Tem 89 anos, não tem escolaridade alguma, isto porque segundo ele conta, ia um dia à escola e estava dez dias sem lá aparecer, o motivo por que não ia à escola resultava do facto de habitarem por ali uns ciganos que tinham umas mulas, e ele como gostava muito de animais faltava para ir montar os animais, dizia para o professor que ia almoçar com o pai, era mentira fugia para ir brincar com os animais dos ciganos, andou à escola mas era só quando ele queria, ainda aprendeu a escrever o seu nome mas não sabe ler.
Começou a trabalhar aos 8 anos, a guardar umas ovelhas, durante 2 ou 3 anos guardou porcos e vacas, parece-lhe que guardou toda a qualidade de gado.
Quando começou a ser homem, começou a lavrar com juntas de vacas, mais tarde fazia o mesmo trabalho mas já com parelhas de mulas.
Depois mudou de patrão, no entanto andou neste patrão até ao 25 de abril de 1974, altura que tirou a carta de trator, e passou a lavrar a terra mas agora de trator.
Casou com 22 anos e foi pai de 7 filhos hoje é avô de 11 netos e 3 bisnetos.
Nunca deixou de ser pastor, com o trator lavrava o campo para a sementeira, que havia de dar o alimento para as ovelhas.
Teve muitos patrões, no entanto a trabalhar com parelhas andou 30 anos.
Foi difícil criar os 7 filhos, o dinheiro era pouco, mas ia-se dividindo pelo que fazia falta, a mulher também trabalhava e os filhos logo que puderam começaram a trabalhar no campo, não tiveram uma infância como os outros. - Conta ele.
Começaram na ceifa, na apanha da azeitona, no tomate, faziam todo o trabalho do campo, o que aparecia na altura, confessa que a vida do campo é muito dura, mas quem gosta avança, foi o caso dele.
Sempre gostou do campo, foi criado no campo e no campo há-de morrer, não gosta de cidades, quando vai para o campo com as ovelhas é que se sente bem, gosta dos animais, - o campo tem muito que se lhe diga, não é o que parece à primeira vista. – Conta ele. Não quis esta vida para os filhos, foi com bom grado que os viu partir para as cidades, hoje estão melhor na cidade se tivessem seguido as pisadas do pai hoje eram uns desgraçados como o pai. A sua reforma não podia ser mais baixa, deu umas tantas voltas para que lhe fosse atribuído o complemento solidário para idosos, visto já ter idade e a esposa ter problemas de saúde e gastar uma boa parte da reforma na botica, mas não lhe deram nada, desculpam-se que os filhos estão bem na vida e com bons rendimentos. Se lhe tivessem atribuído esta pensão já não trabalhava. Aos 89 anos ainda é pastor, trabalha
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por necessidade, para que não faltem os medicamentos à esposa que por sinal é bastante doente.
Apesar da idade, ainda vai tendo saúde, mas agora já o trabalho cansa, não é como aos 20 anos, que nem dava pelo tempo passar, agora tudo é mais difícil. Logo ao nascer do sol está junto das ovelhas e só regressa a casa ao anoitecer, todos os dias da semana.
Quando lhe perguntámos porque não folgava, respondeu-nos:
- A vida de pastor não tem folgas, as ovelhas precisam de comer todos os dias, todos os dias vão para o campo.
Neste patrão já trabalha vai para 14 anos, o patrão umas vezes paga-lhe outras vezes não, já pensou em ir para casa descansar, mas faz-lhe falta o dinheiro, que ganha com as ovelhas.
Nunca foi homem de pedir ajuda aos filhos, e no natal sempre se arranja qualquer coisa para dar aos netos e bisnetos, pouco que eles são muitos, e o que ele ganha é muito pouco. O trabalho mais duro é o do campo, é também o mais mal pago, a vida do campo é muito custosa. - Desabafa ele.
Só é possível para quem tem saúde. No caso de ele chegar aos 89 anos e ainda trabalhar não tem segredo nenhum, foi a natureza que o moldou assim, nasce com a pessoa. Teve uma irmã que morreu com 103 anos e o irmão morreu com 84 anos porque teve um acidente com um trator, esta longevidade é de geração. - Diz ele.
Volta-nos a dizer que a vida do campo era muito dura as pessoas agora nem se apercebem das dificuldades que passou, para criar os filhos. Comeram muita açorda, era uma de madrugada outra à noite, passavam com uma sopa de couves ou uns grãos, um pedaço de farinheira ou então toucinho rançoso, o pão era uns maçaquetas e não se bebia vinho, só água. O primeiro copo de vinho que bebeu já tinha uns 40 anos, conta-nos que a esposa nos domingos que ele ia a casa dava-lhe uma moeda de 2$50 para ele ir até à tasca e não fazer má figura junto dos outros homens, mas ele nunca os gastava, levava-os de novo para casa, pois esse dinheiro fazia-lhe falta para criar os filhos, estes nunca comeram bem, mas também não passaram fome.
A vida sempre foi difícil para ele, a reforma dele é para a farmácia e a reforma dela não dá para os dois se alimentarem, o trabalho aos 89 anos é que faz com que ele não passe fome. Se não pudesse trabalhar tinha que pedir aos filhos, na opinião dele os pais é que devem ajudar os filhos e não o contrário.
Nunca teve férias, sempre a trabalhar, os políticos esqueceram-se dele e de muitos outros como ele.
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Quando foi o 25 de abril de 1974, vinham para cá fazer comícios em cima de reboques de tratores, prometeram-lhe mundos e fundos, vai-se haver eles estão todos ricos, sempre gozaram férias, viajaram para o estrangeiro, fizeram o que lhes dava na gana e ele tem que trabalhar enquanto tiver forças. Já merecia a reforma, trabalha desde os 8 anos, tem 89 anos e ainda faz mais do que alguns que têm bons ordenados e pouco ou nada fazem.
– Lamenta ele.
Nunca esteve doente, umas constipações e coisas assim ligeiras, há pouco tempo foi ao médico e fez umas análises que não apresentaram nenhum problema, assim como o exame que fez ao coração, o problema são os olhos, já foi operado às cataratas e agora anda melhor, já apanhou a doença da brucelose, o que acha normal, de forma que ele não se queixa, ossos do ofício. - Conta ele.
Gostava de se reformar de vez, com uma reforma diferente, uma reforma que se pudesse viver.
- Mas tudo se há-de arranjar os velhos sabem mais que os novos, havendo saúde, tudo se arranja.
O 25 de abril não foi melhor nem pior assim como a adesão a UE, nunca foi de nenhum partido, mas achou mal os comunistas ocuparem as propriedades que não eram deles, lembra-se quando a política mudou e eles tiveram que devolver as propriedades, os rebanhos e os tratores não entregaram, isto porque eles venderam tudo e ficaram com o dinheiro no bolso e as terras foi porque não as conseguiram vender, tiveram tudo na mão, mas não se aguentaram, não foram capazes de cumprir. A vida do campo é bonita, o pior é o trabalho duro que ela exige, muitos dias sem folgas a trabalhar de sol a sol se fosse de outra maneira tudo teria sido mais fácil.
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