No entendimento de seus próprios organizadores, a CEB é “um sistema aberto à
participação de organizações empresariais ou empresas de qualquer setor econômico, de adesão voluntária”. Seu objetivo é “coordenar o processo de influência do setor empresarial brasileiro nos processos de negociações comerciais internacionais em que o Brasil está envolvido, buscando a formação do consenso interno, o estabelecimento de canais de diálogo com o governo brasileiro e a atuação coordenada em fóruns empresariais internacionais”. (CEB 2000, p. 3)
Há consenso na literatura acadêmica sobre a origem da CEB como “externalidade” do processo de criação da ALCA.112 Conforme aponta De Oliveira (2003, p. 20), “as negociações da Alca representaram [...] fator indutor positivo no
aprimoramento da representação empresarial” na medida em que refletiram “o ápice da pressão no sentido de uma abertura da política externa brasileira” (De Oliveira
2003, p. 12).
Segundo Santana (2000, p. 69), a entidade seria “fruto da percepção de que os
custos da não mobilização em torno do processo decisório da ALCA poderiam ser maiores do que aqueles inicialmente estimados”, especialmente diante da “voracidade
negociadora” dos empresários norte-americanos, já visível à época da reunião ministerial de Cartagena das Índias (Santana 2000, p. 41). Além disso, era necessário
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Salazar-Xirinachs (2001, p.293) aponta para resultados semelhantes em praticamente toda a América Latina, representando uma mudança de paradigma no comportamento do setor empresarial: “The local business sectors have been changing from the old rent-seeking behavior to a new approach focused more on the elimination of economic distortions, improvement of national competitiveness and infrastructure, and investment in education”.
garantir uma participação coordenada dos empresários brasileiros no processo, isto é, sem a “tutela” do Ministério das Relações Exteriores (Santana 2000, p. 69).
Tal percepção teria resultado na iniciativa de organização autônoma do III FEA, realizado em 1997 paralelamente à reunião de ministros, em Belo Horizonte (De Oliveira, pp. 44-46). De fato, a própria CEB apontaria, em documento de 1999, sua formação no processo de preparação para o III FEA como o resultado de um “amplo
consenso existente no âmbito do setor empresarial brasileiro” (CEB 1999, p. 3).
Ao apontar as razões para o baixo envolvimento do setor empresarial no contexto do MERCOSUL, De Oliveira (2003, p. 34) identifica quatro justificativas: o peso da dimensão geoestratégica na origem do projeto integração, que conferiu um significativo viés governamental; a ausência de grande risco embutida no processo, uma vez que a assimetria econômica era em favor do Brasil; o fato da negociação para a criação do bloco enquadrar-se no primeiro ciclo da abertura comercial e, portanto, ao objetivo mais amplo da política econômica do País, então apoiada por parte significativa do setor empresarial; e o relativo ceticismo em relação ao sucesso da iniciativa diante das experiências anteriores no âmbito da ALALC e da ALADI.
No contexto da ALCA, estas justificativas eram significativamente distintas: o peso da dimensão geoestratégica existia, mas a dimensão econômica era fundamentalmente maior e mais perceptível ao empresariado; o risco associado à competição externa, sobretudo por parte da economia norte-americana, era igualmente percebido como alto; a negociação não mais se inseria estritamente no contexto da política econômica, mas fazia parte do objetivo do governo brasileiro em assegurar a redução da vulnerabilidade do País pelo financiamento das contas externas via superávit na balança comercial; e a reiterada disposição dos Estados Unidos e dos demais países latino-americanos em concluir um acordo ambicioso em curto prazo demonstrava a possibilidade real de sua efetiva implementação.
Todos estes fatores contribuíram para a mudança de postura do empresariado, favorecendo a criação da CEB. Entretanto, a novidade da entidade não seria seu surgimento como externalidade a um processo de abertura comercial resultante de negociações internacionais. No âmbito do MERCOSUL o setor empresarial brasileiro já havia tido experiência semelhante com a constituição da ADEBIM, em 1991. Como aponta Drummond (1995, p. 102), um ano após sua fundação a entidade “abrangia
Matarazzo S.A., Varia S.A.), quanto multinacional (Fiat do Brasil S.A., Lloyds Bank PLC, Schring do Brasil Química Farmacêutica Ltda), entidades de classe (Sindicato Nacional dos Pecuaristas de Gado de Corte, Sociedade Rural Brasileira), e até mesmo empresas estatais (Furnas Centrais Elétricas S.A., Empresa Brasileira de Aeronáutica – EMBRAER)”. Tal como a CEB, a ADEBIM procurava reunir representantes dos três
setores da economia nacional.
O que conferiu à CEB uma característica singular, contudo, foi o fato da entidade ter sido formalmente instituída como organização multissetorial com o objetivo explícito de garantir uma representação unificada junto ao governo brasileiro. Decorreu deste objetivo, portanto, a intenção de se assegurar a representação dos três setores da economia nacional por meio de suas organizações de cúpula, além das demais entidades de representação e das próprias empresas. Essa é a razão pela qual De Oliveira (2003, p.6) entende a CEB como uma “entidade de cúpula”.
O próprio De Olivera (2003, p.86) identifica, por outro lado, a preponderância do setor industrial no interior da organização. A situação decorre do que o autor identifica como “assimetria de interlocução” em favor dos representantes da indústria. Em grande medida, este fato resultou da rápida mobilização do setor em face de dois riscos embutidos no processo de negociação da ALCA: primeiro, por parte dos próprios empresários norte-americanos, como já demonstrado anteriormente; segundo, por conta dos objetivos de parcela significativa do empresariado nacional – agricultura de exportação, serviços e comércio, e setores industriais intensivos em mão-de-obra e exportadores como o têxtil – em obter resultados de curto prazo na negociação hemisférica.
Desse modo, é possível afirmar que a constituição da CEB acabou tornando-se o objetivo maior do setor industrial para garantir uma representação unificada do empresariado que impedisse aos setores mais interessados na rápida conclusão das negociações um instrumento próprio de articulação e contato com o governo brasileiro. Como resultado, a CEB passou a ter uma postura crescentemente reativa, fruto da preponderância dos interesses defensivos do setor industrial no interior da entidade. Esse fato contribuiu para a incapacidade da organização em alterar de modo fundamental a agenda do governo e, no limite, para sua instrumentalização para legitimar a ação diplomática brasileira.