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Ao se analisar, por meio da mitocrítica durandiana, as leis que regiam as casas de caridade (Estatuto, Instrução e Máximas Morais), pode-se perceber como existia uma busca de separar idéias contrárias como, por exemplo, o bem e o mal, sendo este um imaginário próprio do Regime Diurno e presente em grande parte do pensamento cristão ocidental.

Um verbo instigante que traz em si um conjunto simbólico presente nessa estrutura de pensamento é o verbo “livrar”, mencionado nas Máximas Morais. De fato, esse verbo transmite a busca do afastamento daquilo que é mal e pecaminoso, devendo ser, portanto, evitado, principalmente para o pensamento cristão ocidental, no qual Deus aparece no papel heróico capaz de trazer esse livramento.

Encontra-se também neste documento um caráter obsessivo pelos verbos “obedecer” e “desobedecer”, estabelecendo que o primeiro deles é aquilo que deve ser cumprido, enquanto o segundo consiste numa ação que é digna de punição, por fugir a regra daquilo que, para estrutura heróica de Durand (1997), é o correto, devendo ser travada uma luta contra o mesmo. Dessa forma, ao invés de unir pensamentos contrários ou de eufemizar uma idéia negativa, tal como no Regime Noturno, tem-se a intenção de separar, de afastar tais idéias e de fazer com que aconteça uma luta para a luz prevalecer sob as trevas.

Ao utilizar a expressão verbal “não deixar-se levar”, Ibiapina traz para as Irmãs

que elas deveriam se resguardar daquilo que para ele eram “más influências”, trazendo claramente uma oposição do sagrado ao profano. Ou seja, ao negar a expressão, ele propõe uma luta contra o mal para que essas não “caiam no pecado”. A variação entre as constelações míticas noturnas e diurnas não é exclusividade do imaginário de Ibiapina e deste grupo social. Na própria constelação do imaginário “individual” há esta polissemia.

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A queda no imaginário durandiano faz parte daquilo que ele denomina de símbolo catamórfico e que, como já foi analisado na introdução desse trabalho, é bastante comum no pensamento cristão, devido ao eterno conflito entre o cair e o permanecer firme, que significa estar coerente com os ensinamentos do Evangelho e da Igreja Católica. Tal queda pode ser vivenciada ainda pelo medo da morte e está presente em grande parte das culturas.

Para evitar essa possível “queda”, ele traz a imagem de Maria como exemplo de modelo de obediência. Tal como é citada nos evangelhos canônicos, se consegue influenciar as mulheres que eram regidas pelo Estatuto e pelas Máximas Espirituais. Vale destacar que Maria carrega o arquétipo da “Grande Mãe” tal como Vênus e, para essa sociedade, sendo mencionada em aparições como modelo de beleza (DURAND, 1995).

Eleonor A. Concha, ao comentar sobre o marianismo, destaca que a Igreja Católica difunde um ideal em torno de Maria e que esta é exaltada por que: “[...] se despojou de sua sexualidade. Todo seu valor reside no fato de ser santa, modesta, silenciosa, humilde e, fundamentalmente, de ser mãe sem ter tido o gozo do seu corpo: a mãe ideal [...]” (1981, p.18). Sabe-se que tal concepção se inicia nas transformações do cristianismo para se tornar oficial em Bizâncio.

Entretanto, essa imagem está sempre em contraposição com a mulher tida como pecadora, ou seja, a vaidosa, a prostituta e aquela que fala demais. O ato de “falar” em demasia é visto como aquele que leva tais mulheres a dispersão, devendo, portanto, ser evitado. O falar, portanto, é visto nas regras estabelecidas por Ibiapina como uma

atitude que leva as pessoas para a “queda”. E esta deve ser evitada, travando-se uma

luta espiritual através do trabalho e da oração, meios este que, segundo Padre Ibiapina, possibilitariam o fim da dispersão.

Analisando o barulho, na perspectiva durandiana, pode-se lembrar que a agitação é considerada, na estrutura heróica, como sendo próprio do caos e do inferno, estando em oposição à ordem tão enfatizada no Regime Diurno (DURAND, 1997). Portanto, há uma constante busca de moldar as Irmãs de Caridade e órfãs, presentes em suas instituições, ao exemplo de Maria, lutando constantemente contra o pecado.

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A busca por “orar”, “rogar” ou “rezar”, presente em todo seu estatuto, revela que ele almejava conduzir a sua instituição conforme a vontade do ser supremo, afirmando que só assim essas mulheres teriam a “recompensa” celeste, já que era profundamente confiante no juízo final. Este pensamento pode ser visto mencionado em suas cartas.

Para Durand (1998), a ênfase do trabalho pode ser considerada como sendo

uma característica presente em uma sociedade influenciada pelo mito prometeico79.

Sendo assim, o pensamento sobre o trabalho como sendo um meio de se evitar a dispersão era fruto da época em que se predominava a busca pelo progresso e redenção através da modernidade. Dessa forma, em padre Ibiapina, a partir da constância com que ele se refere à importância em se trabalhar e obrar, fica explícita a sua percepção: a industrialização, no século XIX, fez com que ele implementasse atividades industriais nas suas casas de caridade, vigiando as Irmãs para que essas não parassem de produzir.

Para a boa conduta de tais atividades, ao adentrarem nas casas de caridade, essas mulheres deveriam abandonar a vaidade e aquilo que para ele era tido como promiscuidade. Males estes que, segundo alguns de seus escritos, eram presentes na conduta de algumas mulheres antes de permanecerem na sua instituição, já que haviam se livrado da prostituição. O fato de que as meninas órfãs estivessem dentro de um lar proporcionaria que estas não fossem levadas à prostituição, devendo estar sempre agradecidas e obedientes às suas regras.

Para manter tal ordem, encontra-se no seu Estatuto e nas suas Máximas Morais a busca por “corrigir” as pessoas que estavam sob seu controle, sendo, portanto, rígido com as mesmas por acreditar que só assim conseguiria manter a sua instituição. Além

disso, a freqüência com que aparece o verbo “mandar” revela todo seu autoritarismo,

considerando-se como aquele que deveria controlar tudo que se passava nessa instituição.

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O mito prometeico está relacionado ao progresso porque Prometeu (que vindo do grego significa predestinação) sendo um titã grego filho de Japetos e de juntamente com seu irmão Epimeteu ficou conhecido por distribuir os dons aos animais. Entretanto desobediente a Zeus roubou o fogo para os homens que simboliza o conhecimento e foi acorrentado e diariamente por um longo período, uma águia perfurava seu fígado e sendo ele imortal este se regenerava. Na modernidade os homens buscaram por obter mais tecnologia como facilitadora para a vida das pessoas e buscando ser criadores de novas coisas são relacionados com este herói grego mítico. DURAND, Gilbert.. Campos do Imaginário. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

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Havia a preocupação em opor o “fingimento” e a “verdade”, evidenciando novamente a “separação” dos contrários, principalmente, quando o sacerdote se voltava para fazer com que as Irmãs seguissem todas as regras por ele determinadas, contando, para isso, com o arquétipo da Grande Mãe e do Herói que, neste contexto, era Jesus Cristo, o qual imperava com a ação.

Por fim, ao analisar estas ações existentes nas leis que regiam essas casas, percebe-se um imaginário religioso forte, mas que tinha como diferencial a busca pela prática do trabalho para que elas pudessem se sustentar e progredir. Ação esta que faz dele um religioso não tanto voltado para mística, e sim para a ação, tendo como modelo a forma como Jesus mobilizava as pessoas e ensinava a serem caridosas segundo os Evangelhos canônicos.

Benzer Belgeler