2.1. SEKTÖRLER
2.1.4. Ulaşım
Muito embora a doutrina pátria, já admitisse a boa-fé objetiva como regra vigente antes mesmo de sua normatização pelo novo Código Civil, a análise da natureza e efeitos dos deveres laterais oriundos do princípio constitui tema que requer, ainda, muita atenção dos operadores do direito, notadamente, de nossos tribunais.
Apesar, do presente trabalho não delimitar espaço adequado para exercícios de inovações jurídicas, ousamos fazer algumas reflexões a respeito da inserção da teoria da violação positiva do contrato no ordenamento jurídico pátrio face às figuras tradicionais da mora e inadimplemento absoluto.
Como pudemos verificar ao longo do trabalho, muitas são as formas de inadimplemento contratual, encerrando, cada uma delas, conseqüência jurídica prevista pelo ordenamento dentro do modelo dicotômico de mora e inadimplemento absoluto.
325
Nesse sentido, confiram-se: Ruy Rosado de Aguiar Junior, Extinção dos Contratos por Incumprimento do
Devedor, p. 128; Jorge Cesa Ferreira da Silva, A Boa-fé e a Violação Positiva do Contrato, p. 264; Vera
Maria Jacob de Fradera, A Quebra Positiva do Contrato, AJURIS, n° 44, 1988; Ubirajara Mach de Oliveira,
Adotando-se o consagrado conceito abrangente de mora, a grande maioria das hipóteses relatadas pela doutrina como típicas de violação positiva do contrato podem ser facilmente reconduzidas ao conceito tradicional de inadimplemento relativo.
O raciocínio de que o Código de 1916 teria se orientado pela noção de obrigação simples para o delineamento do conceito de mora não encontra mais guarida frente ao novo Código Civil, que já vislumbra a relação obrigacional sob a perspectiva de sua complexidade.
Nesse sentido, não haveria como excluir os deveres laterais do campo de abrangência do inadimplemento relativo, muito embora se verifique, em alguns casos, aparente inaplicabilidade de algumas regras a ele específicas.
Tomemos como exemplo, por oportuno, o caso relatado por Jorge Cesa Ferreira da Silva326, relativo ao automóvel do qual o vendedor não entregou o manual do rádio que acompanha o bem. Nesse caso, como tivemos oportunidade de ver, o autor nega a tipificação como inadimplemento relativo, pela impossibilidade de aplicação da regra inserta no artigo 957 do Código de 1916, atual 399 do novo Código Civil.
O caso, todavia, poderia ser facilmente resolvido mediante aplicação analógica da teoria do adimplemento substancial, o qual impede o exercício do direito potestativo de resolução do contrato quando caracterizado o adimplemento de parte considerável da obrigação.327
326
Jorge Cesa Ferreira da Silva, A Boa-fé e a Violação Positiva do Contrato, p. 161.
327 A respeito, vide, a título de exemplo, julgado do Superior Tribunal de Justiça, Recurso especial, 272739,
Nesse diapasão, havendo mora quanto à parte insignificante da obrigação, não se poderia admitir como razoável, a imputação de responsabilidade ao devedor pelo perecimento do automóvel pelo simples fato da não entrega de uma manual do aparelho de som do veículo.
Houve, portanto, mora quanto ao dever lateral, mas não se aplica a regra da responsabilidade prevista no artigo 399 do Código Civil quanto à prestação principal, por ter sido ela cumprida substancialmente, ainda que de modo inadequado.
Até mesmo as hipóteses de vícios ficariam abrangidas no amplo espectro da mora, pois o cumprimento imperfeito decorreria não da falta de prestação nem do seu atraso, mas dos vícios, defeitos ou irregularidades da prestação efetuada, tornando a prestação insatisfatória ao credor.328
Por conseguinte, a inserção da teoria da violação positiva do contrato, no ordenamento jurídico brasileiro, seria desprovida de sentido, posto ser facilmente inserível em uma das categorias dogmáticas do inadimplemento, já existente em nosso ordenamento jurídico.
Todavia, há forte entendimento em sentido oposto, aludindo à existência de casos nos quais a violação de dever lateral não se acomoda, confortavelmente, nas hipóteses tradicionais de inadimplemento, visto que muitos destes deveres são desconhecidos das partes até a sua efetiva verificação no caso concreto.
328
Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, t. 38, §§ 4.211 a 4.213.
Aprofundando-se sobre o tema, inclusive mediante discussão acerca dos vícios como inadimplemento, vide Jorge Cesa Ferreira da Silva, A Boa-fé e a Violação Positiva do Contrato, editora Renovar, Rio de Janeiro,
Ademais, para a referida corrente doutrinária, alguns deles, em especial os de proteção, nem sempre guardam relação direta com os demais deveres da relação obrigacional, dificultando ainda mais a subsunção do caso as figuras do inadimplemento absoluto ou da mora.
Por essas e outras, ao que tudo indica, a figura da violação positiva do contrato começa a se manifestar na doutrina pátria, como hipótese de violação de deveres laterais, como se denota das discussões e enunciados travados na I Jornada de Direito Civil do Superior Tribunal de Justiça.
Naquela oportunidade consolidou-se, contrariamente ao raciocínio da doutrina alemã329, entendimento de que a violação de deveres laterais constitui forma de inadimplemento independentemente de culpa, distanciando a hipótese da figura da mora. Confira-se, nesse sentido, o enunciado n° 24 vazado nos seguintes termos:
“Em virtude do princípio da boa-fé, positivada no artigo 422 do Código Civil, a violação de deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente de culpa”.
A conclusão exposta foi extraída da análise de trabalho330 apresentado pelo Professor Wanderlei de Paula Barreto, da Universidade Estadual de Maringá, o qual pauta- se, essencialmente, na figura da violação positivado contrato.
329
Jorge Cesa Ferreira da Silva, A Boa-fé e a Violação Positiva do Contrato, editora Renovar, Rio de Janeiro,
2002. Para este autor, a violação positiva do contrato implica inadimplemento culposo do dever lateral não diretamente ligado à prestação.
330
Segundo o autor, por não se referir à prestação principal e prescindir de culpa, porquanto objetiva a responsabilidade nela fundada, os casos de violação dos deveres laterais constituem modalidade de inadimplemento diverso da mora.
Em consonância com entendimentos doutrinários de outros autores que já tivemos oportunidade de analisar331, vislumbra a possibilidade de o lesado pela violação positiva do contrato valer-se da exceção do contrato não cumprido ou da resolução do contrato com fundamento no artigo 475 do Código Civil - considerando-se a violação positiva do contrato por descumprimento dos deveres laterais, situação análoga ao inadimplemento substancial de prestações de obrigações principais.332
A jurisprudência nacional ainda titubeia em fazer alusão à figura da violação positiva do contrato, quando se verifica o descumprimento de deveres laterais oriundos da boa-fé objetiva, mas tem aceitado a hipótese como de inadimplemento, independentemente de culpa.333
Confira-se, exemplificativamente, acórdão de lavra da Ministra Nancy Andrighi334 que, muito embora faça alusão ao código consumerista, traz importantes
331
Exemplificativamente Ruy Rosado de Aguiar Junior, Extinção dos Contratos por Incumprimento do Devedor, p. 126.
332
Wanderley de Paula Barreto, em seu relatório sobre o direito das obrigações na I Jornada de Direito Civil do STJ, http://www.cjf.gov.br/revista/outras_publicacoes/jornada_direito_civil.
333
Exceção feita a acórdão citado anteriormente (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL; TERCEIRA TURMA RECURSAL CÍVEL - JUIZADO ESPECIAL CÍVEL, RECURSO INOMINADO N° 71000524553, COMARCA DE CAMAQUÃ, RELATOR; EUGÊNIO FACCHINI NETO, RECORRENTE DREBES E CIA. LTDA, RECORRIDO: ENEDINA DA SILVA.), único localizado por nossa pesquisa que faz expressa remissão à figura da violação positiva do contrato.
334 Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial n° 595.631-SC, Relatora Ministra Nancy Andrighi,
colaborações para a compreensão do inadimplemento de deveres laterais, mas não a inclui em nenhuma figura dogmática de inadimplemento:335
“Recurso Especial. Civil. Indenização. Aplicação do princípio da boa-fé contratual. Deveres anexos ao contrato.
- O principio da boa-fé se aplica às relações contratuais regidas pelo CDC, impondo, por conseguinte, a obediência aos deveres anexos ao contrato, que são decorrência lógica deste princípio.
- O dever anexo de cooperação pressupõe ações recíprocas de lealdade dentro da relação contratual.
- A violação de qualquer dos deveres anexos implica em inadimplemento contratual de quem lhe tenha dado causa.
- A alteração dos valores arbitrados a titulo de reparação de danos extrapatrimoniais somente é possível, em sede de recurso especial, nos casos em que o quantum determinado revela-se irrisório ou exagerado.”
A figura da violação positiva do contrato, como inadimplemento de deveres laterais, no ordenamento jurídico pátrio, ainda tem muito caminho a percorrer, a fim de que sejam traçados os seus efetivos contornos, bem como sua aplicabilidade no ordenamento jurídico pátrio.
Desde já, entretanto, ousamos discordar da objetivação da responsabilidade por violação de deveres laterais. Ao nosso ver, não há motivos para se admitir que o suporte fático da violação positiva do contrato no direito brasileiro, tal como ocorre no direito alemão, não contemple a culpa do agente.
335 No mesmo sentido, confiram-se os seguintes julgados: Tribunal do Rio Grande do Sul, Apelação Cível n°
70004820015, Quinta Câmara, Relator Clarindo Fravetto; Tribunal do Rio Grande do Sul, embargos Infringentes N° 596234443, Relator: Antônio Janyr Dall'agnol Júnior, Data De Julgamento: 07/03/1997; Tribunal do Rio Grande do Sul, Apelação Cível n° 70002660207; Quinta Câmara Cível, Relator Clarindo Favretto, julgado em 20/12/01.
Desse modo, se a figura da violação positiva do contrato faz-se necessária no ordenamento jurídico pátrio, arriscamos defini-la como o inadimplemento decorrente do descumprimento culposo de dever lateral, quando este dever não tenha uma vinculação direta com os interesses do credor na prestação, porquanto neste caso, poderá ser abrangido pelo conceito de mora.