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Para além do desequilíbrio ambiental, a espécie humana e suas formas de produção e extração dos recursos e serviços ambientais também resultam em desequilíbrios socioeconômicos.
Neste sentido, conforme supramencionado, se observam nações com PIB de mais de 18 bilhões de USD (Estados Unidos, em 2016) e quase 70.000 USD de PIB per capita (Noruega, em 2016), enquanto que grande parte dos países, principalmente do hemisfério sul variam em média de 30 a 200 milhões de USD de PIB, sendo o Brasil, uma exceção com aproximadamente 1,5 bilhões de USD (FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL, 2016). Vê-se que de discrepâncias em PIBs pelo mundo a humanidade vai evoluindo, ou retrocedendo.
Pensa-se em mazelas humanas como as sociais e econômicas, mas subestima-se o quão estas são decorrentes, simultaneamente causas e efeitos, de uma degradação ambiental nunca antes vivenciada. Para alguns cientistas vivemos o Antropoceno, nome da era geológica cunhado por Stoermer e popularizado por Paul Crutzen, na qual a estabilidade ambiental antes observada, com resiliência ambiental suficiente para a manutenção de uma homeostase climática, não mais se aplica com tamanha previsibilidade e eficiência (VEIGA, J. E., 2017).
Atualmente, o protagonismo humano, e sua força transformadora do planeta, põe em xeque a segurança sistêmica, da qual limites foram há muito ultrapassados e cuja transformação tem magnitude nunca antes experimentada pela humanidade, e infelizmente ainda introjetada
pelas ciências biológicas muito mais do que pelas sociais e humanas (VIOLA; BASSO, 2016; LEWIS; MASLIN, 2015).
Segundo Viola e Basso (2016), o risco à sobrevivência humana enquanto espécie aumenta muito ao ultrapassar os limites planetários, resultado de modelos de desenvolvimento adotados, com padrões distorcidos de produção, consumo e uso de combustíveis fósseis como fonte energética primordial. Estudos e pesquisas com resultados alarmantes não faltam para escancarar a preocupante realidade. Assim também como novas tecnologias para mitigar tal devastador fato se tornaram abundantes e bem eficazes. Não faltam ideias e propostas de novos modelos de desenvolvimento que, independentemente de especificidades ou teorias de base, vertem para a descarbonização da atmosfera. A questão não é mais tecnológica, mas sim de ações políticas mais satisfatórias, compartilhadas e inclusivas (VIOLA; BASSO, 2016).
Havendo a atividade humana se tornado uma força motriz impactante e geradora de tamanhas mudanças no sistema planetário, cabe firmar a correlação direta e reflexa dessa produção em massa. A depleção dos recursos fósseis e sua funesta consequência do aumento aterrador da quantidade de gases de efeito estufa (GEE) lançado na atmosfera é uma delas. Em outras palavras, é importante discorrer sobre o nexo de causalidade das atividades humanas, em algumas nações intenso e evidente, e as catástrofes climáticas resultantes, caracterizando de forma mais próxima um crime cometido contra àqueles mais vulneráveis.
Obtida de forma maciça e em grande escala a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, a energia proveniente do carvão e petróleo pavimentou o caminho para o desenvolvimento estimulador de uma sociedade extremamente consumista, predadora dos recursos naturais e carrasca dos serviços ecossistêmicos, poluindo ar e águas, destruindo habitats e desflorestando paisagens (WRIGLEY, 2013). As estimativas de aumento nas emissões de gases do efeito estufa estão previstas a uma taxa geométrica. Assim também a temperatura média global, como mencionado, segundo relatório da Climate Action Tracker, de novembro de 2013, está prevista para subir aproximadamente 3,7 °C até o final deste século, tornando a vida no planeta precária, com o derretimento da camada de gelo da Groenlândia e da “permafrost” ártica (HANSEN et al., 2013).
O potencial energético dos combustíveis fósseis foi o grande propulsor das mudanças no setor produtivo. Até então, a produção de bens e serviços era realizada de forma mais artesanal, na qual os bens eram manufaturados pelos próprios artesãos e suas pequenas equipes, e os serviços, como o de iluminação pública, por exemplo, eram proporcionados pelo acendimento manual de lampiões pelas vias de circulação (SANCHES, 2011).
O entendimento dessa força que pode ser transferida, seus usos e possibilidades instigaram investigações sobre o conceito de energia e protagonizaram uma revolução do pensamento científico europeu no século XXVIII. É, então, que toma ânimo a visão da natureza como fonte de energia a ser dominada e utilizada para produzir conforto e felicidade, vislumbradas à época, e pela maioria até os dias de hoje, como detenção de bens, dinheiro e poder.
A energia torna-se, ao mesmo tempo conceito físico, promotora de trabalho útil, e conceito socioeconômico, como commodity6, e enquanto combustível para aumento produtivo
e instrumento de interligação entre as nações. A energia proporciona, ao mesmo tempo, excedente de produção e combustível para escoá-la para populações mais distantes. E estes são ingredientes perfeitos, propagandeados pelas mídias de comunicação, a base para o sistema de produção em massa, que atualmente requer quase dois planetas para ser mantido (RIFKIN, 2012).
Se os combustíveis fósseis foram os propulsores da produção em massa e da sociedade de consumo, a inerente característica da sua custosa extração também foi o gatilho para a estruturação e centralização de grande poder adstrito ao setor energético. Apenas grandes companhias estão aptas a explorar jazidas de petróleo e gás, cuja tendência é de aumento na dificuldade de produção, em áreas mais inóspita, locais longínquos e de difícil acesso, refletindo um aumento dos custos para a extração e aproveitamento desses recursos fósseis. E isto, pois, acaba por encarecer todo o sistema produtivo que é basicamente suportado por essas fontes energéticas.
É importante ressaltar que há de fato situações, muito comuns às empresas ligadas ao setor energético, em que a centralização no domínio da exploração e distribuição dos recursos energéticos e derivados de forma privativa à poucas empresas se faz necessária, na medida em que demandam alto custos e retornos demorados. Nesta situação, considera-se que conceder direito exclusivo da atividade à um produtor é medida de maior eficiência econômica, pois para que este produtor obtenha retorno e garanta preços adequados aos consumidores é preciso assegurar uma economia de escala, com grande demanda. Essa exclusividade de exploração econômica para determinadas atividades de grande porte, como extração de combustíveis fósseis e grandes hidrelétricas é chamada de monopólio natural. No entanto, por serem comuns
6 “Commodity é uma expressão do inglês que faz referência a um determinado bem ou produto de origem primária
comercializado nas bolsas de mercadorias e valores de todo o mundo e que possui um grande valor comercial e estratégico”. Exemplos de commodities são o petróleo, o carvão mineral, a soja, a cana-de-açúcar, dentre outros (PENA, 2017b).
em serviços tipicamente fornecidos por agências públicas ou regulados pelo estado, os monopólios naturais devem ser regulamentados pelo governo, de forma a garantir que “[...] empresas não utilizem seu poder monopolista tanto para gerar lucros excessivos, quanto para restringir quantidade e qualidade dos serviços providos” (RANDALL, 1987; TUROLLA; OHIRA, 2005, p. 4).
Dado que os monopólios naturais se justificam em atividades econômicas que demandam demasiado investimento com retornos à longo prazo, uma vez que o mercado se desenvolva, novas tecnologias menos custosas apareçam e barreiras físicas e estruturais não sejam empecilho, é viável que a caracterização daquela atividade como monopólio natural não tenha mais sentido. Neste momento, caberá então ao governo buscar diminuir seu controle e permitir maior livre concorrência.
Por volta de apenas 90 empresas contribuíram com 63% dos gases de efeito estufa emitidos globalmente entre 1751 e 2010, que totalizam 914 GtCO2eq de emissões cumulativas
mundiais de CO2 e metano industriais. Destas 90 entidades, 56 são produtoras de petróleo bruto
e gás natural, 37 são extrativistas de carvão e 7 são produtoras de cimento. Sediadas em diversos países, extraem recursos naturais por todo o globo, processando-os e comercializando produtos derivados em todas as nações para abastecerem consumidores ávidos por necessidades que lhe foram criadas pelo próprio sistema mercantil, sem que haja qualquer reflexão sobre as consequências devastadoras desse círculo vicioso (HEEDE, 2014; STARR, 2016).
Por incrível que pareça, e talvez também este seja o motivo da lentidão nas necessárias mudanças, o econômico nem é o principal fator a forçar mudanças no setor da energia. É sim fator primordial para que a mudança seja possível, mas não é seu principal gatilho. Importante que isto fique claro a empresários e economistas, que atestam serem as dificuldades econômicas reflexas às crises energéticas, como as do petróleo de 1973, 1979, 2008 e 2015, o motivo para a busca por novos paradigmas produtivos (SU et al., 2017).
As perdas da lucratividade no setor energético foram estopins para pensamentos nascentes sobre a busca de novas fontes, mas não ao ponto de deflagrar a busca pela transição. Sim, a mudança perfar-se-á encravada na esteira econômico-financeira das nações, mas não constitui seu âmago.
O principal gatilho para a transição energética, isto é, para a saída de uma economia de alto uso de fontes fósseis para uma economia baseada no uso de recursos renováveis para a obtenção de energia é a mudança climática. Embora a mudança na forma de pensar a economia seja a via de acesso, o imperativo de transitar para outras fontes vem da necessidade de sobrevivência da humanidade enquanto espécie. Uma não está dissociada da outra.
Para amenizar o dilema de evoluir de um sistema energético e produtivo predatório para um que se equilibre com a renovação, resiliência e homeostase do sistema planetário, as energias renováveis são imprescindíveis. E com elas advêm as reflexas mudanças nos sistemas econômico-produtivos, como o entendimento de que a obtenção energética pode e deve ser estimulada coletivamente, de forma integrada e compartilhada, e que a produção maciça de produtos não mais salvaguarda a qualidade de vida, muito menos será reflexo de felicidade em tempos vindouros.
É preciso esclarecer que o nexo causal que conecta as ações humanas à subvida de milhares de seres, também conecta as decisões políticas e jurídicas dos Estados, na medida em que são estes os agentes aptos a proporcionar grandes mudanças educacionais e nos sistemas produtivos, os quais agora devem verter para economia de energia, eficiência, independência e compartilhamento energético.