Até meados do século XX, a fome era como um tabu: o silêncio cobria os túmulos, o massacre era fatal. Como a peste na Idade Média, a fome era considerada como um flagelo insuperável, de tal natureza que a vontade humana, diante dela, nada podia fazer. Mais do que nenhum outro pensador, Thomas Malthus contribuiu para essa visão fatalista da história da humanidade. Se a consciência coletiva europeia, na alvorada da modernidade, permaneceu surda e cega em face do escândalo da morte pela fome de milhões de seres humanos, se até mesmo acreditou encontrar nesse massacre cotidiano uma judiciosa forma de regulação demográfica, tudo isso se deve, em grande parte, a Malthus e à sua grande ideia de "seleção natural"143. Até meados do século XX, a ideologia malthusiana teve efeitos deletérios sobre a consciência ocidental. Ela tornou a maioria dos europeus surdos e cegos diante dos sofrimentos das vítimas, especialmente das colônias. Os famintos haviam se convertido, no sentido etnológico do termo, em tabu144.
A experiência coletiva de sofrimento causado pela fome entre os povos europeus teve, no imediato pós-guerra, consequências positivas. Repentinamente, terminada a Segunda Guerra Mundial, o tabu foi quebrado e rompido o silêncio - e Malthus lançado na lixeira da História. Os horrores da guerra, do nazismo, dos campos de extermínio, os sofrimentos e a fome compartilhados provocaram um extraordinário despertar da consciência europeia.
143 ZIEGLER, Jean. Destruição Massiva- Geopolítica da Fome. éditions du Seuil, Paris, 2011. p.77. 144 ibidem.p.81
Em seus Manifestos filosóficos, traduzidos por Louis Althusser, Ludwig Feuerbach escrevia145:
A consciência, entendida em seu sentido mais estrito, só existe para um ser que tem por objeto a sua própria espécie e a sua própria essência. [...] Ser dotado de consciência é ser capaz de ciência. A ciência é a consciência das espécies. Ora, apenas um ser que tem por objeto sua própria espécie, a sua própria essência, está capacitado para colocar-se como objeto, em suas significações essenciais, a coisas e seres distintos dele mesmo.
Grandes pesquisadores e profetas pacientes, a quem antes ninguém prestava atenção, viram repentinamente como seus livros vendiam-se às centenas de milhares de exemplares e se traduziam em grande número de idiomas. A figura universalmente conhecida desse movimento é um médico mestiço, natural do miserável Nordeste brasileiro, Josué Apolônio de Castro - seu livro Geopolítica da Fome, publicado em 1951, deu a volta ao mundo. Também outros, de nacionalidades e gerações diferentes, exerceram uma influência profunda sobre a consciência coletiva ocidental - dentre eles, Tibor Mende, René Dumont, o padre Pierre.146
Saindo da longa noite do nazismo, uma evidência começava a se colocar, tardando anos a impor-se aos países e aos seus dirigentes: a erradicação da fome é da responsabilidade dos homens - nesse terreno, não existe nenhuma fatalidade. O inimigo pode ser vencido: basta implementar um determinado número de medidas concretas e coletivas para tornar efetivo e objeto de justiça o direito à alimentação.(gn)
Por meio de sua obra científica, Geopolítica da Fome, Josué de Castro derrotou a lei malthusiana da necessidade. Demonstrou que a fome derivava de políticas conduzidas pelos homens e que ela poderia ser vencida, eliminada pelos homens. Nenhuma fatalidade preside o massacre. Trata-se de pesquisar suas causas e combatê- las.(gn)
145 ibidem.p.82 L. Feuerbach, Manifestes philosophiques, tradução de L. Althusser (Paris: PUF, 1960, p. 57-
-58). [O filósofo alemão L. Feuerbach (1804--1872) teve importante influência sobre a jovem intelectualidade de seu país nos anos 1840;; crítico materialista da filosofia de Hegel (1770--1831), dele está traduzida ao português A essência do cristianismo, Campinas, Papirus, 1988.
Nas palavras do próprio Josué de Castro, a explicação do título da obra: Embora degradada pela dialética nazista, a palavra geopolítica conserva seu valor científico. [...] Ela procura estabelecer as correlações existentes entre os fatores geográficos e os fenômenos de caráter político.[...] Poucos fenômenos influíram tanto sobre o comportamento político dos povos quanto o fenômeno alimentar e a trágica necessidade de comer.147
Fundada em outubro de 1946, com o estímulo de Josué de Castro e seus companheiros,- isto é, um ano e meio depois da criação das Nações Unidas -,44 Estados- membros da ONU criaram, em Quebec, a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), sua primeira instituição especializada. A FAO é o principal organismo nos assuntos relacionados com a alimentação. Ela sediou a Conferência Mundial sobre a Alimentação de 1974, organizou em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS) a Conferência Internacional sobre a Nutrição de 1992, organizou as Cúpulas Mundiais sobre a Alimentação de 1996, 2002 e 2009, bem como coordenou os esforços da comunidade internacional para o estabelecimento das diretrizes voluntárias para a realização do direito à alimentação em 2004.
No preâmbulo do tratado constitutivo da FAO, estipula-se que um dos propósitos básicos da organização é o de "liberar a humanidade da fome".
A FAO foi instalada em Roma, com a tarefa de desenvolver a agricultura de víveres e velar pela igual distribuição de alimentos. Em 1946, ela lançou sua primeira campanha mundial contra a fome.
Citamos o artigo 1º de seu Ato Constitutivo148:
1. A Organização reúne, analisa, interpreta e difunde todas as informações relativas à nutrição, à alimentação e à agricultura. No presente Ato, a palavra agricultura engloba a pesca, os produtos do mar, as florestas e os produtos brutos da exploração florestal;
2. A Organização estimula e se necessário, recomenda toda a ação de caráter nacional e internacional que interesse: à pesquisa científica, tecnológica, social e econômica em matéria de nutrição, alimentação, e agricultura; à melhoria de ensino e da administração, em matéria de nutrição, alimentação e agricultura, bem como a divulgação de conhecimentos teóricos e práticos relativos à nutrição e à agricultura, à conservação dos recursos naturais e à adoção de métodos aperfeiçoados de produção agrícola; a melhoria das técnicas de transformação, comercialização e distribuição de produtos alimentares e agrícolas; à instituição de sistemas eficazes de crédito agrícola no plano nacional e internacional; à adoção de uma política internacional que toca a acordos sobre produtos agrícolas.
148 A sociedade internacional não é composta apenas por Estados. Com efeito, outros entes atuam no âmbito
das relações internacionais, dentre as quais entidades criadas e formadas por Estados, com estrutura e personalidade jurídica próprias e com o objetivo de administrar a cooperação internacional em temas de interesse comum. Tais sujeitos de Direito Internacional são as organizações internacionais, também conhecidos como organizações intergovernamentais.
As organizações internacionais são criadas por meio de um tratado, concluído entre os Estados que conceberam sua existência, que funciona como "Ato Constitutivo " da entidade e estabelece sua estrutura, seus objetivos, sua forma de funcionamento, seus órgãos, os processos decisórios da entidade. in PORTELA, Paulo Henrique Gonçalves. Direito Internacional Público e Privados, incluindo noções de direitos humanos e de direito comunitário. 3 ed. , editora juspodium. p. 233