Isso nunca pára? Nunca diminui a velocidade?Claro que não. Parar ... pra quê? (Don Delillo, Cosmópolis)
“Freud acabou, o próximo é Einstein” (DELILLO, 2003, p.14). Sem respostas para suas perguntas, sem sono, lendo “ciência e poesia”(2003, p.14), lendo “naquela noite a teoria da relatividade especial, em inglês e alemão” (2003, p.14), Eric Parker, personagem central de Cosmópolis, o mais recente romance do escritor americano Don Delillo publicado no Brasil, conclui que quando morresse, ele não acabaria. “O mundo é que acabaria” (2003, p.15). Percebe que nada existe a sua volta e “tudo o que havia era o barulho dentro de sua cabeça, a mente no tempo”. (2003, p.15)
Einstein disse que o tempo era uma ilusão, e Eric Parker é uma ficção. E, se a teoria de Einstein vai acabar, vai junto com ela nosso conceito mais presentificado do tempo. A Teoria da Relatividade, desenvolvida por Einstein em 1905, partiu das leis de movimento de Newton, cujo tempo era visto como absoluto e separado do espaço, e revolucionou os conceitos de espaço e tempo absoluto, pois abrangia também a velocidade da luz. Essa idéia teve, dentre outras, uma conseqüência notável, a equação E=mc2 (onde E significa energia, m, massa, e c a velocidade da luz). O principal postulado é que um observador pode “obter sua própria medida de tempo, tal como registrada pelo seu relógio, e com a qual relógios idênticos, com diferentes observadores, não concordam necessariamente”(HAWKING, 1988, p.42). Talvez, por isso, a física moderna vai confrontar a idéia de que o tempo percorre distâncias e de que existiria uma distinção entre presente, passado e futuro. Por definição, a razão entre o espaço percorrido por um corpo e o tempo gasto nesse percurso, o conceito de velocidade, comprova que há uma relação entre espaço e tempo.
O tempo e o espaço são “medidos” fisicamente e este talvez seja para nós um bom exemplo, pois a literatura vai fragmentar as percepções e possibilidade de mensuração de ambos. Hoje, há um questionamento sobre o lugar do sujeito face a uma sociedade digitalizada, virtual e, por isso, globalizada. Com isso, muitas das noções sobre o tempo e, conseqüentemente, sobre o espaço foram modificadas. O conceito de
mundo, do universo. O pequeno texto Do rigor em ciência, contido em O Fazedor, de Jorge Luís Borges, versa sobre os cartógrafos de um Império desconhecido que descrevem um mapa que tem o poder de cobrir, com exatidão, todo um território, apresentando os mínimos detalhes da superfície terrestre, e lembra, antes, os espaços de hoje.
Naquele Império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não foram satisfatórios e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Não há em todo o País outra relíquia das Disciplinas Geográficas43
Os satélites atuais parecem converter os mapas de Borges em realidade, mas além das imagens existe esta relação entre espaço e tempo. Eric Parker, dentro de sua limusine, durante vinte e quatro horas, e o leitor de Cosmópolis poderiam substituir, quem sabe, “os dois observadores situados em dois referenciais inerciais diferentes, da teoria de Einstein. A velocidade constante entre Eric e o leitor é estabelecida pela leitura e pelo movimento da limusine. Sendo assim, de acordo com a teoria da relatividade especial, os intervalos de tempos medidos por esses observadores seriam diferentes. Para o leitor, portanto, passou-se apenas um dia, para Eric, aquelas experiências equivaleriam a uma vida inteira”44.
Aristóteles afirmava que o estado natural dos corpos é o repouso. O movimento afetou o tempo, o tempo modificou-se com a velocidade e a velocidade mudou nossa concepção de espaço. O tempo de Newton era linear e a teoria da relatividade de Einstein introduziu uma noção de tempo flexível, não-linear45. As leis fundamentais e físicas exprimem agora possibilidades e não mais certezas. É o efeito borboleta e a teoria 43Suárez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, cap. XIV, Lérida, 1658. Fragmento
selecionado por Jorge Luis Borges, "Do Rigor na Ciência". (BORGES, 2000,v.2, p.247)
44Disponível em: http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030809/sup_pen_090803_16.htm 45 De acordo com a mecânica de Newton, espaço e tempo eram grandezas absolutas. Segundo
do caos. Eric Parker lembra a visão determinista de Laplace. “você me mostrou que os ciclos do mercado podem ser intercambiáveis com os ciclos temporais da reprodução dos gafanhotos, com a colheita do trigo. Você deu a esse tipo de análise um grau de precisão horrível. Mas esqueceu de uma coisa.(...) a importância do torto, do ligeiramente penso.” (DELILLO, 2003, p.188), ou seja, o tempo do que está “fora de lugar”. O texto de Borges contesta a precisão científica, na verdade ilusória, que nos faz acreditar estarmos em terreno conhecido e mensurável. A cartografia, de fato, sempre nos faz acreditar nos limites, nas fronteiras do espaço. Mas “o território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. É agora o mapa que precede o território – precessão dos simulacros – é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão do mapa”(BAUDRILLARD, 1991, p.08)
A sociedade circula com uma velocidade cada vez mais elevada e as interações entre os vários sistemas econômicos são cada vez mais sutis. O dinheiro é o grande tema, “toda a riqueza virou seu próprio objeto”(DELILLO, 2003, p.79) e os computadores e a internet se espalham. O tempo pareceu acelerar e o espaço se reduzir.
A teoria da relatividade de Einstein é filha, evidentemente, do espaço- movimento das mercadorias, como demonstram os experimentos mentais que o ilustram: relógios, trens, ascensores, naves espaciais, uns nos outros, em relação de velocidade... Fluxo estendido: o estoque zero anula o jogo territorial no futuro e na duração. O diferido desaparece no prazo zero de entrega da indústria, como no direto da mídia. O tempo real, enfim, na esfera das telecomunicações e da informática, designa a imediatez da transmissão, do cálculo e da resposta, o tratamento e a apresentação instantânea das informações. No horizonte das acelerações, no olho do ciclone das velocidades, o tempo real, imóvel, move o espaço-tempo das mercadorias. O tempo real é a realidade do tempo mercantil, sua enteléquia, seu ideal: um tempo não mais seqüencial, mas paralelo, não mais linear, mas pontual, um tempo da simultaneidade, o limite das acelerações. (LÉVY, 1998, p. 153)
Houve algo na conexão entre espaço e tecnologia que fez o tempo andar mais rápido. Passamos a viver no futuro e nosso tempo não é mais o tempo linear e, sim, o tempo do caos, que desestrutura os conceitos e concepções de presente, passado e futuro. Tempo que, aliado às máquinas-computadoras, passa rápido, não caminha mais
na flecha do tempo e estabelece um novo espaço, que é digital, virtual, cibernético. Segundo Stephen Hawking há, dentre outros, dois indicadores do progresso tecnológico nos últimos anos, que são o número de artigos científicos e o consumo de eletricidade. Hawking acredita que, em 2600, o consumo de eletricidade deixará a terra incandescente. Lógico que este desenvolvimento atual não durará para sempre. O que irá acontecer no futuro não é tão previsível, mas Hawking afirma que “o sistema mais complexo que temos são nossos corpos”(2001, p.161), compreendidos pela evolução/revolução do DNA. Além disso, credita curiosamente ao desenvolvimento da língua escrita o aumento da complexidade do DNA, pois as informações puderam ser passadas de uma geração à outra.
Hawking afirma que “as informações nos livros podem ser atualizadas rapidamente. A taxa de atualização do DNA humano, pela evolução humana, é de cerca de uma unidade por ano. Mas, 200 mil novos livros são publicados por ano, uma taxa de novas informações de mais de um milhão de unidades por segundo. Claro que grande parte dessas informações é lixo, mas, mesmo que apenas uma unidade em um milhão seja útil, isso ainda é cem mil vezes mais rápido do que a evolução biológica.
Essa transmissão de dados por meios externos, não-biológicos, levou a raça humana a dominar o mundo e a ter uma população em crescimento exponencial (HAWKING, 2001, p.165) . Assim , para ele, Hawking, hoje os seres humanos precisam aumentar sua complexidade para que os sistemas biológicos se mantenham à frente dos eletrônicos. Os computadores não têm inteligência, é fato, mas começaram a superar os homens por outro motivo – a velocidade. “Suas velocidades (dos computadores) e complexidades dobram a cada 18 meses”. Nosso futuro não será estático, ao contrário, será amparado na velocidade.
Comparado com Ulisses, Cosmópolis, tem apenas um dia, em abril de 2000, de duração. Um dia na vida de Leopold Bloom e de Eric Parker, que andam, respectivamente, pelas ruas de Dublim e de ...Nova York cumprindo “seus destinos”. Representar a vida de um homem em um único dia faz com que o tempo e o espaço careçam de sentido. Mas, diferentemente das ações de Ulisses, que parecem ter maior duração do que um dia, em Cosmópolis, um dia parece muito tempo, tamanha a velocidade da personagem. A seqüência desordenada de eventos, torna-os simultâneos
e há, aí, a dissolução do tempo. Além disso, com a aceleração, a singularidade dos lugares, a não-memória, o tempo torna-se intemporal, por mais paradoxal que possa parecer, ou seja, há uma confusão na ordem seqüencial dos fenômenos e no tempo de suas durações. E, interessante perceber que é dentro dessa lógica que a internet se configura e acaba por estabelecer o “tempo real”, cuja velocidade é instantânea, o que apaga tanto as memórias quanto a percepção de espaços locais e singulares.
A noção de tempo-duração será substituída pelo tempo-velocidade, pelas idéias de simultaneidade e instantaneidade. O tempo resultante das novas tecnologias eletrônicas é centrado na presentificação pois a interatividade é sempre on-line. As tecnologias de telepresença em tempo real alteraram nossa percepção de tempo real e espaço real porque há a fusão entre passado e futuro numa percepção de presente “a potência do computador elimina a dúvida. Toda dúvida decorre de experiências passadas. Mas o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando. Precisamos de uma nova teoria do tempo” (DELILLO, 2003, p.87).
Assim que, seguida pela velocidade, a ação pós-moderna, segundo Silviano Santiago, é jovem, inexperiente, exclusiva e privada da palavra. A experiência de passado, as reminiscências, a memória são de pouca valia, não conseguem mais, sequer, ser consideradas como experiência. A experiência não existe mais, pois não há tempo. É preciso buscar o tempo das máquinas até para contar as histórias. Fredric Jamenson, em As sementes do tempo, pergunta o que fazíamos antes das máquinas, e é difícil não pensar aqui na “ecologia cognitiva” de Pierre Lévy. “O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e traduzem as representações”(LÉVY, 2001, p. 46). A narrativa pós- moderna representa o movimento da vida, a velocidade, em oposição à narrativa clássica que traduzia a imobilidade da morte. A velocidade marcada pelos velocímetros, o tempo marcado pelo relógio. O tempo das máquinas é classificado pelo relógio. “Tudo são míseras semanas. Tudo são dias. Nós temos minutos para viver” (DELILLO, 2003, p.71)
Antes de continuar, é preciso deixar claro que, na literatura, diferentes ritmos temporais e espaciais coexistem ou rompem-se, assim como na sociedade. É preciso destacar que a percepção de tempo linear e espaço 46
físico é a que ainda
predomina nas esferas sociais. "A rede informático-mediática é apenas um dos múltiplos circuitos de comunicação e interação que estimulam a coletividade, e que numerosas instituições, estruturas e características culturais possuem, ao contrário, ritmos de vida e de reação extremamente longos (Estado, língua, nação, religiões, escolas, etc)" (LÉVY, 1993, p. 118).