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No Brasil boa parte da legislação que protege os bens arqueológicos é ligada à legislação de meio ambiente. A começar pela Constituição Federal de 1988. No artigo 23, parágrafo 3º é estabelecido como competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos.

No artigo 3º da Constituição lê-se que:

São proibidos em todo o território nacional, o aproveitamento econômico, a destruição ou mutilação, para qualquer fim, das jazidas arqueológicas ou pré-históricas conhecidas como sambaquis, casqueiros, concheiros, birbigueiros ou sernambis, e bem assim dos sítios, inscrições e objetos enumerados nas alíneas b, c e d do artigo anterior, antes de serem devidamente pesquisadas respeitadas as concessões anteriores e não caducas.

Já a Resolução CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente) 001/86 foi criada com o intuito de evitar impactos negativos ao meio ambiente. Ela estabeleceu a avaliação do impacto ambiental para obras de estradas de rodagem, ferrovias, portos, terminais de minério, aeroportos, terminais de minério, petróleo e produtos químicos, oleodutos, gasodutos, minerodutos troncos coletores e emissários de esgotos sanitários, linhas de transmissão de energia elétrica, obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como, barragem para fins elétricos, abertura de canais para navegação, transposição de bacias, diques, extração de combustível fóssil, aterros sanitários, usinas de geração de eletricidade, complexo e unidades industriais e agroindustriais (petroquímicos, siderúrgicos, cloro químicos, destilarias de álcool, hulha, extração e cultivo de recursos hídricos), distritos e zonas industriais, exploração econômica de madeira ou lenha, em áreas acima de 100 hectares, projetos urbanísticos acima de 100ha, projetos agropecuários acima de 1.000ha e qualquer atividade que utilizar carvão em quantidade superior a dez toneladas por dia.

Qualquer dessas atividades modificadoras de meio ambiente para serem licenciadas dependem da elaboração e aprovação de um EIA/RIMA (Estudos de Impactos Ambientais / Relatório de Impacto de Meio Ambiente). O EIA é um documento mais complexo e detalhado. O RIMA é a parte mais compreensível visando à comunicação ao público.

Para esses estudos a Resolução CONAMA prevê:

Artigo 6º - O estudo de impacto ambiental desenvolverá, no mínimo, as seguintes atividades técnicas:

I – Diagnóstico ambiental de influência do projeto completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto, considerando:

c) o meio socioeconômico – o uso e ocupação do solo, os usos da água e a sócio-economia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência entre sociedade local, os recursos ambientais e potencial utilização futura desses recursos.

Esses estudos são realizados por equipes interdisciplinares, com integrantes que contemplem as competências exigidas para a elaboração do documento.

No entanto, Bastos (2010, p.59) diz que “não é raro encontrar EIAs e RIMAs que sequer fazem menção ao patrimônio arqueológico, executados em áreas tradicionalmente conhecidas e ricas em vestígios arqueológicos”.

Em relação a arqueologia especificamente, a lei federal nº 3.924 de 1961 trata dos sítios arqueológicos:

Artigo 1º - Os monumentos arqueológicos ou pré-históricos de qualquer natureza existentes no território nacional e todos os elementos que neles se encontram ficam sob a guarda e proteção do Poder Público, de acordo com o que estabelece o artigo 175 da Constituição Federal.

Para complementar essa lei foi criada a Portaria do Instituto Histórico e Artístico Nacional IPHAN nº 007 de 1º de dezembro de 1988. Ela regulamenta as pesquisas arqueológicas auxiliando na proteção e preservação, propondo a elaboração dos pedidos de permissão e autorização para o desenvolvimento das pesquisas. Bem como, orienta o arqueólogo a realizar um relatório técnico por período e um relatório final dos trabalhos a ser entregue ao IPHAN.

Essa portaria diz:

Considerando a necessidade de regulamentar os pedidos de permissão e autorização e a comunicação prévia quando do desenvolvimento de pesquisas de campo e escavações arqueológicas no País a fim de se resguardarem os objetos de valor científico e cultural localizados nessas pesquisas. Considerando a urgência da fiscalização eficaz das atividades que envolvem bens de interesse arqueológico e pré-histórico no País. Resolve:

Art 1º Estabelecer os procedimentos necessários à comunicação prévia, às permissões e às autorizações para pesquisa e escavações arqueológicas em sítios arqueológicos e pré-históricos previstas na Lei nº 3.924 de julho de 1961.

(...)

Art 8º A não apresentação dos relatórios técnicos por período igual ou superior a doze meses consecutivos acarretará o cancelamento da permissão e da autorização, ficando o pesquisador impedido de prosseguir nos trabalhos de campo e na área de pesquisa liberada para novos projetos.

(...)

Art 12º Terminada a pesquisa, o coordenador encaminhará ao SPHAN, em língua portuguesa, o relatório final dos trabalhos.

Em 2002, prevendo complementar a legislação acima e orientar os trabalhos realizados para as empresas responsáveis por obras de impacto ambiental, o que impulsionou a arqueologia brasileira em termos de quantidade de trabalhos, porém, realizados anteriormente aos avanços dos empreendimentos, a chamada arqueologia de Salvamento, ou arqueologia de Contrato ou arqueologia Preventiva – foi criada a Portaria IPHAN nº 230 de 17 de dezembro de 2002.

Essa lei prevê a elaboração de um “Diagnóstico” a ser realizado antes de a obra ser iniciada e com base nesse diagnóstico criar um “Programa de Resgate Arqueológico”. Essa complementação prevê maior critério no desenvolvimento das pesquisas por parte das empresas de arqueologia. A atuação do arqueólogo nesse enfoque não se limita a dar pareceres e emitir laudos técnicos, mas criar Programas com etapas definidas de trabalho, resultando, caso siga a legislação, em trabalhos arqueológicos minuciosos, iniciando na prospecção e indo até a divulgação científica desses programas.

Art 3º A Avaliação dos Impactos do empreendimento sobre o patrimônio arqueológico regional será realizada com base no Diagnóstico elaborado, na análise das cartas ambientais temáticas (geologia, geomorfologia, hidrografia, declividade e vegetação) e nas particularidades técnicas das obras.

Art 4º A partir do Diagnóstico e da Avaliação dos Impactos deverão ser elaborados os Programas de Prospecção e de Resgate Arqueológicos, compatíveis com o cronograma das obras e com as fases do licenciamento ambiental do empreendimento de forma a garantir a integridade do patrimônio cultural da área.

A multiplicação de ações educativas voltadas ao patrimônio o que se denomina educação patrimonial e a criação de alguns novos museus de arqueologia possui uma estreita ligação com esse aparato legal.

No caso de Santos, temos ainda a Lei Municipal nº 753/91 que criou o CONDEPASA – Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos.

A cidade já possuiu também uma lei municipal específica para a arqueologia, alterando a anterior, acrescentando que as intervenções no Centro Histórico deveriam ser comunicadas ao Instituto de Pesquisas em arqueologia da Universidade Católica de Santos (IPARQ/UNISANTOS), conforme observamos:

LEI N º 1917

Art. 1 º Fica acrescido um inciso ao artigo 2 º da Lei n. º 753, de 8 de julho de 1991, que passa a ser o XIV, com a seguinte redação: "XIV - comunicar

previamente ao Instituto de Pesquisas em arqueologia da Universidade Católica de Santos – IPARQ, a existência de projetos sob sua análise envolvendo imóveis situados nas áreas com potencial arqueológico do centro histórico de Santos, para acompanhamento, nos termos do que dispõe a Lei Federal n. º 3924, de 26 de julho de 1961." Art. 2. º VETADO. Art. 3. º Esta Lei entra em vigor na data da publicação, revogadas as disposições em contrário. Registre-se e publique-se. Palácio "José Bonifácio", em 21 de dezembro de 2000.

Com o encerramento das atividades do IPARQ em 2007, foi proposto um novo texto como Projeto de Lei, portanto o novo texto, até a atualidade não foi aprovado.

Submetido à aprovação da Promotoria Geral do Município. Minuta de Projeto.

Art. 1° O inciso XIV do artigo 2° da Lei n° 753, de 8 de julho de 1991, passa a vigorar da seguinte redação: ‘XIV – Comunicar ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, existência de projetos sob sua análise envolvendo imóveis situados nas áreas em potencial arqueológico do Centro Histórico de Santos, para acompanhamento, nos termos do que dispõe da Lei Federal n° 3924, de 26 de julho de 1961.

Art. 2° Os interessados em intervenções que exijam a realização de vistoria arqueológica, mediante prévia licença do IPHAN, deverão encaminhar ao CONDEPASA cópia do laudo ou relatório de vistoria e manifestações técnicas emitidas por esse órgão, para atualização do mapa contendo as áreas com potencial arqueológico do Centro Histórico de Santos.

Art. 3° Esta lei entra em vigor na data da publicação. (Ofício 81/2009 – CONDEPASA – 01/06/2009. Ref. Inquérito Civil 265/97 – Minuta de Projeto para alteração da Lei 753/91).

A proposição do novo texto estava atrelada à elaboração de um Mapa Arqueológico do Centro Expandido de Santos, compreendendo toda a área do Centro Histórico. O mapa foi confeccionado identificando 34 sítios arqueológicos.

Em relação a arqueologia subaquática, no Brasil, ela é tida como uma atividade separada da arqueologia em meio terrestre, e possui uma lei própria, a lei brasileira n°10.166, de 27 de dezembro de 2000. Essa lei permite que parte dos bens escavados em um sítio arqueológico submerso pode ser vendida. Isso acontece por uma visão política e econômica a respeito do que é patrimônio arqueológico e dos bens submersos estarem relacionados à ideia de tesouros escondidos no fundo do mar (RAMBELLI, 2003).

Essa lei fere a atual legislação federal de 1988 que considera todo e qualquer patrimônio arqueológico como bem da União e também contraria a Convenção de Proteção ao Patrimônio Subaquático da UNESCO, de 2000.

Atualmente há um projeto de Lei 45/08 de autoria da deputada maranhense Nice Lobão, que orienta que os projetos de pesquisa em arqueologia subaquática tenham um arqueólogo mergulhador como responsável e o IPHAN, que pertence ao Ministério da Cultura, como principal órgão supervisor, do mesmo modo como é feito na arqueologia terrestre. O texto se inspirou na moção do I Simpósio Internacional de arqueologia subaquática, realizado em 2005 em Mato Grosso do Sul, evento que discutiu amplamente a questão legislativa. Os encontros para discussão do Projeto de Lei 45/08 permitiram o diálogo entre a Marinha do Brasil, a diretoria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e os especialistas da Sociedade de arqueologia Brasileira (SAB) (RAMBELLI, 2010).

Benzer Belgeler