A pesquisa sobre os anagramas e seu uso hipogramático colhido nos versos dos poetas, essa prática do mestre genebrino, para a qual nos voltamos a partir do trabalho de garimpagem feito por Starobinski, não escapou a Lacan. Desde A Instância da Letra no inconsciente ou a razão desde Freud, em 1957, ainda em seu primeiro ensino, Lacan dá provas de que teve acesso às notas deixadas por Saussure sobre os anagramas através da publicação de Starobinski, destacando que:
Basta escutar a poesia, o que sem dúvida aconteceu com F. Saussure, para que nela se faça ouvir uma polifonia e para que todo discurso revele alinhar- se nas diversas pautas de uma partitura. Não há cadeia significante, com efeito, que não sustente, como que apenso na pontuação de cada uma de suas unidades, tudo o que se articula de contextos atestados na vertical, por assim dizer, desse ponto (LACAN, 1995 [1957], p. 506-7).
O que está em apenso, isso que com Saussure podemos chamar a partir do CLG, de relações paradigmáticas, ou de texto anagramático a partir de sua incursão na poesia, quando relacionado às formulações de Lacan, nos leva a querer “[...] ouvir uma polifonia”, sem nos preocuparmos em demasia com o sentido inconsciente de um texto subterrâneo.
A pesquisa anagramática, feita por Saussure, ganha outra roupagem se a aproximarmos dos procedimentos freudianos. Lacan o faz comparando os
anagramas ao rébus22 dos sonhos. Desde sua Instância da Letra, ele destaca que o
sonho, via régia para o inconsciente, devem ser lidos como um rébus e, como tal, deve ser entendido ao pé da letra. Em suas palavras:
O que se prende à instância, no sonho, dessa mesma estrutura literante (em outras palavras fonemática) em que se articula e se analisa o significante no discurso. Como as figuras não naturais do barco sobre o telhado ou do homem de cabeça de vírgula, expressamente evocadas por Freud, as imagens do sonho só devem ser retidas por seu valor de significantes, isto é, pelo que permitem soletrar do “provérbio” proposto pelo rébus do sonho. Essa estrutura de linguagem que possibilita a operação da leitura está no princípio da significância do sonho, da Traumdeutung. Freud exemplifica de todas as maneiras que esse valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação, e recorre aos hieróglifos do Egito ...]. Freud encontra um meio de se orientar, nessa escrita, por certos empregos do significante que se apagaram na nossa, [...], mas para melhor nos remeter ao fato de que estamos numa escrita em que até o pretenso “ideograma” é uma letra (LACAN, 1998a [1957], p. 513 -14).
Nesta citação, Lacan é veemente na posição de defender que, se o sonho tem uma estrutura de linguagem que possibilita sua leitura, por outro lado, o valor de significante da imagem não tem a ver com a significação sendo, antes, da ordem de uma escrita hieroglífica, onde se destaca a materialidade do significante e, como tal, deve ser tomado como letra. Assim, não foi à toa que Freud recorre à escrita do antigo Egito, pois, como nos diz Lopes e Beividas (2002, p. 141),
[...] o que parece atrair Freud para os hieróglifos é o caráter vago, impreciso e de grande interferência individual característico dessa forma de escrita. Isso se demonstra com clareza na conferência introdutória “Incertezas e críticas” (1915-1917), na qual Freud indica diversos fatores do relaxamento formal dos hieróglifos: a direção da escrita é variável (da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda), as vogais não são representadas, a escolha dos elementos gráficos comporta grande arbitrariedade e há diversos critérios sagrados a serem obedecidos. [grifo do autor].
O interesse de Freud pelo hieróglifo tem a ver, podemos assim dizer, com a composição pouco precisa dessa escrita, onde o escriba tem participação na decisão do sentido. Ele reconhece, desse modo, que há algo de comum entre o hieróglifo e os sonhos, gancho que permite, a Lacan, aproximar a materialidade onírica freudiana aos anagramas saussurianos:
22
Rébus, segundo o Dicionário Aurélio: “o ideograma no estágio em que deixa de significar diretamente o objeto que representa para indicar o fonograma correspondente ao nome desse objeto”.
Um sonho, (...) isso se lê do que dele se diz, e que se poderá ir mais longe ao tomar seus equívocos no sentido mais anagramático do termo. É nesse ponto da linguagem que um Saussure se colocava a questão de saber se nos versos saturninos, onde ele encontrava as mais estranhas pontuações de escrita, isto era intencional ou não. É aí que Saussure espera por Freud. E é aí que se renova a questão do saber (LACAN, 1985b, p. 129).
Se Saussure espera por Freud para que a questão do saber seja renovada, é Lacan quem vem dar um novo estatuto a esse saber, vinculando-o a lalíngua. As “estranhas pontuações de escrita”, encontradas nos versos saturninos, que tanto intrigaram Saussure, e que Lacan compara ao rébus do sonho, são, para nós, um dos índices que circunscreve o impossível da língua. Acrescentemos, ainda, que o que se destaca nessas composições poética dos latinos é a relação do sujeito com lalíngua, e, como veremos, isso é inseparável da função da letra. Nesse sentido, concordaremos com a afirmação de Carvalho23:
Ora, é justamente a função da letra o que se ressalta nas palavras sob as palavras onde se lêem os anagramas. É aí que reaparece, em Saussure, a questão do sujeito em sua relação com a língua: ele é suposto nesse corte literal onde emergem essas pontuações que Saussure mantém no campo do indescidível. Retroativamente, diremos que ele emerge também no Curso como efeito do recorte exigido na massa indistinta dos sons onde se elocubra um saber sobre alíngua.
Partindo dessa citação de Carvalho, podemos dizer que os anagramas tocam a função da letra, a qual não está desvinculada da questão do sujeito. Retomaremos, mais adiante, o que vem a ser a noção de letra em Lacan, mas, desde já, adiantamos que a letra, distinta da articulação significante, escreve a experiência de um sujeito para além da significação. Com Milner, adiantamos que “[...] o fundamental é, pois, que Saussure tenha posto em termos de saber subjetivável o ponto onde a lalíngua faz nó com a língua” (MILNER, 1987, p. 59). É nessa dobradiça que podemos localizar o ponto onde brota a poesia e de onde o sujeito enlaça seu desejo.
2.3 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
23 Esta citação encontra-se no texto Letra, linguística e linguísteria, disponível em