2. BÖLÜM: LĠTERATÜR (ALAN YAZIN)
2.5. Ġlgili AraĢtırmalar
2.5.1. Ulusal araĢtırmalar
Entre os meses de março e dezembro de 2009, participei do PROCAD na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Meu contato com alunos e professores dessa universidade foi muito importante para repensar o projeto. Sob a co- orientação do professor Ari Pedro Oro vi a necessidade de entender a presença evangélica na região com mais vagar. Isso implicava em retorno a campo no último ano de pesquisa.
Bem, pra início de conversa o retorno a campo no ano de 2010 me possibilitou confirmar que os católicos estão muito mais preocupados com os evangélicos que os evangélicos com os católicos quando se trata de mercado religioso. Essa informação, de alguma forma, corroborava com o objetivo inicial assim como com os dados que havia anteriormente levantado no universo católico. Isso me acalmou, um pouco. Mas me
alertou também para a questão de que se os evangélicos não se preocupam com os católicos, com que se preocupam eles? A resposta é simples, se preocupam com os outros evangélicos.
Assim, essa pesquisa possui duas partes aparentemente soltas, mas, que na verdade se comunicam. Uma delas tenta compreender as práticas católicas tendo em vista a presença evangélica, e uma segunda que volta o olhar para o universo evangélico. A primeira se restringe, sobretudo, ao trato com as festas de santos e santas católicos, na capital paraense e nas cidades do Marajó. Nessas cidades foi possível perceber como o discurso dos sacerdotes católicos traduz preocupação com a presença evangélica. Isso foi verificado não apenas pelas situações locais que pude observar, mas pela consulta de documentos mais gerais da Igreja, a exemplo dos documentos das Conferências Episcopais realizadas pela Igreja Católica.
Nos meios eclesiásticos as explicações para o crescimento dos evangélicos vão desde a teoria da Conspiração Norte Americana, construção que se inicia com D. Manoel Joaquin da Silveira, bispo da Bahia ainda no contexto da Questão Religiosa no Brasil na década de 70 do XIX, até o reconhecimento de que tal avanço pode significar falhas da própria Igreja Católica no processo de evangelização, como aparece em alguns documentos da Igreja. Sobre essa questão Freston (1994, p. 14) citado por Oro (1996, p. 95) observa que na ótica da Igreja Católica o crescimento protestante é sempre visto como patológico, seja no campo religioso ou no campo social, nunca é entendido como saúde do corpo social.
Para os acadêmicos, de acordo com avaliação que faz Paula Montero (1999) sobre os estudos que trataram do protestantismo no Brasil, as pesquisas são herdeiras das teses sobre “internalização”, e “ajustamento transitório” iniciadas por Cândido Procópio no inicio da década de 1970. O grande mote das considerações feitas por Procópio, estava relacionado à questão da modernização da sociedade brasileira, num Brasil que vivia um processo intenso de migração do campo para cidade. Para esse autor o protestantismo representava uma fase de ajustamento, e que desapareceria quando o país atingisse a sua maturidade.
Gracino Junior (2008) tratando sobre a relação entre modernidade e protestantismo na obra de Procópio, vê certa ambigüidade nas considerações do autor,
pois se por um lado o protestantismo significava para ele um “refúgio das massas” que, vendo-se em processo de transição de uma sociedade tradicional para moderna, achavam no universo evangélico um refúgio, significando, assim, um rompimento com um certo tradicionalismo e, consequentemente, uma porta para o progresso, por outro, significava um “retrocesso” visto que essa “massa” se afinava com o conservadorismo e estava ausente do cenário político.
De acordo com Oro (1996) o crescimento dos pentecostais começa a preocupar a Igreja Católica no início da década de 1990, de forma prática, a partir da organização de três seminários intitulados “A diversidade religiosa no Brasil”, esses seminários realizados nos anos de 1991, 1993 e 1994 tinham como objetivo “entender o problema, sua extensão e causa”.
Num plano mais geral as preocupações com o crescimento protestante são localizadas por Montero (1999) ainda na década de 1980 com pesquisa encomendada pelo Conselho Mundial de Igrejas Cristãs – CONIC, ao Instituto Superior de Estudos da Religião – ISER, que tinha como foco entender porque as pessoas aderiam a outros cultos, em 1990 a autora destaca um survey realizado pelo mesmo ISER no Rio de Janeiro sobre perfil sócio-econômico e participação religiosa e cívica dos evangélicos. A autora considera que as publicações feitas a partir dessas e outras pesquisas nortearam toda reflexão acadêmica sobre o tema.
Esse olhar acadêmico teria seguido, grosso modo, duas direções em suas análises: uma que passava pela questão da secularização como condição para modernidade, e outra que via a conversão como mudança cultural. Essas direções implicaram na tomada de dois temas sobre o assunto: o protestantismo como fator de regressão da racionalidade e da modernização na esfera pública e o protestantismo como instrumento eficaz na autopromoção e no enfrentamento da pobreza. Este trabalho não segue nenhuma dessas direções.
Concomitante ao crescimento do número de convertidos ao pentecostalismo observa-se também como iniciativa dos meios eclesiásticos católicos uma tentativa de retorno à devoção (ORO, 1996). Esse é um dos pontos mais evidenciados na área por mim pesquisada, esse retorno à devoção vem acompanhado de uma espécie de resignificação em relação às práticas do catolicismo popular, visto que antes essas
mesmas práticas eram combatidas pela Igreja, ou, quando menos, não incentivadas. Além disso, observo outras práticas da Igreja que podem ser entendidas como reativas e ao mesmo tempo inclusiva de práticas evangélicas: uma maior burocratização na gerência das festas de santo e uma relação muito próxima com o mercado, visando, em principio, captar recursos para “realização” das festas de santo em particular, e para manutenção da própria Igreja de forma mais ampla. Por outro lado, não atribuo a essas práticas apenas o predicativo de reativas ao avanço pentecostal, mas também, num certo sentido, uma maneira da Igreja Católica justificar, para si e para ou outros, algumas atitudes até então consideradas não adequadas a uma moral católica e, finalmente, como acredita Sanchis (1994) como sintomas das transformações no interior do fluxo da modernidade e junto com ela, da religião.
Isso coloca as relações entre católicos e evangélicos na Amazônia marajoara para além de si, as quais somente podem ser compreendidas se analisadas como variável de um conjunto de idéias e práticas localizadas dentro, mas também fora do campo por mim delimitado nesta pesquisa, isto é, como discurso da modernidade, enquanto estrutura que evoca o “novo”. É nesse sentido que aquilo que os agentes dizem de si e do outro nos é fundamental para entender essa região da Amazônia Brasileira através de seu repertório religioso.
A segunda parte, mas não necessariamente nessa ordem, reflete a fase da pesquisa em que me voltei para o universo evangélico. Nela me centrei, sobretudo, na região do Marajó. Esse mergulho me permitiu levantar as igrejas presentes na região, seu tempo de presença e as formas de evangelização levadas a cabo pelos pastores locais. Particularmente, a importância desse levantamento está no fato de que há uma escassez de dados de natureza acadêmica sobre essa questão na região do Marajó.
A pesquisa levantada nos permite dizer que os primeiros protestantes teriam penetrado na Amazônia em meados do século XIX através do trabalho de missionários como Daniel Kidder e Richard Holden que, em missão religiosa, ou não, tiveram importante papel na implantação desse pensamento nas terras da Amazônia. No entanto, pelos documentos que se tem a organização dos mesmos só se daria de fato no final do século XIX, por volta de 1880 com a organização da Igreja Episcopal em Belém. Porém, é com a chegada do protestantismo de vertente pentecostal e a organização da
Assembléia de Deus no inicio do século XX (1911) na capital do Pará, e do trabalho missionário desta que o protestantismo se firma de fato na região. Atualmente são muitas as denominações presentes na região, ainda assim, como já verificado pelas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a Assembléia de Deus é a denominação com maior presença no Norte do Brasil.
O universo religioso de evangélicos e católicos é, a todo o momento, recortado por questões outras, devido às características das cidades marajoaras. Por se tratar de cidades com grandes problemas sociais como baixos Índices de Desenvolvimento Humano - IDH, o que na prática significa altos índices de analfabetismo, prostituição infantil, trabalho infantil fora do contexto familiar, problemas fundiários, trabalho semelhante ao de escravo, falta de saneamento e endemias (BRASIL, GOVERNO FEDERAL, 2007), as questões religiosas nunca são apenas questões religiosas, pois padres e pastores, como importantes figuras locais, são a todo o momento chamados a resolver não apenas problemas espirituais mas quase sempre também problemas objetivos que afetam diariamente essas populações. Assim, as intercessões entre o político e o religioso são um ingrediente a mais num universo por si só conflituoso. Padres são chamados de sensacionalistas e acusados de se promoveram à custa dos problemas sociais dos municípios, isso é entendido por quem os acusa de fazer política e não religião, por outro lado, pastores são acusados de pensarem apenas em si e nos seus bolsos, sem se importar com os reais problemas dos marajoaras, sobretudo os mais pobres, que são a maioria16