O raciocínio dialético contemporâneo compreende a teoria, os conceitos, que se utilizam para a compreensão do mundo como verdade relativa e absoluta e da vida em sociedade; compreende o caminho empreendido para o conhecimento desse universo real o qual se encontra em constante movimento. O conhecimento se dá por meio da apreensão desse dinamismo, que tem conotação relativa e absoluta, contradições e conflitos da realidade (TRIVIÑOS, 1987).
Segundo Minayo (2004, p. 65), “o materialismo histórico representa o caminho teórico que aponta a dinâmica do real na sociedade, a
dialética refere-se ao método de abordagem deste real”. A dinâmica de determinada realidade contém o entendimento histórico, as transformações e as prática sociais que ali ocorrem. A dialética busca a verdade pela vivência humana na realidade, dessa forma, toda experiência humana é um acontecimento histórico à medida que ultrapassa os limites da individualidade e atinge a vida social.
Para Costa-Rosa (2007), o materialismo histórico se refere à ética, a visão de mundo como realidade concreta, e a dialética se refere à apreensão dessa realidade, que tem sempre um caráter histórico e ao mesmo tempo sincrônico e diacrônico dentro dos fenômenos humanos e sociais. Ela, em sua lógica diferenciada do positivismo, não separa o sujeito do objeto, supera essa dicotomia, pois a relação sujeito-objeto possui sua própria especificidade, não havendo preponderância de um sobre o outro. O sujeito e o objeto estão em constante movimento e isso irá possibilitar a transformação da realidade a qual o sujeito transforma, e também, é transformado por ela.
Na perspectiva dialética, o conhecimento é um processo dinâmico que exige sempre acompanhamento, análise e síntese. Num primeiro momento, temos a análise das contradições da realidade concreta e, num segundo momento, a elaboração de nova síntese. Esta como atividade criadora final conteria a realidade concreta em sua totalidade de conflitos e contradições. Será neste contexto que o pesquisador e o pesquisado encontrarão o caminho para as transformações necessárias do fato real (LUZIO; COSTA-ROSA, 2007).
O método dialético oferece os pressupostos teóricos e os instrumentos de investigação necessários para focalizar um campo complexo como é o objeto deste estudo, nesse caso, o CAPSad, como instituição de saúde pública, destinada ao tratamento de usuários de álcool e outras drogas. Pretendemos com este método informar sobre os fenômenos históricos dessa determinada particularidade da Saúde e seus correlatos sociais, políticos, econômicos, administrativos, organizacionais, institucionais, e o próprio processo de trabalho e de relacionamento interpessoal que, na visão dialética, supõe-se que se revele sempre pela contradição, pelo conflito e pela tensão.
As atuais questões de Saúde, no seu sentido coletivo, vão adquirindo cada vez mais importância devido às transformações que vêm ocorrendo no campo da política, do social, da economia e da Saúde Coletiva. As preocupações da coletividade representam dentre outras, demandas de saúde não satisfeitas pelas instituições de saúde oficiais oferecidos pelo Estado. A forma de abordar essa complexidade, leva em consideração a contradição, o conflito, a totalidade, a unidade e os fenômenos da mudança e da transição epistemológica. (DEMO apud MINAYO, 2004).
A abordagem dialética é fundamental quando se trata de pesquisa no campo da saúde. Minayo (2004) assegura que o processo saúde-doença está além do fator corpo individual e corpo social; atinge um complexo de totalidade advinda de particularidades e especificidades. Este processo na ótica do conhecimento da pós-modernidade, não se constitui como um construto de verdades absolutas, contudo, carregam em seu conteúdo, as verdades temporais que foram construídas historicamente nesse campo.
A autora afirma que, em pesquisa, os conceitos são unidades de significação que definem a forma e o conteúdo de uma determinada teoria e estão relacionados etimologicamente com o termo concepção, vinculando-se assim, à subjetividade, como também à noção que se tem de determinada realidade, percebendo também noção como elemento de uma teoria. Os conceitos mais importantes dentro de uma teoria são as categorias, as quais se distinguem em
analíticas e as empíricas.
As categorias analíticas são as que retêm historicamente as relações sociais fundamentais e podem ser consideradas balizas para o conhecimento do objeto nos seus aspectos gerais, comportam graus de abstrações, generalizações, aproximações e interpretações. Em um estudo sobre Saúde e suas especificidades como é o objeto deste estudo, elas se apresentam nas teorias relativas à saúde, nas políticas públicas, nas transformações na assistência, na representação social sobre esse campo específico da Saúde e como essas dimensões estão assinaladas na instituição pesquisada. A função desta categoria na pesquisa é possibilitar a reflexão crítica e criar novos
momentos de construção teórica, a partir de redimensionamentos, interrogações e elaborações dos conceitos gerais socialmente construídos.
As categorias empíricas são construídas com finalidade operacional, visando o trabalho de campo ou a partir dele, têm como propriedade a apreensão das determinações e especificidades que se expressam na realidade empírica do CAPSad, oferecem as condições para a compreensão teórica dessa realidade e a expressão de sua especificidade. Nesta pesquisa, utilizamos o recurso da Observação e do Grupo para a construção das categorias empíricas que têm a função de possibilitar a análise da realidade institucional.
O CAPSad, objeto desse estudo, contém em seu espaço de relações, um contingente humano e de especialidades diversificadas, além de conter todo o estrato histórico e social que o determinou e que pôde convergir para que se apresente como uma realidade específica. Assim, uma estrutura, que hoje opera numa atenção denominada psicossocial carrega em seu contexto de formação, elementos típicos da instituição médica clássica, cuja sustentação é baseada no desenvolvimento de ações curativas e de adaptação do sujeito. Este, segundo o pensamento marxista representa o modo capitalista de produção, diferente da atenção psicossocial cuja base funcional tem a ver com a implicação subjetiva e com o reposicionamento do sujeito. (COSTA-ROSA, 2006).
A pesquisa dialética não deve perder esse movimento institucional, nem tão pouco o modo de funcionamento interprofissional, a implicação terapêutica, nem os movimentos dos sujeitos que recebem a atenção. Esses fatos representam a práxis institucional e nela devemos observar os contrastes entre a teoria e a prática. Os conflitos das relações subjetivas e sociais são particularidades que informarão a totalidade real e concreta que pretendemos apreender com a pesquisa.
Os novos serviços de saúde mental, denominados de CAPS, têm se autorizado, em seu discurso, a se dizer psicossocial, porém, somente com a investigação, um estudo em campo sobre suas práticas, pode-se chegar à configuração do discurso e da prática concreta. Neste sentido, com esta pesquisa
que tem como objeto o estudo do CAPSad, pretendemos saber, entre outras questões se, no contexto de seus conceitos e de sua práxis, há avanço no processo de transformação da assistência tradicional para o psicossocial.