3. LİTERATÜR ARAŞTIRMASI
3.1. U Tipi Montaj Hattı Çalışmaları
Vimos, no primeiro capítulo deste trabalho, que a questão social sempre foi uma paixão na vida de Jáder de Carvalho. A começar por seus ensaios sociológicos, que foram importantes para o pensamento brasileiro na metade dos anos 30 e já sinalizavam o projeto de escrita engajada do escritor. A intenção de denúncia para o qual esse projeto se dirigiu comungou bem com o estilo do autor em cada uma de suas atividades: como poeta e romancista social, sociólogo, professor, jornalista, editor e advogado. Em cada papel assumido por ele, o estilo crítico era a sua marca. O ânimo político, combativo e radical, norteou todos os aspectos de sua vida intelectual. Como romancista, o autor levou para suas histórias toda a experiência adquirida em outros papéis. Esta lhe forneceu matéria e motivos para produzir uma literatura a qual ele mesmo denominou punitiva. A ideia de punição carrega outra, que é a de denúncia.
Situamos o escritor no primeiro momento do Modernismo no Ceará, com sua poesia que mesmo com traços simbolistas e parnasianos já dá um passo para a técnica moderna de mais liberdade da forma e de temas mais engajados. Destacamos ainda que Jáder de Carvalho teve sua presença registrada no segundo momento moderno no Estado com o despontar da sua prosa já na década de 30, contexto do ciclo do romance no Nordeste, compartilhando com este a disposição para o conhecimento do país e a denúncia de seus problemas sociais. Consideramos que nossos apontamentos acerca da crítica e da denúncia social no romance Sua Majestade, o juiz tenham contribuído para dar destaque aos propósitos da obra de Jáder de Carvalho e reforçar sua posição no contexto literário da época.
No romance, vimos que Carvalho deu importância ao elemento espacial, tanto no meio rural quanto urbano, e à transição entre eles. As cidades representadas no romance eram espaços bastante familiares ao escritor, que, durante sua vida, trabalhou em vários lugares do interior, quando exercia funções que requeriam essas viagens, e voltando sempre a Fortaleza. Assim, percebemos relações entre as experiências pessoais do autor e seu mundo fictício. No livro, o escritor tomou essa coordenada geográfica, para criar espaços, movimento e ação no romance. Os deslocamentos do protagonista permitiram que ele mostrasse de maneira crítica o espaço do interior e das pequenas cidades que se formavam, expondo a corrupção de políticos, a seca que favorecia ainda mais a exploração dos pobres, a morte por fome e doenças e a expulsão desses párias para a cidade. Permitiam ainda que se visse o ambiente da cidade, por um lado, como um lugar de avanço, transformações, oportunidades, mas, por outro, de injustiças e rejeição à presença do miserável migrante da canícula. Nesses espaços,
num transitar, o personagem principal foi sendo apresentado na primeira parte por um narrador em terceira pessoa que descortinou gradualmente seu trajeto como advogado, juiz e desembargador, marcado pelo servilismo e a comunhão com a corrupção dos políticos. Portanto, vimos que essa movimentação espacial do personagem principal operou, na construção da narrativa, como instrumento de exposição e problematização crítica, coerente com a intenção de denúncia do escritor.
As reflexões teóricas de Osman Lins (1976) apoiaram a análise da obra a partir do espaço geográfico. Nesse estudo, tomamos contato com uma tipologia do espaço que nos ajudou a explorar e perceber os lugares caracterizadores da problemática estudada na obra. Vimos que esses palcos de movimentação do personagem desempenharam função definidora quanto aos personagens, ao tempo e ao enredo, fazendo de SMJ uma obra coerente com seus objetivos de denúncia. Outra questão foi que o romance de Jáder mostrou afinidades com as reflexões de Candido (2007b) sobre o valor do espaço geográfico no romance brasileiro, quando o crítico ressalta que o romance brasileiro, em seus inícios, tem ânsia de espaço. Consideramos que o romance de Jáder de Carvalho pode ter sido afetado por uma situação semelhante ao romance tratado por Candido, ligado à representação de uma sociedade pouco complexa e à necessidade de buscar assunto em vários espaços. Importante é dizer ainda que nos vários espaços mostrados, foram destacados quase os mesmos problemas, o coronelismo na política, o servilismo do judiciário, a corrupção, numa generalização desse estado de coisas, por sua apresentação em série. Portanto, a estruturação de SMJ a partir do espaço propiciou um levantamento de vários problemas sociais com o propósito de denúncia.
No romance, destacaram-se constantemente as práticas do favor, surgidas na voz do narrador e dos personagens. Vários eventos representaram essa prática tão arraigada em nossa sociedade sobre o qual Sérgio Buarque de Holanda (1995) e Roberto Schwarz (2000) falaram. Notamos que o sistema institucional dos poderes governamentais se sustentava pelo comando político de governantes da capital e do interior, apoiados pelo poder judiciário. Os coronéis, a imprensa, o clero e o judiciário uniam-se numa parceria caracterizada pelo oportunismo, com os objetivos de domínio político, obtenção de vantagens na esfera pública e ascensão social. Os coronéis exerciam o poder político na gerência de municípios ou do Estado, cultivando práticas ditatoriais, o servilismo, o familismo e com ele a falta de distinção entre o público e o privado, todos, alvo do propósito crítico do romancista. Percebemos ainda, nesse mesmo horizonte, outro problema muito próximo ao do favor que é desejo do ganho fácil, da prosperidade sem muito esforço, também discutidos por Holanda (1995) quando se refere à herança colonial.
Na primeira parte de SMJ, o narrador apresenta mais objetivamente os eventos da vida de seu personagem principal ligados às questões sociais e políticas apresentadas acima; na segunda parte, mostra a subjetividade e o caráter desse mesmo personagem, agora no papel de escritor. Na primeira parte, as reflexões e confissões do juiz aparecem nas conversas com Gracinha, sua esposa. Na segunda parte, na forma de escrita, ele revela o seu interior, a sua problemática pessoal, e ainda as traições conjugais, que não poderia contar à esposa, como fazia no início da narrativa. José Sampaio cria um pequeno mundo fictício (Romance de Eliana, das Memórias e do Caderninho) dentro de outro maior que é o romance Sua
Majestade, o Juiz.
O momento da narrativa em primeira pessoa nos permite conhecer melhor o personagem principal. Parece-nos que essa parte foi pensada pelo autor com o objetivo de revelar melhor a personalidade de seu personagem principal. Na primeira parte, vemos o comportamento do personagem e, na segunda, sua consciência. Na narrativa em primeira pessoa, percebe-se que o narrador protagonista volta seu olhar para dentro de si mesmo e se reconhece como pessoa fraca e incapaz de uma transformação pessoal. Sendo o espaço atual da narrativa o interior da casa de José Sampaio, a interiorização do espaço favorece o ato reflexivo das memórias.
Nas duas partes do romance, percebe-se que o espaço físico continua a caracterizar os elementos do enredo, embora reconheçamos que haja pouca densidade psicológica nas ações de seus personagens, especialmente na primeira parte. Os aspectos subjetivos surgem com mais força no enredo em primeira pessoa. Esse momento se caracteriza muito pelo ato da confissão e reflexão do personagem protagonista, que resolve escrever, narrar e descrever sem disfarces os atos corruptos ou escandalosos da sua vida e de agentes de poder com os quais ele se envolvia. Para tanto, ele conta com a força depuradora do ato da escrita e pelo autoconhecimento que se processava à medida que narrava esses eventos. A intenção de crítica e denúncia continua, portanto, nessa parte, agora de modo mais próximo do protagonista e mais subjetivo devido à reflexão presente nas incursões de seu pensamento. Dois tempos foram abordados, o tempo da memória, quando o narrador personagem relembra dos fatos e os lança no papel e o tempo presente, momento em que o mesmo registra essas memórias. Acerca disso, vimos que o interior da casa do protagonista funcionou como o espaço ideal para o ato reflexivo da escrita confessional, onde ele se sente desafogado de tudo o que deseja expor. Alguns dos espaços relembrados surgiram na narrativa em terceira pessoa e retornaram nessa última parte em primeira pessoa. Os outros elementos do enredo, como os personagens, fatos, tempo e temas, foram em parte retomados.
Em destaque, surgem nessa parte as relações extraconjugais com moças pobres e a reflexão sobre a situação do magistrado.
Carvalho usou a técnica do personagem escritor para marcar uma crítica aprofundada pelo discurso em primeira pessoa, de cunho mais subjetivo, fazendo uso de uma linguagem mais confessional que confere um sentimento maior de verdade aos eventos narrados e mais movimentação psicológica. O pensamento do personagem narrador revelado por ele mesmo traz maior força à história. Parece-nos ter havido certo crescimento pessoal de José Sampaio através de suas reflexões e questionamentos e ainda por indignar-se diante da injustiça, no entanto a mudança ocorre mais na esfera do sentimento não tendo um efeito na vida prática do personagem. Mesmo assim, concluímos que José Sampaio é um personagem complexo e esférico por tudo que vimos, com mais força na última parte da obra.
Diante dessas considerações, percebe-se que Jáder de Carvalho teve a intenção de criticar os setores dominantes da sociedade cearense, revelando o comportamento de tipos representativos ligados aos poderes governamentais do governo do Estado e do judiciário da época do romance. Ressaltamos ainda que o seu plano literário de crítica e denúncia tem ponto alto na obra em estudo, bem como em Aldeota, outro romance libelo pela tônica da denúncia nele igualmente configurada. O aprofundamento do primeiro e a análise do segundo são nossa perspectiva de trabalhos futuros.