Para tratar do panorama das demandas de justiça, Fraser
enfrenta duas questões que vão marcar o desenvolvimento do seu conceito de “Justiça Anormal”: (i) a mudança do papel do Estado-Nação e (ii) os desdobramentos da globalização
nessa circunstância.
A ordem internacional definida após o segundo pós guerra, delimitou os debates de justiça aos contornos estatais. Nessa estrutura, os argumentos eram assumidamente relacionados às relações entre cidadãos, as quais, por sua vez, eram delimitadas pela discussão dentro de políticas nacionais. Isso era válido para cada uma das duas maiores famílias de reivindicações de justiça – reivindicações por redistribuição econômica e reivindicações por reconhecimento jurídico ou cultural (FRASER, 2007, p. 17).
Fraser (2007, p. 30) denomina esse cenário de “enquadramento
keynesiano-westfaliano” (“Keynesian-Westphalian frame”), que demarcou as disputas de justiça no auge do Estado de Bem Estar Social, entre os anos 1945 e 1970. Ela defende que o imaginário político aí circunscrito determinou o desenho do mapa global, assumindo-o como um sistema de Estados territoriais cuja soberania era mutuamente reconhecida e inquestionável. Concomitantemente, Fraser ainda identifica a presença dos primeiros sinais da emergência de um regime pós-Westfaliano, caracterizado pelos direitos humanos37.
Como consequência disso, os argumentos aí presentes
levavam em conta “o que” cada cidadão devia ao outro. A questão central girava em torno
do assunto da justiça – ou seja, do que definia justiça e assim devia ser aceito como tal. Neste momento, a igualdade perante a lei, a igualdade de oportunidades, o acesso a recursos e o respeito para que cada um pudesse participar como membro da comunidade política, em paridade com os demais, eram os pontos que importavam. Daí derivava ainda outro ponto, pois na medida em que a disputa girava em
torno do “que” definiria justiça era desnecessário debater o “quem”. Isso porque, assumido o marco Westfaliano, o “quem” diria respeito aos cidadãos nacionais. (FRASER, 2007, p.
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Em outras palavras – reivindicações fora desse espectro não eram tidas como reivindicações de justiça. E mais – esse enquadramento era aceito sem questionamentos.
Fraser (2007, p. 22) assinala que no apogeu do Estado do Bem Estar pós guerra, no recorte keynesiano-westfaliano, a principal questão sobre justiça era a distribuição. Mais tarde, com o aparecimento dos novos movimentos sociais e do multiculturalismo o centro da questão se deslocou para o reconhecimento. Em ambos os casos, como pressuposto, o moderno estado territorial era assumido como contexto.
Em outras palavras, o que se tinha eram reivindicações balizadas pela intervenção dos Estados Nacionais e de economias nacionais. As demandas de justiça focalizavam geralmente as desigualdades econômicas no interior desses Estados. E, também, preocupavam-se com as hierarquias internas, voltando-se para a proibição de discriminações entre cidadãos de um mesmo território.
Essas pressuposições nesse marco westfaliano é que compõem
o cenário que Fraser vai conceituar como “discurso normal”.
No discurso normal há aceitação de que os que podem reivindicar questões de justiça são os cidadãos, que estão sob a delimitação territorial de um Estado Nacional. Paralelamente, as demandas por justiça se consolidam em demandas por redistribuição e por reconhecimento (FRASER, 2008, p. 393)
Dito de outro modo, no discurso normal há pressupostos compartilhados que conferem os contornos para o debate na arena pública. Ou seja, os paradigmas aceitos operam um filtro, imprimindo uma relação de pertença aos conceitos que com ele se harmonizam e, por outro lado, rechaçam padrões que não estejam em consonância com suas diretivas.
Isso não significa, entretanto, que o desacordo esteja ausente – o que se passa é que, embora exista discordância quanto ao que exatamente justiça demanda em cada caso, existe um compartilhamento de pressupostos sobre o que constitui uma reclamação judicial. (FRASER, 2008, p. 394)
Nesse quadro, os argumentos sobre justiça trazem duas pressuposições: (i) o Estado territorial aparece como a unidade que delimita o campo das discussões e (ii) os cidadãos desse mesmo Estado aparecem como os sujeitos aos quais se dirigem as reivindicações.
Fazendo paralelo com o que Thomas Kuhn entende por ciência normal, Fraser (2008, p. 394) define justiça normal: “(...) justice discourse is normal just as
long as public dissent from and disobedience to its constitutive assumptions remains
contained.”
Assim, no marco da justiça normal, a justiça se guia por paradigmas que a orientam. As disputas tomam forma regular e reconhecível, sendo que a dissidência e a desobediência estão sob controle, existindo marcos de justiça que são aceitos de forma geral, sem questionamentos. Teorizações de justiça nesse recorte trabalham para atestar que o paradigma orientador é sólido e sustenta a construção teórica.
Sob a égide da justiça normal cessam os debates. O que é justiça e os elementos que a circundam – sujeitos e demandas acolhidas sob o rótulo de justiça - não estão em questão. Ou seja, na justiça normal, há acordo sobre como deve ser uma reivindicação de justiça. Há acordo sobre os tipos de pessoas que têm direito e sobre o tipo de instituição que deve ser acionada. Há acordo sobre o alcance das reivindicações de justiça – enfim há um conjunto de supostos compartilhados.
A justiça descrita por Fraser como sendo normal remete então a um quadro no qual não resta dúvida ao que deve ser levado em conta no âmbito da justiça.
Em contraposição à justiça normal, a anormal está situada em um momento no qual as certezas com relação à justiça se erodiram: não há mais consenso sobre o que pertence aos domínios da justiça, nem sobre quem são os que dela podem fazer uso, tampouco como isso pode se desenvolver. Trata-se de época de disputa em torno da gramática das próprias reivindicações por justiça:
No sooner do first-order disputes arise than they become overlaid with metadisputes over constitutives assumptions concerning who counts and what is at stake. Not only substantive questions, but also the grammar of justice itself, are up for grabs. (FRASER, 2008, p. 395)
Na justiça anormal há multiplicidade de arenas discursivas com a consequente mudança do local de discussão. O debate traz controvérsias contrapondo direitos. A própria topografia do debate ganha espaço, sendo também objeto de disputa. Dito de outro modo: a própria forma de controvérsia está em discussão. Os paradigmas estão competindo entre si.