Após termos percorrido os últimos séculos da pedagogia, podemos partir para as entrevistas dos sete professores do Recife-PE para compreendermos suas decisões pedagógicas muito melhor embasados cientificamente e conhecermos a realidade musical e pianística da cidade, restritos às duas mais importantes instituições públicas de ensino musical da cidade: o Conservatório Pernambucano de Música e a Universidade Federal de Pernambuco.
Por compreendermos que é de fundamental importância que todo pesquisador esteja atento aos aspectos éticos nas pesquisas acadêmicas, especialmente quando se lida com seres humanos (QUEIROZ, 2013), optamos por revelar os nomes dos professores ao invés de omiti-los, ou associá-los a pseudônimos. Os motivos são vários:
Os professores de piano dessas duas instituições são pessoas públicas largamente conhecidas na comunidade musical recifense e suas opiniões seriam facilmente identificadas, não fazendo sentido, portanto, omitir-lhes a identidade;
Este trabalho não visa a traçar juízos de valor acerca do trabalho desses profissionais, senão analisar um aspecto da sua prática pedagógica (o uso, não uso ou formas de uso de exercícios de técnica) sob um viés histórico e pedagógico, com a consciência de que não há maneiras absolutas de se ensinar piano;
Em concordância com o que propõe Queiroz (2013, p. 13), os professores estão de acordo com essa escolha por meio de assinatura de termo de consentimento, conforme aplicado por Santos (2007), que segue em anexo ao final desta dissertação.
No afã de entendermos a metodologia que cada professor aplica para si e para seus alunos, usamos, como já dissemos, de entrevista semi-estruturada presencial. As entrevistas foram gravadas e os dados de importância para esta pesquisa – no que se refere aos exercícios de técnica pianística – foram analisados e nos ajudaram a compreender de que maneira esse material vem sendo tratado por esse grupo de professores e pelos alunos que eles formaram ou vêm formando ao longo de suas carreiras.
A cidade do Recife conta com uma escola de música de nível técnico que tem importante papel na formação de músicos capazes de ingressar no Ensino Superior. Com longa tradição na cidade, o Conservatório Pernambucano de Música foi fundado pelo maestro
Ernani Braga em 1º de julho de 1930. Possui uma programação cultural vasta, com apresentações periódicas de alunos, professores e convidados, e conta com 95 professores das seguintes áreas:
Canto: canto erudito;
Cordas dedilhadas: bandolim, cavaquinho, contrabaixo elétrico, violão popular e violão erudito;
Cordas friccionadas: contrabaixo acústico, violino, viola e violoncelo;
Percussão: bateria, percussão erudita e percussão popular;
Teclados: piano erudito, piano popular e teclado.
Sopros: clarinete, fagote, flauta doce, flauta transversa, saxofone, trombone, trompa, trompete.74
Os músicos que desejem ingressar num curso superior de música no estado de Pernambuco contam com a Universidade Federal de Pernambuco. O Departamento de Música da UFPE foi fundado em 1958 na Escola de Belas Artes da então Universidade do Recife. Atualmente, engloba três cursos de graduação: bacharelado em instrumento, bacharelado em canto e licenciatura em música, assim como desenvolve atividades de pesquisa e extensão e possui diversos grupos musicais residentes.75
A duração do curso de graduação em música da UFPE é de oito semestres, e os alunos do curso de bacharelado em piano contam com aulas de piano tutoriais ao longo de todos os semestres da graduação. Durante o curso, é exigido do aluno um total de três recitais solo, com duração progressiva, além de um recital de conclusão.
Constatada a importância dessas duas instituições públicas para a cidade do Recife e tendo em vista que elas são responsáveis pela formação de uma boa parte dos pianistas profissionais que tenham tido formação musical na cidade, justifica-se, dessa forma, para a investigação objeto deste trabalho, a escolha de docentes de ambas as instituições para entrevistas que tiveram por finalidade a compreensão da metodologia de trabalho de cada um deles no que se refere ao (des)uso de exercícios de técnica pianística (LEITE, 2012).
Cientes de que as técnicas específicas da entrevista76 variam conforme o objetivo
(GARRETT, 1964; DUARTE, 2004; BONI; QUARESMA, 2005; AGUIAR; MEDEIROS,
74 Site do Conservatório Pernambucano de Música: <www.conservatorio.pe.gov.br>. Acesso em 03/11/2014. 75 Site do departamento de música da UFPE: <www.ufpe.br/musica>. Acesso em 03/11/2014.
76 Para Haguette (1997, p. 86 apud BONI; QUARESMA, 2005, p. 72), a entrevista é um “processo de interação
social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado”.
2009;), escolhemos a entrevista semi-estruturada como forma de aferição das posturas pedagógicas dos professores, onde o pesquisador pode “combinar perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 75).
O motivo da escolha pelo modelo semi-estruturado para este trabalho se dá principalmente pelo fato de que, ao longo do processo de entrevista com os professores, procuramos garantir que haja uma interação apropriada entre entrevistador e entrevistado, criando um clima de cordialidade e confiança e também pela razão de que poderão surgir questões e dúvidas que transcendam a rigidez de um questionário estruturado sem, no entanto, nos desviarmos do tema original.
Na situação da entrevista, em que ocorre uma abertura pessoal e em que se aceita que alguém nos investigue a vida íntima e/ou profissional, é normal que haja um
receio ante a perspectiva de falar com uma pessoa estranha e lhe expor nossos problemas. Também podíamos estar-nos sentindo inseguros do que iríamos contar a nosso respeito e temerosos de que essa pessoa quisesse saber mais sobre nós do que desejaríamos contar (GARRETT, 1964, p. 19).
Daí a importância de assegurar ao entrevistado que as informações que ele disser só serão utilizadas caso ele concorde, não sendo o gravador ou as anotações, portanto, testamentos irretocáveis e infalíveis sobre sua forma de trabalhar, cuja complexidade, sabemos, transcende qualquer rigidez metodológica e vai muito além do que pode ser dito em alguns minutos de conversa. Por esse motivo, escolhemos, após gravar as entrevistas, disponibilizar o audio ou a transcrição das mesmas aos entrevistados durante o tempo em que estiver ocorrendo a coleta de dados, para que eles ratifiquem ou retifiquem as informações prestadas de forma que só assim as utilizemos como base de material analisável. Vale lembrar que é tarefa do entrevistador assegurar que o entrevistado não se sinta pressionado de forma alguma, nem receoso sobre qualquer coisa que venha a ser revelada, a fim de obter as informações mais corretas e completas possíveis. Compreendendo que a atitvidade pedagógica se configura numa atividade múltipla e heterogênea, devemos sempre estar abertos à possibilidade de o entrevistado dizer algo na entrevista e decidir por aprofundar-se mais após o fim da mesma, devendo ele ter tal garantia em mente desde o início dos trabalhos. Dessa forma, buscamos resguardar a fidedignidade das informações prestadas.
Ao nos envolvermos numa atividade de investigar a vida alheia, há alguns princípios éticos que devemos obrigatoriamente observar. No ato da entrevista, Garrett (1964, p. 32) alerta que "o entrevistador deve discernir muito bem a inutilidade e até mesmo o perigo de julgar a atitude das pessoas", pois, muitas vezes, "julgamos os outros por nós mesmos,
esquecendo que o nosso ponto-de-vista [sic] é influenciado por um grande número de preconceitos e emoções, mais ou menos inconscientes" (GARRETT, 1964, p. 20).
Após expormos as estratégias metodológicas que esta pesquisa contempla, a saber: a entrevista semi-estruturada como ferramenta de levantamento de informações junto aos professores de piano escolhidos; o levantamento bibliográfico e revisão de literatura nos capítulos anteriores no sentido de nos arvorarmos de um construto teórico consistente no sentido de compreendermos melhor os embasamentos das opiniões dos professores entrevistados, o capítulo seguinte trará um breve histórico do piano do Recife para que compreendamos a importância dessa cidade no cenário pianístico brasileiro e o porquê de ela ter sido escolhida para a realização desta pesquisa. No capítulo 4, também será introduzida uma breve biografia dos professores de piano entrevistados e, então, a análise das entrevistas.