Neste momento de nossa investigação passaremos a apresentar as possibilidades de investigação criminal por polícias que não constam no rol de polícias judiciárias, porém, estas, legalmente, já exercem funções de polícias investigativas, ou seja, procedem investigação criminal.
Como já citado em nossa dissertação, a Constituição, fulcro os artigos 51, inciso IV e 52, XIII, preveem a possibilidade de criação de polícia pela Câmara Federal e pelo Senado Federal, as quais verificaremos sua competência para investigação.
Na esteira desta verificação, apresentamos o previsto nos artigos 269 e 270 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados (RICD), Resolução n.º 17, do ano1989:
Art. 269. Quando, nos edifícios da Câmara, for cometido algum delito, instaurar-se-á inquérito a ser presidido pelo diretor de serviços de segurança ou, se o indiciado ou o preso for membro da Casa, pelo Corregedor ou Corregedor substituto.
§ 1º Serão observados, no inquérito, o Código de Processo Penal e os regulamentos policiais do Distrito Federal, no que lhe forem aplicáveis. § 2º A Câmara poderá solicitar a cooperação técnica de órgãos policiais especializados ou requisitar servidores de seus quadros para auxiliar na realização do inquérito.
§ 3º Servirá de escrivão funcionário estável da Câmara, designado pela autoridade
que presidir o inquérito.
§ 4º O inquérito será enviado, após a sua conclusão, à autoridade judiciária competente.
§ 5º Em caso de flagrante de crime inafiançável, realizar-se-á a prisão do agente
da infração, que será entregue com o auto respectivo à autoridade judicial competente, ou, no caso de parlamentar, ao Presidente da Câmara, atendendo-se, nesta hipótese, ao prescrito nos arts. 250 e 251.
Art. 270. O policiamento dos edifícios da Câmara e de suas dependências externas, inclusive de blocos residenciais funcionais para Deputados, compete, privativamente, à Mesa, sob a suprema direção do Presidente, sem intervenção de qualquer outro Poder.
Parágrafo único. Este serviço será feito, ordinariamente, com a segurança própria da Câmara ou por esta contratada e, se necessário, ou na sua falta, por efetivos da polícia civil e militar do Distrito Federal, requisitados ao Governo local, postos à inteira e exclusiva disposição da Mesa e dirigidos por pessoas que ela designar. (BRASIL, RICD, 1989). (Grifou-se).
Em relação ao Senado Federal Brasileiro, igualmente, verificamos que conforme a previsão dos no artigo 98 II e III, do Regimento Interno do Senado Federal (RISF), Resolução n.º 93 de 1970:
Art. 98. À Comissão Diretora compete:
I- exercer a administração interna do Senado nos termos das atribuições fixadas no seu Regulamento Administrativo;
II- regulamentar a polícia interna;
III- propor ao Senado projeto de resolução dispondo sobre sua organização, funcionamento, polícia, criação, transformação ou extinção de cargos, empregos e funções de seus serviços e a iniciativa de lei para a fixação da respectiva remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias (Const., art. 52, XIII); (BRASIL, RISF, 1988). (Grifou-se).
Complementando, o artigo acima referido, o Senado Federal, publicou a Resolução n.º 59/2002, a qual assim dispôs:
Art. 1º A Mesa fará manter a ordem e a disciplina nas dependências sob a responsabilidade do Senado Federal.
Art. 2º A Secretaria de Polícia do Senado Federal, unidade subordinada à Diretoria-Geral, é o órgão de Polícia do Senado Federal.
§ 1º São consideradas atividades típicas de Polícia do Senado Federal: I – a segurança do Presidente do Senado Federal, em qualquer localidade do território nacional e no exterior;
II – a segurança dos Senadores e autoridades brasileiras e estrangeiras, nas dependências sob a responsabilidade do Senado Federal;
III – a segurança dos Senadores e de servidores em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal;
IV – o policiamento nas dependências do Senado Federal;
V – o apoio à Corregedoria do Senado Federal e às comissões parlamentares de inquérito;
VI – as de revista, busca e apreensão; VII – as de inteligência;
VIII – as de registro e de administração inerentes à Polícia;
IX – as de investigação e de inquérito.
§ 2º As atividades típicas de Polícia do Senado Federal serão exercidas exclusivamente por Analistas Legislativos, Área de Polícia e Segurança e por Técnicos Legislativos, Área de Polícia Legislativa, especialidade Policial Legislativo Federal, desde que lotados e em efetivo exercício na Secretaria de Polícia do Senado Federal. (BRASIL, SENADO, RESOLUÇÃO N.º 59, 2002). (Grifou-se).
Pelo exposto, podemos cabalmente afirmar que existem as Polícias da Câmara e do Senado Federal, e, ambas conduzem atividades de polícia judiciária e de investigação criminal.
Ademais, em âmbito federal (União), encontramos a possibilidade de investigação de Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), conforme Decreto 5.289, de 29 de novembro de 2004, da seguinte forma:
Art. 2o A Força Nacional de Segurança Pública atuará em atividades
destinadas à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, nas hipóteses previstas neste Decreto e no ato formal de adesão dos Estados e do Distrito Federal.
Art. 2o-A. A atuação dos servidores civis nas atividades desenvolvidas no
âmbito da Força Nacional de Segurança Pública, conforme previsto nos
arts. 3º e 5o da Lei no 11.473, de 10 de maio de 2007, compreende:
I - auxílio às ações de polícia judiciária estadual na função de investigação de infração penal, para a elucidação das causas, circunstâncias, motivos, autoria e materialidade
II - auxílio às ações de inteligência relacionadas às atividades destinadas à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio;
III - realização de atividades periciais e de identificação civil e criminal destinadas a colher e resguardar indícios ou provas da ocorrência de fatos ou de infração penal;
IV - auxílio na ocorrência de catástrofes ou desastres coletivos, inclusive para reconhecimento de vitimados; e
V - apoio a ações que visem à proteção de indivíduos, grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
§ 1o As atividades de cooperação federativa serão desenvolvidas sob a
coordenação conjunta da União e do ente convenente.
§ 2o A presidência do inquérito policial será exercida pela autoridade policial da circunscrição local, nos termos do art. 4o do Decreto-Lei no 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal. (BRASIL,
DECRETO N.º 5.289, 2004). (Grifou-se).
Ou seja, a Força Nacional poderá desenvolver funções de investigação quando em operação em qualquer área do território nacional, fulcro o artigo 241 da CRFB, artigo 4° do Decreto n.º 3.689 (Código de Processo Penal) e artigo 2° do Decreto 5.289 (Decreto da Força Nacional de Segurança Pública).
Nesta senda, e ainda em nível federal, encontramos a possibilidade de investigação por outros órgãos que nem mesmo são polícias, por exemplo, as Comissões Parlamentares de Inquérito, nos termos do artigo 58, § 3°, da CRFB, que assim dispôs:
Art. 58. O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação.
§ 1º Na constituição das Mesas e de cada Comissão, é assegurada, tanto quanto possível, a representação proporcional dos partidos ou dos blocos parlamentares que participam da respectiva Casa.
§ 2º Às comissões, em razão da matéria de sua competência, cabe:
I - discutir e votar projeto de lei que dispensar, na forma do regimento, a competência do Plenário, salvo se houver recurso de um décimo dos membros da Casa;
II - realizar audiências públicas com entidades da sociedade civil;
III - convocar Ministros de Estado para prestar informações sobre assuntos inerentes a suas atribuições;
IV - receber petições, reclamações, representações ou queixas de qualquer pessoa contra atos ou omissões das autoridades ou entidades públicas; V - solicitar depoimento de qualquer autoridade ou cidadão;
VI - apreciar programas de obras, planos nacionais, regionais e setoriais de desenvolvimento e sobre eles emitir parecer.
§ 3º As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.
§ 4º Durante o recesso, haverá uma Comissão representativa do Congresso Nacional, eleita por suas Casas na última sessão ordinária do período legislativo, com atribuições definidas no regimento comum, cuja composição reproduzirá, quanto possível, a proporcionalidade da representação partidária. (BRASIL, CRFB, 1988). (Grifou-se).
Portanto, podemos dizer que, embora não sejam sequer policiais (ou membros das polícias), os parlamentares realizam investigações tal como quaisquer das polícias judiciárias previstas no artigo 144 da CRFB, sem que isso signifique inconstitucionalidade, ilegalidade ou mesmo usurpação de função.
Em relação a Polícia Rodoviária Federal, de pronto, verifica-se, que inexiste a possibilidade do exercício da função de polícia judiciária da União (Federal), por força do inciso IV, do § 1° do artigo 144, que assim dispõe:
Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: [...]
§ 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a:
[...]
IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União. [...].(BRASIL, CRFB, 1988). (Grifou-se).
Contudo, ao observamos o artigo 144 da CRFB, percebemos a existência de exclusividade apenas quanto a função de polícia judiciária.
Dessa forma, apesar da impossibilidade do exercício da função de polícia judiciária, nada obsta a possibilidade de investigação criminal (ou apuração de infração penal) por parte da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em âmbito Federal (União).
Nesse sentido, o parecer do Conselho da Magistratura do Estado de Santa Catarina, ao responder à consulta no sentido de avaliar a ilegalidade na lavratura de termos circunstanciados pela Polícia Rodoviária Federal, nos autos da consulta n.º 2008.900015-8, da Capital:
CONSULTA FORMULADA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ACERCA DA LEGALIDADE DA LAVRATURA DE TERMOS CIRCUNSTANCIADOS PELA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL PREVISTA NO TERMO DE
COOPERAÇÃO TÉCNICA CELEBRADO ENTRE AQUELAS
INSTITUIÇÕES, NO PROVIMENTO N. 04/1999 DA CORREGEDORIA- GERAL DA JUSTIÇA DESTE TRIBUNAL E NO DECRETO N. 660/2007 DO GOVERNO DO ESTADO. INTERPRETAÇÃO DA EXPRESSÃO “AUTORIDADE POLICIAL” INSCULPIDA NO ART. 69 DA LEI N. 9.099/95. AUSÊNCIA DE ÓBICE LEGAL, À LUZ DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL (ART. 144, §§ 2º E 4º) E DOS PRINCÍPIOS DA CELERIDADE E INFORMALIDADE, NORTEADORES DA LEI N. 9.099/95 PARA A AUTORIZAÇÃO. NORMAS SIMILARES NOS ESTADOS DO PARANÁ, SÃO PAULO, RIO GRANDE DO SUL E RIO GRANDE DO NORTE. ORIENTAÇÃO DO MINISTÉRIO DA JUSTIÇA NESTE SENTIDO.
Em atenção ao espírito da Lei n. 9.099/95, de celeridade na prestação jurisdicional e de informalidade, e para os fins específicos de realização do termo circunstanciado em crimes de menor potencial ofensivo, não se vislumbra óbice legal na lavratura de tais atos pela Polícia Rodoviária Federal.[...] (Íntegra no Anexo “B”).
Sob o mesmo prisma decidiu o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), da seguinte forma:
O Ministério Público pode firmar convênios e termos de cooperação com a Polícia Rodoviária Federal que permitam que esta lavre termos circunstanciados de ocorrência (TCO`s) de fatos de menor potencial ofensivo. Esse foi o entendimento do Plenário do Conselho Nacional do Ministério (CNMP), ao julgar improcedente, por unanimidade, pedido de providências instaurado pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF). O julgamento do Conselho ocorreu nesta segunda-feira, 1º de setembro, durante a 17ª Sessão Ordinária do CNMP. (BRASIL, CNMP, 2014). (Grifamos).
Não obstante, qualquer outro entendimento, a legislação e a jurisprudência se coadunam no sentido de que é possível, a lavratura de termos circunstanciado pela PRF, ou seja, reconhecem função de polícia investigativa para apuração de infrações penais com penas até dois anos.
A Constituição Federal Brasileira, no inciso I do artigo 98 da CRFB, determinou a criação de juizados especiais cíveis e criminais, visando um desafogamento dos Tribunais, criando procedimentos alicerçados na oralidade e em ritos sumaríssimos, dispondo:
Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: I - juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial
ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumariíssimo, permitidos,
nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau;(BRASIL, CRFB, 1988). (Grifou-se).
Nessa lógica, constatamos, em âmbito federal, a Lei 10. 259, de 12 de julho de 2001(Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais em âmbito da Justiça Federal).
Essa lei instituiu uma espécie de investigação e processamento e julgamento de infrações penais (crimes e contravenções) de menor potencial ofensivo, ou seja, até dois anos de prisão.9
No que concerne a competência para apuração dos crimes de menor potencial ofensivo objeto de processo e julgamento dos juizados especiais federais, a referida lei não se manifesta explicitamente, motivo pelo qual devemo-nos socorrer da sua congênere, Lei dos Juizados Especiais.
Neste caminho, o artigo 69 da Lei 9.099/95, Lei dos Juizados dos Juizados Cíveis e Criminais, assim versa:
Art. 69. A autoridade policial que tomar conhecimento da ocorrência lavrará termo circunstanciado e o encaminhará imediatamente ao Juizado, com o autor do fato e a vítima, providenciando-se as requisições dos exames periciais necessários.
Parágrafo único. Ao autor do fato que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em flagrante, nem se exigirá fiança. Em caso de violência doméstica, o juiz poderá determinar, como medida de cautela, seu afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a vítima. (BRASIL, LEI N.º 9.099, 1995). (Grifou-se).
9Art. 61. Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as
contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa. LEI Nº 11.313, DE 28 DE JUNHO DE 2006.
Sem entrar na questão pormenorizada do tema, constatamos com advento de Lei 9.009/95, o legislador brasileiro procurou dar uma nova roupagem na condução dos delitos (crimes ou contravenções penais), adotando um ritmo sumaríssimo aos crimes de menor gravidade.
Verificamos que no referido no artigo 69 a “autoridade policial”, nos casos dos delitos de menor potencial ofensivo, deverá levar a cabo a lavratura do Termo Circunstanciado (TC), meio pelo qual as autoridades judiciárias tomarão conhecimento do delito.
Vislumbra-se aqui, que nos delitos de menor potencial ofensivo, há uma mudança do rito no sentido da desnecessidade de inquérito para o envio dos fatos as autoridades judiciárias.
Neste sentido, Penna Rey (2006, p. 24), ao referir a Lei 9.099/65, destacou que “ a nova legislação quebrou vários paradigmas do processo penal brasileiro e estabeleceu mudanças profundas no sistema policial do país, pois aboliu o arcaico inquérito policial nos delitos de menor potencial ofensivo, substituindo-o pelo termo circunstanciado”.
Conjugando-se todos os dispositivos apresentados, quer os constitucionais, quer os infraconstitucionais, entendemos ser plenamente possível, nos delitos de menor potencial ofensivo, o exercício de função de polícia investigativa pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), com a lavratura do respectivo Termo Circunstanciado (TC- procedimento investigatório simplificado).
Em relação ao caráter desse procedimento, entendemos tratar-se de investigação criminal, no mesmo sentido aponta o Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (Turma Recursal), no qual, por meio do Enunciado n.º 13 versou que a Lei 9.099/95 possui investigação, diz o dispositivo:
Enunciado nº 13.
Simples afirmação da necessidade de realizar prova complexa não afasta a competência do Juizado Especial, mormente quando não exauridos os instrumentos de investigação abarcados pela Lei n.º 9.099/95. (BRASIL, TJSE, TURMA RECURSAL)
Passando a diante, e, entrado em âmbito estadual (Estados-Membros), iremos verificar a possibilidade das Polícias Miliares procederem investigações, e, em caso positivo, em quais situações.