Em Provérbios 1,20-23, encontramos a primeira ocorrência da hokmah como sabedoria mulher, em Provérbios 1-9. Este primeiro poema tem paralelos relevantes com a linguagem e a temática dos caps.8 e 9, onde a sabedoria é apresentada como uma figura feminina que clama nas ruas e lugares públicos, chamando os que necessitam de instrução. Para investigar sobre o sentido desta figura, no item 2.1.1, farei a tradução de Pr 1,20-23 a partir do texto massorético. No item 2.1.2, farei a delimitação e divisão do texto e, no item 2.1.3, buscarei encontrar os gêneros literários que foram utilizados na sua elaboração. Estes passos me possibilitarão obter uma visão mais aproximada da sabedoria mulher apresentada nos poemas de Pr 1,20-23; 8 e 9. Iniciarei com uma exegese do primeiro poema (Pr 1,20- 23).
2.1.1 – Tradução e comentário
20 A sabedoria131 clama132 na rua, nas praças levanta a voz, 21 em cima133 do barulho134 grita.
À entrada (das) portas, na cid ade, anuncia135: 22 Até quando, ingênuos136, amareis a ingenuidade
131O termo que traduzi no singular “sabedoria” está no plural
tAmk.x'.
hokmot. No entanto, os verbos que se relacionam com ela estão no singular. Provavelmente, este é um plural de majestade (conferir Paul Jüon,Grammaire de L’Hébreu Biblique, Roma: Pontifício Instituto Bíblico (edição corrigida), 1965, p.88 e 212. hokmot é considerado um plural abstrato de hokmah por M. Sæbø , hk m, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, Madri: Ediciones Cristiandad, vol. 1, 1978,
col.776-789. “Este é um plural abstrato e encontra-se também em Pr 1,20; 9,1; 24,7”, confiram em Emil Kautzsch, Gesenius’ Hebrew Gramar, Oxford: Claredon Press, 1910, p.398, nota 2.
132 O verbo
hN'roT'
taronah está no qal imperfeito, feminino: “ela grita de alegria”. Observo que este verbohN'ri
rinah, neste tempo e modohN'roT'
taronah, encontra -se também em Pr 8,3.133 A mesma expressão
varoB.
bero’x encontra-se em Pr 8,2. Aqui, a frase poderia ficar assim: “no ponto de partida (das ruas) barulhentas ela grita”.134 Este termo
tAYmih
homiot, nesta forma, aparece somente aqui. 135 Literalmente: “seus dizeres, diz”rmeaot h''yr,m'a;
’mareha t’omer.e os zombadores se deleitarão na zombaria, eles e os néscios odiarão o conhecimento? 23 Voltai-vos à minha instrução;
eis que derramarei sobre vós meu espírito137 e vos darei a conhecer minhas palavras.138
2.1.2 – Delimitação e divisão, buscando encontrar a coesão interna
Os v.20-23 formam a parte principal do primeiro poema da sabedoria mulher, no livro dos Provérbios. Esta figura fascinante é apresentada com o termo hokmot, analisado acima, como plural de majestade, ou plural abstrato.139 Ela é a personagem principal do poema e se apresenta em lugares públicos muito movimentados para ensinar os caminhos
136 A raiz
ytiP,
pety aparece duas vezes no v.22. As duas vezes como nome: “ingênuos” e “ingenuidade”. Traduzi~yIt'P.
petayim por “ingênuos”, embora Luis Alonso Schökel, Bíblia do peregrino, São Paulo:Paulus, p.1414, tenha traduzido por “inexperientes” e João Ferreira de Almeida tenha traduzido
~yIt'P.
petayim como “estúpidos” (veja Bíblia Sagrada, versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida,
Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 3ª impressão, 1991, p.546). Segundo M. Sæ bø, há uma discussão sobre a raiz hebraica
ytp
pth. Questiona-se se ela deve ser relacionada ao termo aramaico pty, quetem o sentido de “ser amplo”. Caso as duas raízes sejam aceitas, temos que considerar o pth hifil “alargar”, em Gn 9,27. Há, neste texto hebraico, um jogo com as palavras yapet Jafé e yapet “que se dilate”. Este jogo de palavras mostra que pode haver um sentido mais amplo para os destinatários das palavras da sabedoria, já que o substantivo pety é comum em Provérbios e refere-se a pessoa jovem, inexperiente, precipitada, que se deixa influenciar com facilidade, mas, também se aplica a quem necessita aprender e está em condições de fazê -lo. Segundo M. Sæ bø, “entre os conceitos sapienciais para ‘néscio’, no AT, este é o mais suave”. Confira M. Sæ bø, pth, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, vol.2, col.625-627.
137 A expressão “derramarei para vós meu espírito”
yxiWr ~k,l' H['yBia
’abi‘ah kalem ruhi encontra- se em textos proféticos, como Is 59,21; Ez 36,27; 37,14; 39,29 entre outros, e especialmente em Jl 3,1-2, onde a mesma expressão está repetida 2 vezes. Chama a atenção que o sujeito deste verbo seja a sabedoria mulher. Ela promete “derramar seu espírito” a quem acolher sua instrução.138 Segundo G. Gerleman, o substativo
rb;D'
dabar tem um significado mais amplo que o verbo, pois este designa não somente a “palavra”, isto é, o conceito lingüístico portador de um significado, mas também o seu conteúdo. Veja G. Gerleman, em dabar, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westerma nnn, vol.1, p.614-627. Luis Alonso Schökel indica querb;D'
dabar significa primeiro “palavra” (o ato de falar e o seu conteúdo), passando depois a significar também a ação e o modo de realizá -la. Confira Dicionário bíblico hebraico-português de Luis Alonso Schökel, São Paulo: Paulus, 2ª edição, 1997, p.147-149. Chama a minha atenção que a sabedoria seja sujeito desta promessa de dar a conhecer suas palavras. Embora clame pelas ruas como profeta, ela é radicalmente diferente, pois os profetas dão a conhecer a palavra de Javé (Is 20,2; Jr 2,1.4; Ez 3,16; 7,1 e muitos outros textos), enquanto a sabedoria dá a conhecer sua própria palavra.que levam à vida. Sua voz se faz ouvir em meio dos “barulhos”
tAYmiho
homiot140doburburinho da cidade.
Estes versos fazem parte do discurso da sabedoria mulher, caracterizado pelo seu vocabulário sapiencial e tom ou estilo profético.141 O campo semântico está formado por termos como: “sabedoria” hokmah, “conhecimento” da‘at e “repreensão” tokahat, que se encontram em oposição a “ingênuos” peta’yim, “zombadores” e “néscios” kesilim, termos próprios da literatura sapiencial. Ao mesmo tempo, o estilo profético da sabedoria mulher leva-a a usar uma terminologia que demonstra sua autoridade, como a expressão: “até quando?” (v.22), para questionar “ingênuos”
~yIat'P.
peta’yim, “zombadores”~yciªle
lezim e “néscios”~yliªysik.
kesilim e conduzi- los ao caminho da vida.Portanto, uma das faces da sabedoria mulher já transparece no estilo profético deste poema (1,20-33). Ela resgata a tradição israelita de mulheres profetisas, como Hulda, que certamente tinha muita autoridade, pois foi consultada pelos oficiais do rei Josias quanto à autenticidade das palavras do livro da lei, encontrado na reforma do templo de Jerusalém (2Rs 22). Contudo, Judith E. Mckinlay considera que definir a sabedoria mulher como profetisa pode restringi- la e confiná- la indevidamente, pois sua exortação é tipicamente sapiencial142 e Phyllis Trible chama a atenção para a cuidadosa elaboração deste discurso, com seu jogo de palavras e sua estrutura quiástica.143
A impressão inicial que temos ao entrar em contacto com este texto é a de que Pr 1,20-33 formaria uma unidade, pois faz parte de um mesmo discurso. No entanto, uma análise mais detalhada do texto, mostra que há uma distinção entre Pr 1,20-23 e os versos que seguem (v.24-31). Enquanto nos v.20-23 os verbos estão no imperfeito e se oferece a possibilidade de conversão a quem acolhe a exortação da sabedoria mulher, nos v.24-31 os
140 Este termo, cuja raiz é
hmh
hmh , possui uma forma rara neste verso, talvez única no Primeiro Testamento.141 Veja Luis Alonso Schökel e José Vílchez Líndez, p.164.
142 Judith E. McKinlay, Gendering Wisdom the Host – Biblical invitations to eat and drink , p.68-69.
143 Phyllis Trible, “Wisdom Builds a poem – A Architecture of Proverbs 1, 20-23”, em Journal of Biblical
verbos estão no perfeito, denunciando uma culpa que exige castigo, sem nenhuma possibilidade de apelação. Já o v.32 retoma as palavras chaves dos v.22-23 e faz o oferecimento de uma vida tranqüila e sem nenhum temor a quem seguir os conselhos da sabedoria. Segundo opinião de Roland Murphy144, os v.20-23 e 32-33 formam uma moldura para os v.24-31. Se acolhermos esta sugestão, podemos encontrar a seguinte estrutura:
v.20-23 – Exortação da sabedoria mulher aos ingênuos, zombadores e insensatos v.24-31 – Acusação contra os que recusaram o seu ensinamento
v.32-33 – Exortação aos ingênuos e insensatos, com promessa de vida tranqüila
Com traços que recordam as mulheres profetisas do Primeiro Testamento, a sabedoria mulher apresenta-se aqui com autoridade divina, falando em presença de todos e prometendo derramar seu espírito (v.23), dar segurança e paz interior a quem aceitar seus ensinamentos (v.32). Parece que os redatores finais deste texto se chocaram com a força desta figura da sabedoria mulher e a colocaram dentro de um encaixe javístico, formado por uma expressão muito comum na literatura sapiencial e profética: “porque odiaram o conhecimento e não escolheram o temor de Javé” (v.29). Esta mesma expressão encontra-se no final do título ge ral da obra (1,7) e aparece repetida em 9,10, como um fechamento da unidade.145 Com este encaixe, temos uma nova estrutura para nosso texto, limitando-o dentro dos conceitos javísticos:
v.7 – A importância do temor de Javé v.8-19 – Ensinamentos dos pais v.20-28 – Poema da sabedoria mulher v.29 – A importância do temor de Javé
Desta maneira, a figura da sabedoria mulher encontra-se encaixada dentro da teologia javística de fidelidade à aliança. Um tema importante para a tradição
144 “Wisdom’s Song – Proverbs 1,20-33”, em The Catholic Biblical Quarterly, Washington: The Catholic Biblical Quarterly, vol. 48, 1986, p.456-460, (Monograph Series).
deuteronomista (Dt 6,2-5;10,12-15) e que se encontra também na literatura sapiencial (Jó 28,28; Sl 111,10). Este talvez seja um exemplo do limitado contexto da redação tardia.
2.1.3 – Gêneros literários
A poesia de Pr 1,20-33 é formada especialmente por comparações e repetições. É próprio da poesia hebraica aproximar frases ou pensamentos, estabelecendo uma tensão entre os dois pólos, a fim de gerar um novo sentido. Nos v.20-21, encontramos quatro frases completas e repetidas que caracterizam a figura que está sendo apresentada pela primeira vez aos leitores e às leitoras:
A sabedoria clama na rua, nas praças levanta a voz, em cima do barulho grita.
à entrada (das) portas, na cidade, anuncia. (1,20-21)
Entre estas quatro frases não há antítese. A tensão se dá pelo acúmulo de ve rbos que indicam a ação de comunicar com força uma mensagem: a sabedoria mulher “clama”, “levanta a voz”, “grita”, “anuncia”. Há, também, um acúmulo de lugares, para indicar que ela se comunica com autoridade em lugares públicos e movimentados.
Para trans mitir a descoberta que fez sobre a força e o poder da mulher sábia, o autor usou não somente a linguagem poética, mas buscou o recurso da metáfora ou do símbolo da sabedoria mulher como uma ótica. A metáfora é como um convite ao leitor ou à leitora para olhar a partir de um determinado ponto de vista e ver o que o autor descobriu. Reunindo aspectos da vida concreta das mulheres e de símbolos do imaginário religioso do povo de Israel, criou-se a instigante metáfora da sabedoria mulher. Segundo Marc Girard, “na metáfora, um ou alguns aspectos fundamentam um nexo parcial entre duas realidades”146. A linguagem simbólica é apropriada para transmitir mensagem religiosa.
Segundo Michel Meslin, o universo simbólico pode ser compreendido em dois níveis distintos: um primeiro nível seria o das “imagens fundamentais, nível mais profundo e menos elaborado do que a linguagem falada ou escrita, e que poderíamos chamar o nível dos símbolos figurativos e cósmicos”. Um segundo nível seria o “dos símbolos que se ligam estreitamente a um contexto cultural e religioso em particular”147. São estas estruturas simbólicas que oferecem as imagens que permitem a descrição da experiência religiosa e sua interpretação, seja pela pessoa que a viveu ou pela comunidade que recebe a comunicação.
Na estrutura poética de Pr 1,20-33, emergem certos hábitos retóricos da literatura sapiencial. O dinamismo antagônico das comparações permite acolher as grandes manifestações psico-sociais da imaginação simbólica e sua variação no tempo. O desenvolvimento das artes, a evolução das religiões, dos sistemas de conhecimentos e dos valores manifestam-se e sucedem-se de maneira integrada no curso da evolução das civilizações humanas.148 Em nosso caso, podemos perceber a evolução desta metáfora da sabedoria mulher. Ela parte das experiências cotidianas das mulheres e das famílias, na sua busca de encontrar caminhos de superação para os problemas da vida. Recolhe tradições antigas sobre mulheres profetisas e sobre cultos das casas, produzindo uma linguagem que possibilita o diálogo com as diferenças, no contexto diferenciado e crítico do pós-exílio.149
No v.22, encontramos o mesmo acúmulo de sentido para indicar os interlocutores da sabedoria mulher:
Até quando, ingênuos, amareis a ingenuidade e os zombadores se deleitarão na zombaria, eles e os néscios odiarão o conhecimento? (1,22)
147 Michel Meslin, A experiência humana do divino – Fundamentos de uma antropologia religiosa, Petrópolis: Vozes, 1992, p.169.
148 Gilber Durand, La imaginación simbólica, Buenos Aires: Amorrortu, 1971, p.97. 149 No item seguinte, desenvolverei um estudo sobre este contexto.
Termos muito comuns na literatura sapiencial estão repetidos aqui, como nomes: “ingênuos”/“ingenuidade”, “zombadores”/“zombaria” e “néscios” estão em oposição a “conhecimento”, formando uma pergunta retórica.
No v.23, encontramos uma exortação em forma condicional. Se os destinatários aceitarem a admoestação da sabedoria mulher e mudarem de rumo, receberão os dons oferecidos por ela: seu espírito e o conhecimento de suas palavras.
Voltai-vos à minha instrução;
eis que derramarei sobre vós meu espírito e vos darei a conhecer minhas palavras. (1,23)
É interessante perceber aqui o termo “voltai- vos”
WbWvT'
taxubu. É umimperativo, indicando uma ordem para mudar de direção ou de visão, de ótica. Voltar-se a quem lhes transmite a mensagem, isto é, à figura que está sendo apresentada neste texto: a sabedoria mulher. Este é o convite fundamental. Se os interlocutores da sabedoria o aceitarem, obterão as promessas.
Resumindo, através da poesia, com suas repetições e comparações, o autor consegue criar um sentido novo para o termo sabedoria. Este novo sentido inspira-se tanto na vida concreta das mulheres de Judá, como no imaginário religioso do povo de Israel. O símbolo da sabedoria mulher nasce desta junção entre realidade e experiências religiosas antigas, mantidas na memória do povo. Através da repetição, a poesia permite ainda que descobrir que os interlocutores da mulher sabedoria são os ingênuos e zombadores. Estes são convidados ao encontro com ela para adquir sabedoria.
2.1.4 – Uma visão da sabedoria mulher
Em Provérbios 1,20-23, a sabedoria mulher é introduzida através de um plural de majestade que desperta a atenção dos leitores e gera uma pergunta sobre sua identidade. Ela
coloca-se no meio do barulho, em lugares públicos muito movimentados, para ensinar os caminhos que conduzem à vida. Ela clama na rua, levanta a voz nas praças, anuncia em meio ao burburinho da cidade. Articulado em primeira pessoa, seu discurso apresenta um vocabulário comumente usado na literatura sapiencial, porém o estilo do seu discurso e os lugares onde ela o proclama lembram os profetas e as profetisas de Israel. Seus interlocutores são especialmente os ingênuos, os zombadores e os néscios. Mas, se ela fala publicamente, sua palavra é dirigida a todas as pessoas que acolherem sua instrução. Esta é, portanto, uma mensagem aberta.
Um aspecto importante desta primeira apresentação da sabedoria mulher no livro dos Provérbios é a autoridade com que ela questiona seus ouvintes. Ela pergunta, diretamente: “até quando, ingênuos, amareis a ingenuidade e os zombadores se deleitarão na zombaria?” (v.22). Propõe aos seus ouvintes que se convertam e se voltem para ela: “voltai- vos à minha instrução; eis que derramarei sobre vós meu espírito e vos darei a conhecer minhas palavras” (v.23). Portanto, uma das faces da sabedoria mulher neste texto tem os traços característicos de profetisa, pois os quatro verbos usados para apresentá-la estão relacionados à atividade profética: “clama” na rua, “levanta a voz” nas praças, “grita” no meio do barulho e “anuncia” nas portas da cidade (v.20-21). Ao apresentá- la com traços de profetisa, Provérbios 1,20-23 faz memória das mulheres profetisas do Primeiro Testamento, como Hulda, por exemplo. Judith McKinlay observa que Hulda era obviamente uma mulher de autoridade, uma vez que os oficiais do rei foram consultá-la sobre um assunto importante. Mas, “tudo o que ficou gravado dela é um discurso profético em 2Rs 22”150. Podemos pensar, ainda, em uma profetisa mais recente, como Noadias, que
se opunha ao projeto de reconstrução de Neemias (Ne 6,14). Então, partindo da história bem concreta de mulheres profetisas, elabora-se uma metáfora com um significado mais amplo e complexo.
Para descobrir este novo significado, temos que perguntar- nos se profetas derramam seu próprio espírito ou se é Javé quem tem o espírito para derramá- lo sobre quem escolhe e envia? Outra maneira de formular esta pergunta é: se a sabedoria promete derramar seu
espírito, não estará, aqui, representando o próprio Javé? Em Is 32,15 há uma expectativa de que seja derramado “o espírito que vem do alto”. Esta é uma expectativa confirmada pela profecia de Joel (3,1-5). É o espírito de Javé que encheu Otoniel de força para libertar seu povo (Jz 3,10). Consciente de que possui o espírito de Javé, Isaías assume a missão de anunciar a boa nova aos pobres (Is 61,1-2). Portanto, o texto de Pr 1,20-23 apresenta aspectos importantes para a identificação desta figura da sabedoria mulher. Ela é profetisa ou fala publicamente como profetisa, questionando e indicando os caminhos que conduzem à vida. Ao mesmo tempo, sabedoria mulher representa o próprio Javé, pois tem o espírito e promete derramá-lo a quem se voltar a ela e escutar sua instrução. Ela promete, ainda, “comunicar sua palavra” (v.23c) a quem se voltar à sua instrução (v.23a).
Portanto, as promessas da sabedoria mulher a colocam em dois postos ou lugares diferentes: (1) como profetisa, caminhando em meio ao povo e anuncia ndo um conhecimento importante para bem viver. (2) como Deus, derramando seu espírito e comunicando sua palavra criadora. Ao mesmo tempo, estes dois traços do rosto da sabedoria mulher em Pr 1,20-23 estão enraizados na vida concreta e bem humana das mulheres de Israel, pois todo símbolo nasce de realidades ou experiências bem humanas, para depois adquirir sentidos mais amplos e transcendentes.
Embora encaixada dentro da teologia javista de fidelidade à aliança com Javé, a sabedoria mulher tem uma grande força simbólica de atração e busca de conhecimento. No cap.8 do livro dos Provérbios este símbolo é retomado com uma enorme riqueza de comparações e importantes repetições, que ajudam a contemplar os múltiplos traços do seu rosto.