• Sonuç bulunamadı

O conflito interno que Yerma expressa, seguramente para abarcar outros tantos conflitos, é o fato de a personagem não ser mãe, e por um tempo ela mantém viva a esperança de realizar seu desejo:

Maria: Dizem que se sofre muito com os filhos.

Yerma: Mentira. Isso é o que dizem as mães fracas, queixosas. Para que os têm? Ter um filho não é ganhar um ramo de rosas. Precisamos sofrer, para vê-los crescer. Acho que nisso se vai metade do nosso sangue. Mas isso é bom, sadio, belo. Toda mulher tem sangue para quatro ou cinco filhos. Quando os filhos não vêm, o sangue torna-se veneno, que é o que acontece comigo. (I, 1).

Nessa fala de Yerma, podemos ver o que há de moral em seu pensamento, pois Yerma fala sobre a maternidade sem ser mãe. Às mulheres está destinado o papel da procriação, ter ―quatro ou cinco filhos‖, diz Yerma, mesmo que essa experiência não seja alegre e prazerosa como ―ganhar um ramo de rosas‖. A obrigatoriedade de ser mãe ou de ter uma vida casta são cobranças sociais que Lorca leva ao palco com tons bíblicos, como a anunciação da gravidez39 no inicio da peça, e depois na relação com o sangue como aquilo que dá a vida, o sofrimento como redenção, como maneira de elevação. Certamente, Lorca usa tais símbolos na tentativa de se aproximar do público, pois ele sabia da importância dos ritos sagrados, tanto os católicos quanto os não-católicos — esses estarão presentes no final da peça, na procissão pagã da qual Yerma participa. O autor não ignorava a forte relação, na Espanha, dos valores morais com os ditos e interditos religiosos, e tanto em Yerma

39 Maria, a interlocutora de Yerma nesta cena, vai à casa da protagonista contar-lhe que está grávida. Essa

visita parece fazer referência à visita de Isabel, que era considerada estéril, à Maria, mãe de Jesus, para contar-lhe sobre a gravidez milagrosa, passagem do Novo Testamento, Evangelho segundo Lucas.

176

quanto em suas outras peças, o dramaturgo explora essa relação. Entre esses interditos está o ato sexual, catolicamente permitido apenas no âmbito do casamento para a procriação, como é colocado no diálogo de Yerma com a Velha Pagã:

Velha: É preciso que os homens agradem. Desfazer as nossas tranças e nos dar de beber água em sua boca. Assim anda o mundo.

Yerma: O teu: porque o meu não. Eu penso muitas, muitas coisas, e estou certa de que meu filho realizará as coisas que penso. Por ele, tenho me entregado a meu marido e continuo assim, para ver se chegar; mas nunca por prazer.

Velha: Por isso está assim vazia! (I, 2)

Yerma confessa para a Velha que só tem relações sexuais com seu marido na tentativa de engravidar, nunca por prazer. Enquanto Yerma traz o discurso da moralidade social – por mais que esses mesmos códigos sociais lhe aprisionem –, a Velha Pagã é a expressão da mulher que realizava sua vontade sem se preocupar com a opinião dos outros. E certamente não foi sem motivo que o escritor a identificou como pagã. ―Deus não. Nunca gostei de Deus. Minha filha, quando vai entender que ele não existe? Os homens sim é que têm de te ajudar‖ (Velha, II, 1).

A Velha não acredita em Deus no país que deve sua unidade política à Igreja Católica. Lorca, que nasceu e cresceu na região de maior repressão religiosa da Espanha, cria esse personagem fortemente carismático, cheio de críticas e que em diversos momentos questiona a existência de Deus, como citado acima. Na fala acima, além de pagã, a Velha também mostra sua posição amoral e sugere que, na romaria, as mulheres vão em busca de homens férteis, com vontade sexual, e sugere a Yerma que ela vá com o filho dela, Vitor. A resposta de Yerma é tão dura quanto a sociedade que criou a personagem:

Yerma: Cala a boca, mulher, cala a boca! Não entende que não é isso? Nunca faria uma coisa dessa. Como pode pensar que posso conhecer

177 outro homem? Onde fica minha honra? As águas não podem voltar para onde saíram, nem a lua cheia surgir ao meio-dia. (III, 2)

Yerma introjeta a sociedade na qual ela mesma não cabe. A princípio ela anseia ser mãe, de maneira obsessiva, por haver sido ensinada que assim seria uma mulher útil. Porém, Yerma não aceita a ideia de tentar resolver seu problema com um ato que macule sua honra: o adultério — sugestão que é dada pela Velha Pagã como sendo uma alternativa para Yerma escapar de seu casamento infértil. Mas a imposição social de como deve ser uma mulher honrada é tão grande que Yerma não consegue fugir às regras morais, mesmo que isso lhe custe a possibilidade de se sentir produtiva, sentir-se mulher.

A protagonista, até o final da peça, prefere ceder à sociedade e seguir sendo uma correta mulher casada, abrindo mão da sua vontade de ser livre, permitindo-se apenas transitar pelo escuro da noite. Yerma se esforça para se enquadrar em uma sociedade que, na verdade, não a suporta, pois ela mostra que tem consciência de sua situação. Mas, Yerma se torna vítima de sua sociedade justamente por tentar se enquadrar nela, por seguir as normas instituídas e reproduzi-las em mitos, como o do amor materno, indicado na fala de Yerma para Maria: ―é nesse momento que se tem mais amor; quando se pode dizer: ―meu filho!‖.

E, assim, Yerma transcorre a peça indo do desejo de ser mãe, para se sentir útil, à tentação de aceitar meios menos ortodoxos para a solução de seu problema. Yerma mantém sua honra, não trai seu marido, não foge com Vitor e coloca a sociedade acima de sua vontade individual, e ao fazer essa escolha, Yerma deixa de ser subversiva — postura que ela quase assume ao verbalizar que não suporta a infertilidade de seu casamento — para se colocar em posição de submissão às normas sociais. Talvez, o maior problema da personagem não seja de fato não conseguir ter um filho, mas sim a obrigação que ela se impôs de ser mãe e, frente à impossibilidade da maternidade,

178

Yerma não vê outra maneira de se realizar. O fato é que ela mostra que não vê valor em si mesma, colocando-se na posição de submissão que ela mesma questiona quando fala da diferença entre o homem e a mulher na sociedade.

Assim, é possível questionar o que significa o ato de dar à luz, o que socialmente significa ela não ter tido filho enquanto os anos vão se passando. Talvez Yerma queira ter um filho para se inserir na sociedade, para deixar de ser o contrário, mas o fato de estar em um casamento infértil coloca sobre Yerma a carga de ser ―antinatural‖, peso que gera na mulher uma pressão social angustiante. Com isso, a angústia de Yerma tem dupla origem: a pressão de fora, da sociedade, e de si mesma, por introjetar essa pressão, tornando-a parte de sua visão de mundo.É tão pesada a carga de Yerma não ter filhos quanto sem saída sua situação e sua fama de seca, de estéril. A prova do que pode significar não ser mãe aparece na especulação sobre o culpado pela esterilidade do casal que é feita por Yerma, mas também pelas lavadeiras. As lavadeiras, em Yerma, formam um coro que, como nas tragédias gregas, tem a função clássica de comentar a ação e introduzir as críticas do povo sobre as atitudes da protagonista. Elas discutem a responsabilidade da personagem sobre sua esterilidade:

1ª Lavadeira: Ela não tem filhos, mas a culpa não é dela. [...]

2ª Lavadeira: Tudo isso são coisas de gente que não se conforma com seu destino.

[...]

1ª Lavadeira: A culpa é dele; dele mesmo. Quando um homem não é pai, deve cuidar de sua mulher.

4ª Lavadeira: A culpa é dela, que tem língua dura como pedra. (II, 1)

As lavadeiras fornecem vários elementos, mas não respostas nem explicação ao espectador, e, na verdade, indicam que, ao mesmo tempo em que Yerma nem João não são culpados, ambos o são. O casal é atraído para uma vida matrimonial que não satisfaz a nenhum dos dois, e a infertilidade, que se impõe a eles, mais parece uma

179

brincadeira da natureza. Yerma não se realiza na vida que se dá unicamente no âmbito privado, e nega as alternativas de ter outra vida, encarando o que lhe acontece como um destino inexorável. Outros personagens apontam que a protagonista poderia realizar seu desejo de outras formas, mesmo que menos ortodoxas, como, por exemplo, tentando engravidar de outro homem que não seja o seu marido, mas Yerma, presa a sua honra, não aceita tal meio de realizar seu desejo. Enquanto isso, João também vai dando sinais de insatisfação, na medida em que percebe não ter controle sobre sua esposa.

Como dito antes, o conflito de Yerma não é dado como algo irremediável. Em alguns momentos da peça, é sugerido que Yerma poderia romper o casamento e fugir com Victor, como fez a Noiva em Bodas, ou ter encontros adúlteros e tentar engravidar, como aconteceu com Adela em Bernarda Alba, mas ambas as possibilidades são rejeitadas por Yerma, que segue fiel ao seu marido e às normas sociais, enquanto nega dar vazão aos seus instintos e desejos.

Lorca constrói uma obra de áurea telúrica, exaltando a fecundidade. A personagem tem consciência de que precisa se calar, resignar-se, mas tenta ignorar que a raiz de sua tristeza é mais do que a infertilidade do casamento, mas os muitos frutos e flores prontos para serem provados que ela não pode ou não se deixa experimentar. A natureza é fértil no mundo fora da casa de Yerma, mas também muito fértil na força ativa que a personagem sente pulsar e que, do meio para o final da peça, Yerma não pode mais controlar.

180

Benzer Belgeler