Para efeitos de análise, com o intuito de se averiguar a pertinência da identificação do Tema e do tipo de Progressão Temática como elementos fundamentais da organização discursiva, além da localização da informação principal de cada oração no N-Rema, o pesquisador procederá da seguinte forma: segmentação de cada texto no nível da oração, identificando suas orações constituintes e, em cada oração, as funções de Tema e Rema, Informação Dada e Informação Nova – constructos teóricos pertencentes à Metafunção Textual. Para efeitos de sistematização, serão apresentados, na seqüência, as etapas que caracterizam a metodologia adotada pelo pesquisador na análise dos textos que constituem o corpus da pesquisa.
Quanto à Estrutura Temática, serão adotados os seguintes passos:
(a) cada oração independente será analisada conforme o conceito funcional de Tema proposto por Halliday (1967; 1985; 1994; 2004);
(b) no caso de complexos oracionais, as relações de parataxe e de justaposição admitem a análise temática de cada oração isoladamente;
(c) no caso de relações de hipotaxe em que a oração dominante preceder a oração dependente, será adotada a análise de cada oração separadamente;
(d) no caso de relações de hipotaxe em que a oração dependente anteceder a oração dominante, a priori, será adotada a análise de cada oração isoladamente, com exceção das situações apresentadas no capítulo 3 sobre Tema, como as que seguem:
(d.1) quando as orações dependentes manifestarem idéia de Circunstância, estas serão consideradas como Tema do complexo oracional, cabendo a função de Rema a toda a oração dominante, visto que a oração dependente equivale semanticamente a um termo ou expressão que exprime a função interpessoal de Adjunto Circunstancial;
(d.2) no caso das orações restritivas, estas sofrem um rebaixamento da categoria de oração para a de grupo, sendo analisadas como parte integrante do grupo nominal a que pertence o termo a que estão associadas.
Mapeados os Temas oracionais, será identificada a forma como estes se apresentam no conjunto, segundo uma das três categorias propostas por Daneš (1974) para a Progressão Temática (PT Contínua, PT Linear ou PT Derivada) ou alguma outra categoria que surgir no decorrer das análises, conforme explicitação na seção 4.7 do capítulo 4.
Assim, o Tema Constante é aquele reiterado, que se refere, segundo Halliday, a um elemento experiencial da oração prévia. Quanto ao Tema Linear, este tem origem no Rema da oração antecedente, podendo ser identificado de duas formas: (1) ao se referir a um item presente no Rema da oração antecedente (N-Rema, segundo Fries: 1995); ou (2) ao se referir a todo o Rema da oração precedente. O Tema Derivado, por sua vez, remete a um item referido no hipertema, ou seja, um Tema mais amplo do qual outro(s) se origina(m); este pode estar no nível do parágrafo. Caso o Hipertema se refira ao título ou subtítulo de
um texto, uma manchete, uma divisão de capítulo, ou seja, esteja num nível mais elevado do que aquele do parágrafo, é denominado de Macrotema (Martin: 1992). Verifica-se que PTs Constantes e Lineares são mais comuns de serem identificadas do que PTs Derivadas, visto que estas podem derivar de hipertemas explícitos (conforme mencionado anteriormente) ou implícitos.
Sobre a identificação dos Temas oracionais, Halliday (1994: 61) afirma que:
The significance of these patterns emerges when we come to consider the importance of clause theme in the overall development of a text. By itself the choice of Theme in each particular instance, clause by clause, may seem a fairly haphazard matter; but it is not. The choice of clause Themes plays a fundamental part in the way discourse is organized; it is this, in fact, which constitutes what has been called the ‘method of development’ of the text. In this process, the main contribution comes from the thematic structure of independent clauses. But other clauses also come into the picture, and need to be taken account of in Theme- Rheme analysis.70
Para proceder à análise das PTs nos textos, o pesquisador seguirá os seguintes critérios:
70
A passagem pode ser livremente traduzida como segue: “A relevância destes modelos emerge quando consideramos a importância do Tema oracional no desenvolvimento do texto como um todo. A escolha do Tema em cada caso particular, oração por oração, pode parecer um problema bastante fortuito, mas não é. A escolha dos Temas oracionais desempenha uma parte fundamental no modo como o discurso é organizado; isso é, de fato, o que constitui o que é chamado de ‘método de desenvolvimento’ do texto. Neste processo, a contribuição principal vem da Estrutura Temática de orações independentes. Mas, outras orações também precisam ser levadas em conta quanto à análise Tema-Rema
(1) estabelecer ligações entre o Tema Ideacional de uma oração e o Tema da(s) oração(ões) que a antecede(m); caso isso ocorra, a PT será classificada como PT Constante, pois o Tema da oração 1 e o Tema da oração 2 são o mesmo:
oração 1 (T1 R1) + oração 2 (T1 R2)
(2) Se a ligação entre o Tema Ideacional de uma oração ocorrer com o Rema da oração prévia, a PT será categorizada como Linear; o Tema da oração 2 será oriundo do Rema da oração 1:
oração 1 (T1 R1) + oração 2 (T2 [R1] R2)
(3) Se o Tema da oração não obedecer a nenhuma dessas tipologias, ele pode explicitamente se referir a um item do Macrotema do texto ou do Hipertema do parágrafo, recebendo, então, a denominação de PT Derivada.
(4) Caso não se encontre um referente do Tema na oração antecedente, um outro critério há de ser estipulado, ou seja, identificar tal referente na oração prévia à oração antecedente, com o intuito de se identificar um intervalo entre uma PT Constante ou uma PT Linear; isso já foi estudado e constatado em pesquisas da área (Crompton: 2004). Os itens a seguir ilustram as duas possibilidades de tal fato ocorrer:
(a) Neste caso, ao ser verificado o Tema da oração 1 (T1), nota-se que o Tema da oração 2 (T2) é diferente, havendo ruptura temática; o Tema da oração 3 (T3 = T1), por sua vez, recupera o Tema da oração 1. Dessa forma, a PT é Constante, porque há a manutenção do Tema da oração 1:
oração 1 (T1 R1) + oração 2 (T2 R2) + oração 3 (T1 R3)
(b) Aqui, ao serem identificados o Tema e o Rema da primeira oração (T1 R1), observa-se que o Tema da oração 2 não tem relação com a oração anterior, provocando ruptura temática. Então, verifica-se o Tema da oração 3 (T3), que é derivado do Rema da oração 1 (T3 = R1); assim, a PT será classificada como Linear.
oração 1 (T1 R1) + oração 2 (T2 R2) + oração 3 (T3 [R1] R3)
(c) Caso nenhuma dessas possibilidades ocorrer, isto é, o Tema da oração 3 não estabelecer relação com os Temas ou Remas das duas orações que o antecedem, aí será considerado um caso de PT Derivada. Esta admite uma das três realizações:
(a) Temas explicitamente relacionados a Macrotemas textuais;
(b) Temas relacionados a sentenças anteriores à sentença prévia do Tema sob análise; e
Identificados os Temas e os Remas oracionais, feito o mapeamento de todos os Temas de cada oração do texto e realizada a caracterização do tipo de Progressão Temática, o próximo passo se refere à identificação do método de desenvolvimento do texto. Nesta etapa, verificar-se-á qual é o conteúdo experiencial dos Temas oracionais, ou seja, se o conjunto de Temas do texto remete a um mesmo campo semântico – o que implica um único método de desenvolvimento para o texto –, ou se os conteúdos experienciais temáticos remetem a mais de um campo semântico, o que significa a existência de um método de desenvolvimento complexo.
Realizado o trabalho com os Temas, o próximo passo consiste no mapeamento, dentro dos Remas, daquela informação de maior valor para o interlocutor, o N-Rema, que, segundo Fries, se refere ao último constituinte da oração em textos escritos. Para a realização desta etapa, serão identificados todos os últimos constituintes oracionais, que coincidirão com o ponto do texto, ou seja, o foco da informação, lugar onde se concentram as informações mais significativas para o interlocutor.
A etapa seguinte consiste na realização de um esqueleto do texto, a partir da seleção dos seus Temas, com seus respectivos conteúdos experienciais, e dos seus N-Remas, de modo a se constatar como a informação é veiculada do ponto de partida (o Tema) para o foco da oração (o N-Rema); ao mesmo tempo, observa-se o conjunto de Temas e de N- Remas oracionais para se averiguar qual é o papel dessas funções no fluxo de informação ao longo do texto. Realizado isso, tem-se um esquema do texto, contendo, além do método de desenvolvimento deste, as informações mais significativas para o interesse do leitor, o
que pode ser a base para a constituição de um novo texto – um resumo –, o que implica ainda outros fatores de estudo que não são alvo desta pesquisa.
O último passo consiste nas considerações sobre semelhanças e diferenças encontradas na análise dos textos que compõem o corpus, de modo a se verificarem parâmetros que possam servir de base a outros estudos, fomentando as discussões sistêmicas sobre o assunto.