Na seção pretérita, abordamos a seleção das variáveis disponíveis nas bases de dados do INEP e IBGE e a especificação das métricas dos indicadores socioeducacionais para a avaliação da dinâmica dos resultados escolares da Rede Federal de Educação Profissional da região Nordeste, tornando-lhes, desde já, ponto central para o debate que aqui se engendra sobre a gestão escolar.
Para a determinação das dimensões da qualidade esposadas na Tabela 3 (veja Seção 2.4.1), dois fatores são especialmente importantes na avaliação da qualidade em educação, na linha das considerações de Dourado, Oliveira e Santos (2007) e Dourado e Oliveira (2009), quais sejam: o intraescolar e o extraescolar.
A definição dos fatores de qualidade retromencionados, segundo os referidos estudos, pretende estabelecer condições mínimas que possam articular com os resultados escolares (que ora adotamos como ponto de partida as notas do Enem) e que forneçam parâmetros para uma visão global de qualidade do ensino nas escolas do país, posto que:
É extensa a lista de elementos que podem ser considerados indispensáveis para uma educação escolar eficaz, assim como são profundos e diversificados os aspectos que podem levar a uma compreensão consistente da problemática, em razão da multiplicidade de significados do que seja uma boa educação ou uma escola de qualidade. (DOURADO; OLIVEIRA; SANTOS, 2007, p. 10).
[...]
Assim, só têm sentido falar em escola de qualidade ou escola eficaz se consideramos um conjunto de qualidades ou de aspectos envolvidos. Isso significa dizer, no entanto, que é fundamental identificar e apontar elementos constituintes comuns de uma boa escola ou escola eficaz, identificando as similitudes a serem consideradas para essa qualificação, mesmo tendo em conta que as escolas de boa qualidade são produzidas em realidades e em condições objetivas bastante diferenciadas. (Ibid., p. 10).
Tratam-se de fatores que têm repercussões endógenas e exógenas à gestão escolar, visto que o fator intraescolar possui influência direta no mister de tal gestão, e o extraescolar, influência indireta, conforme assinalado anteriormente. Esses fatores definem o espectro de atuação da escola, razão pela qual são designados por Dourado, Oliveira e Santos (2007) de fatores intra (de controle direto da gestão escolar) e extraescolares (de controle indireto da gestão escolar).
O fator intraescolar é o que direta e significativamente a gestão escolar contribui para a realização do objetivo de promover a aprendizagem dos alunos, para que haja uma boa organização do trabalho escolar e que os professores e funcionários trabalhem em clima de satisfação para a efetivação do mister da escola, qual seja, a aprendizagem dos alunos. Caminhando nessa direção, são considerados como dimensões dessa perspectiva: teste padronizado, infraestrutura,
corpo docente e atividade didático-pedagógica. Conforme Dourado, Oliveira e
Santos (2007), tem-se quatro níveis de observação nas dimensões intraescolares: “condições de oferta do ensino, gestão e organização do trabalho escolar, formação, profissionalização e ação pedagógica; e, ainda, acesso, permanência e desempenho escolar, cada um com aspectos relevantes na conceituação e definição da qualidade da educação” (Ibid., p. 25).
São, pois, os aspectos internos mais importantes da forma como uma escola define sua função social. Melhorar o desempenho intraescolar reverbera no resultado do aluno. Assim, os insumos que são de controle direto da gestão escolar apresentados até aqui são fundamentais para o alcance de melhores resultados educacionais, contudo, é preciso ponderar, sobretudo, os aspectos socioeducacionais, para que se possa efetivamente avaliar o resultado dos serviços em educação, posto que as instalações físicas das escolas e a titulação dos professores das instituições de ensino em análise devem ser associados a outros aspectos determinantes para o alcance de maiores performances educacionais, senão, vejamos a Tabela 3, à página 33.
Os fatores extraescolares são aqueles aspectos em que a influência da gestão escolar passa a ser indireta ou de impacto mediato, embora qualquer melhora nos fatores extraescolares acrescentará benefícios à atividade escolar.
É plausível sublinhar, à guisa de contextualização, que o diretor de um
campus do IF, em um ato administrativo, não pode aumentar de plano a renda da
bairro ou da cidade em que escola funcione; entretanto, se age com fundamento na compreensão de que toda a ação no âmbito da escola repercutirá no seio social, a partir do momento em que aumenta a oportunidade educacional, associada a uma boa prestação desse serviço, produzirá efeito significativo na escolarização e renda da população (SCHWARTZMAN, 2008).
Temos ligados a esses fatores as dimensões sociopedagógica e socioeconômica. Àquela está relacionada a vinculação com o monitoramento do abandono escolar, e, à segunda, a preocupação em analisar o background familiar do aluno e o ambiente de atuação de cada campus do IF, para uma comparação dos resultados dos testes padronizados (outputs), com a necessária equidade. Os objetivos extraescolares posicionam o campus em seu ambiente de atuação. Dentro dessa definição, podemos identificar o liame importante existente entre as dimensões sociopedagógica e socioeconômica nas circunstâncias da aprendizagem do aluno.
Conforme asseveram Dourado, Oliveira e Santos (2007, p. 14),
a análise da situação escolar em termos de Qualidade da Educação não pode deixar de considerar as dimensões extrínsecas ou extra-escolares que permeiam tal temática. Essas dimensões dizem respeito às múltiplas determinações e às possibilidades de superação das condições de vida das camadas sociais menos favorecidas e assistidas. Estudos e pesquisas mostram que as dimensões extraescolares afetam sobremaneira os processos educativos e os resultados escolares em termos de uma aprendizagem mais significativa, daí porque tais dimensões não podem ser desprezadas se queremos efetivamente produzir uma educação de qualidade para todos. (DOURADO; OLIVEIRA; SANTOS, 2007, p. 14).
Tendo como dimensões extraescolares, os autores acima referidos destacam o “espaço social e o dos direitos, obrigações e garantias, cada um com aspectos relevantes na conceituação e definição da qualidade da educação”. (Idem, 2007, p. 25). Para caracterizar as dimensões dos direitos, obrigações e garantias, aludidas pelos estudiosos, aquilatamos o índice de desenvolvimento humano (IDH) por município, uma vez que este índice revela-nos a ação governamental para a melhoria das condições de vida da população em termos de educação, renda e saúde.
Sublinhando o visto até aqui, o fator intraescolar tem clara influência na prioridade dos objetivos de desempenho de uma escola, mas não é o único. Ademais, o desempenho escolar é significativamente influenciado por fatores exógenos à gestão escolar. Se, por exemplo, os genitores do aluno possuem
escolaridade de nível superior, o contexto socioeconômico do aluno é beneficamente afetado por esse fator, o que reflete no processo formativo e nas expectativas dos alunos na dinâmica do sucesso escolar, consoante Dourado, Oliveira e Santos (2007).
Com efeito, à medida que o perfil do alunado é determinado, a gestão escolar pode deslocar sua ênfase acadêmico-administrativa para oferecer uma gama de ações socioeducacionais que repercutam nas dimensões extraescolares, tais como: programas de assistência estudantil com bolsas de estudo, auxílio-moradia, auxílios transporte e alimentação, atividades de monitoria; a articulação com o setor produtivo para ampliação de estágios para iniciação profissional dos discentes; o aumento de vagas para ampliar o alcance do atendimento à comunidade; cursos de capacitação em atividades de extensão, pesquisa e transferência tecnológica para a melhoria da qualidade de vida da comunidade, dentre outros.
Este quadro configura-se como um aspecto relevante para todos os gestores escolares, posto que a forma como a escola deve ser administrada e os objetivos que devem estabelecer mudarão o contexto de aprendizagem do aluno. Desse modo, determinamos quais são as dimensões de desempenho mais significativas que fornecem para reitores e diretores dos campi dos IF’s do Nordeste cada uma das principais áreas de decisão de uma escola (veja Seção 2.4.3).
Logo, uma distinção que exsurge desse ponto, é a aquela que divide as dimensões que determinam a área estrutural da escola, que é a que influencia principalmente as atividades acadêmico-administrativas (fator intraescolar), e as que determinam o espaço social do aluno, que exercem uma influência na dinâmica do sucesso escolar do aluno em função do background familiar (fator extraescolar). Desse modo, as dimensões para a avaliação do fator intraescolar incluem: desempenho em proficiência, condições de infraestrutura, fluxos de aprovação e reprovação escolar, oferta de vagas e qualificação do corpo docente, aspectos que serão abordados na seção adiante. Nesse diapasão, as dimensões para a avaliação do fator extraescolar incluem: a sociopedagógica e a socioeconômica.
Embora reconheçamos que outras dimensões são relevantes para a avaliação escolar, adotamos estas pela exequibilidade de sistematização e como ponto de partida na consolidação de mecanismos de monitoramento das políticas educacionais e de controle social, a partir da ressignificação de dados públicos existentes.
Avaliação dos resultados em testes padronizados, interrelacionando dimensões Dimensão INFRAES- TRUTURA Dimensão CORPO DOCENTE Dimensão DIDÁTICO PEDAGÓ- GICA Dimensão SOCIO PEDAGÓ- GICA Dimensão SOCIO ECONÔ- MICA
Fator Intraescolar Fator Extraescolar
Até aqui, examinamos as informações necessárias para compreender o estabelecimento das dimensões da qualidade constantes na Tabela 3 (vide Seção 2.4.1, p. 33), para a avaliação dos resultados educacionais nos IF’s da região Nordeste. Essas informações são um pré-requisito necessário para a seção seguinte do presente trabalho.