no apoio deliberado à expansão das atividades empresariais, seja nos diálogos e negociações particulares, opostos ao tratamento conferido aos moradores da região, seja na tentativa de associar as demandas pela proteção ambiental ao desejo de consumo de objetos de luxo, relacionados às classes de alta renda, afastando suas origens da degradação ambiental em curso na região. Além disso, nota-se o concatenado alinhamento entre Estado e empresas na (não) constituição de áreas protegidas, que assegura a criação de UCs da forma menos onerosa ao Estado e menos restritiva ao setor empresarial, além de garantir a arrecadação tributária do aparelho de Estado.

Do mesmo modo, as falas dos moradores expressaram entendimentos diversos sobre natureza, preservação e mineração, explicitando importantes aspectos das dinâmicas socioespaciais do Eixo Sul. Isso porque o que aqui foi reunido sob a classificação “morador”, em verdade se refere a moradores de uma série de distritos e povoados tradicionais, quilombolas, trabalhadores do setor mineral, funcionários de condomínios, sitiantes, condôminos que realizam suas atividades de trabalho e consumo na capital, entre outros. Porém, nesse grande grupo foi possível identificar, além de posturas que ratificam as dinâmicas capitalistas de uso do espaço vigentes, como as similares às das ONGs ou das mineradoras, alguns posicionamentos contestadores da estrutura de poder sobre o espaço e seu uso na região.

Foi o caso de alguns moradores de Moeda e Brumadinho, e também da moradora de Rio Manso, que, verificando a ampla liberdade conferida às mineradoras – ou por elas imposta, com o aval ou com a negligência do Estado – para dispor do espaço, questionaram suas práticas espaciais. Fez coro com esse grupo a vereadora de Brumadinho, que mostrava sua indignação com o comprometimento dos usos do espaço realizados por comunidades tradicionais em decorrência da instalação de uma barragem de rejeitos, ressaltando que esses moradores passariam a pagar pela água valores maiores que os pagos pela mineradora que os atingira.

Entretanto, seja por constituírem minoria seja por reconhecerem as assimetrias de poder entre seus direitos e as liberdades das mineradoras, esses sujeitos aderiram às estratégias de outros grupos, como os moradores que se articularam para conseguir a declaração de quilombos ou os que propuseram a criação da unidade de conservação da Serrinha. Nessa perspectiva, seu apoio aos contraprojetos constituiu estratégia de sobrevivência.

Benzer Belgeler