O fato de delimitarmos o tempo e o modo como aspectos relevantes no estudo da modalidade deôntica é justificado com base no nosso interesse em verificar a relação dos tempos verbais (Presente, Passado e Futuro) e dos modos verbais (Indicativo, Subjuntivo e Imperativo), que servem para atenuar ou asseverar o valor deôntico, e a instauração da modalidade deôntica. Percebemos que essa modalidade é recorrentemente manifestada por meio dos verbos modais em determinados tempos e modos mais do que em outros.
Verificamos, em nosso corpus, que o tempo presente é bastante recorrente na instauração da modalidade deôntica por parte dos verbos modais e plenos. Confiramos a tabela abaixo:
Tabela 3 - Tempo verbal na manifestação da modalidade deôntica.19
Tempo Frequência Porcentagem
Presente 127 68,6
Futuro simples 10 5,4
19 Tabela organizada pela autora.
Futuro do pretérito 12 6,5
Pretérito Perfeito 2 1,1
Não se aplica 34 18,4
Total 185 100
Como é possível visualizar, o tempo presente é consideravelmente o mais frequente no que diz respeito aos verbos instauradores da modalidade deôntica. O trecho abaixo exibe um exemplo da ocorrência de verbo deôntico no tempo Presente
(13) Devemos também entender que o governo sozinho, via investimento público, não é capaz de sustentar o crescimento da economia (Tema 14).
No fragmento acima, o tempo Presente do verbo dever suaviza o valor deôntico da modalidade se comparado com o Futuro. O efeito de sentido no uso do Presente, em vez de Futuro, por exemplo, é instaurar uma obrigação atemporal, isto é, válida em qualquer tempo. O mesmo não ocorre com os verbos no futuro simples, vejamos:
(14) É indispensável a observância no Estado Democrático de Direito da plena igualdade entre os candidatos que uma vez eleitos deverão representar exclusivamente a vontade do eleitor.
Neste caso, o futuro em que o verbo se localiza, implica em uma obrigação estabelecida ao Estado de realizar as vontades do eleitor, caso os candidatos sejam eleitos. Essa afirmação se dá com base na cultura da política brasileira em não se fazer cumprir as vontades dos eleitores no momento pós-eleição. A afirmação expressa a necessidade do Estado em cumprir com o que foi prometido.
(15) É comum o relato de passageiros sentados em assento prioritário que “dormem” imediatamente ao perceber a chegada de alguém a quem deveria ceder o lugar (Tema 5)
Em (15), temos um exemplo em que o auxiliar modal está no Futuro do Pretérito. O modal quando está nesse tempo verbal denuncia uma obrigação que não foi cumprida, de acordo com Menezes (2011). No exemplo acima, a obrigação de alguns passageiros em ceder o assento no ônibus às pessoas com prioridade, deveria ser cumprida, mas é uma ação que não se concretiza, e não se pode mais cumprir, pois está no passado.
O tempo verbal em que os modalizadores deônticos se localizam pode alterar a significação modal deôntica. Faz-se necessários, assim, a compreensão da relação desses tempos e a instauração da modalidade deôntica.
Quanto ao Modo verbal é classificado como as diferentes formas que determinado verbo toma para indicar a atitude do falante em relação ao fato que ele enuncia para seus interlocutores, atitude essa que pode ser de certeza, de dúvida, de suposição, de mando, etc. O “modo” é a flexão pela qual se exprime a atitude mental do falante, em relação ao processo indicado pelo verbo, na medida em que o enunciado é transmitido, indicando dúvida ou desejo por parte do enunciador.
O modo que mais se manifestou nos verbos instauradores da modalidade deôntica foi o modo indicativo, visto que os autores dos textos se expressam, frequentemente, com base em certezas. Vejamos a frequência de ocorrências abaixo:
Tabela 4 - Modo verbal na manifestação da modalidade deôntica.20
Modo Frequência Porcentagem
Indicativo 140 75,7
Subjuntivo 11 5,9
Não se aplica 34 18,4
Total 185 100
Como exposto acima, o modo indicativo foi o mais frequente no corpus estudado, seguido do subjuntivo. Não houve ocorrências de verbos no imperativo. Fato contrário à pesquisa de Lopes (2012), que contou com um considerável número de verbos plenos no modo imperativo. Essas diferenças se dão em função dos gêneros avaliados. Os textos opinativos da coluna Confronto das ideias são produções elaboradas previamente, pensadas e repensadas, o mesmo não ocorre em uma sala de aula, em que eventos inusitados ocorrem constantemente, além de haver uma interação mais explícita e direta entre professor e aluno. O mesmo não ocorre na coluna.
Constatamos não tivemos ocorrências da modalidade deôntica no imperativo porque este modo assevera em demasia os valores deônticos, algumas vezes até foge dos efeitos de sentido deônticos. Ao interagir com o leitor, os autores buscaram atenuar a força ilocucionária na instauração da modalidade deôntica, sendo as obrigações e deveres, por vezes,
tão atenuados que se assemelhavam a sugestões, mas em outros momentos expressaram de fato obrigações e proibições. Essas constatações variam de acordo com o contexto em que o verbo se localiza e com o propósito comunicativo do autor. Observemos o trecho que segue:
(16) Inexiste lei que obrigue alguém a pagar quantia a título de “multa” ou “taxa” por ter perdido uma comanda. (Tema 9)
(17) Então, devemos pegar os maus exemplos do passado e corrigi-los no presente, de modo que possamos garantir para o futuro, uma sociedade mais igualitária (Tema 12).
Em (16) o verbo pleno obrigar está no modo subjuntivo. Embora o efeito de sentido do modo subjuntivo seja de incerteza, no enunciado o verbo inexiste que antecipa o verbo modal apresenta uma certeza no enunciador sobre a questão de não haver uma lei que obrigue alguém a pagar multa por perder a comanda. Assim, a depender das expressões linguísticas circundantes, os modos verbais, assim como o tempo podem expressar efeitos de sentido variáveis.
O modo indicativo, identificado na ocorrência (17) acima, como podemos perceber, dá maior expressividade ao enunciado, é utilizado para assegurar a veracidade dos fatos apresentados, mostrando-os de maneira atualizada e verdadeira aos seus leitores. O efeito de sentido no referido exemplo é o de que a obrigação instaurada é uma verdade consensual, atemporal. Se estivesse no Subjuntivo, por exemplo, “Que nós devêssemos pegar os maus exemplos (...)”, seria a expressão de uma vontade, uma expectativa. Se fosse o Imperativo, por exemplo, “Peguemos os maus exemplos (...)” seria um ato de exortação direta aos leitores. Sánchez (2007) coloca o modo indicativo como aquele indicador de fatos reais e objetivos, sendo empregado, geralmente, para expressar a ação que está situada em um lugar determinado e que ocorre no momento em que se fala da ação verbal. Vale ressaltar que o tempo presente e o modo Indicativo são não-marcados, no sentido de que são mais frequentes e menos complexos (GIVÓN, 1985). Podemos, por exemplo, utilizar o Presente para indicar Futuro.