Este estudo apresenta caráter descritivo e analítico. Para tanto foram utilizados diversos procedimentos, desde pesquisa bibliográfica, documental e de campo, incluin- do a realização de entrevistas, aplicação de um questionário e observação participante. A coleta de dados bibliográficos e o trabalho de campo foram feitos no segundo semes- tre de 2010. Muitas informações provém de dados secundários, documentos, atas, rela- tórios, fichas de visita, planos dos assentamentos e do serviço de ATES prestado, elabo- radas pela CEDRO. Os dados primários foram coletados por meio de entrevistas, apli- cação de questionário e observação participante. As entrevistas foram do tipo semi- estruturadas, individuais e coletivas, com os assentados e sujeitos que participam(ram) do processo de ATER nos assentamentos que a CEDRO atende, Também foi feita uma entrevista coletiva com os funcionários do departamento de ATES do INCRA, respon- sável direto pela coordenação, avaliação e repasse de recursos para as prestadoras de serviço da política de ATES.
Esta pesquisa partiu das premissas da observação participante. Segundo Triviños (1987), essas observações caracterizam-se por utilizar o ambiente natural de interações como fonte de dados. Foca-se o significado que os indivíduos atribuem à realidade dos eventos sociais que vivenciam. No caso desta pesquisa o foco oi no pro- cesso de ATER em assentamentos rurais de reforma agrária. Os significados são mani- festos por meio de depoimentos expontâneos ou motivados por roteiro junto a pessoas envolvidas com esse foco, direta ou indiretamente. Entre as características, Triviños (1987) destaca que esse tipo de pesquisa está atenta aos processos e não simplesmente aos produtos resultado dos fenômenos. A tendência é analisar os dados indutivamente,
sendo a principal preocupação do pesquisador voltada para o significado atribuído pelos sujeitos da pesquisa.
O interesse pela CEDRO ocorreu de forma complementar ao interesse por com- preender e vivenciar a reforma agrária; e assim buscar entender os desafios de um pro- cesso de que se propõem a ser de assessoria. Destacam-se algumas particularidades im- portantes no estudo da CEDRO. Primeiramente o fato de ser uma cooperativa, trabalhar com princípios de solidariedade e autonomia, mas ao mesmo tempo ter uma visão críti- ca da organização cooperativista hegemônica, representada pela Organização das Coo- perativas do Brasil (OCB) 25 e, segundo, não ser determinada diretamente por um mo- vimento ou organização social específica, apesar de ser filiada a União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES).
O contato com a CEDRO vinha de profissionais que atuaram na cooperativa, quais demonstravam os limites, as dificuldades e o respeito por um trabalho que, dadas as condições, sempre foi desafiador. As únicas prestadoras atuais do serviço de ATES no estado são cooperativas, a CEDRO e a COOPERAR. A segunda é ligada diretamente ao Movimento dos Sem-Terra (MST) e assessora assentamentos que foram desapropri- ados a partir da ação da organização e ação do MST. A CEDRO apresenta uma relação de diálogo, muitas vezes conflituoso, com o INCRA, autarquia estatal responsável pela ATES. Ao mesmo tempo em que é obrigada (normativamente) por contrato, a apresen- tar relatórios, metas e prestar contas (que garante o repasse de recursos), busca propor e modificar estratégias e formas operacionais, tornando-as mais condizente e realista com a dinâmica da cooperativa e com os processos que ocorrem nas áreas e nos grupos que assessora. O INCRA, sobretudo a Superintendência Regional 07 (SR-07), é a responsá- vel pública direta, junto com outros órgãos estaduais, por todos os processos de creden- ciamento, coordenação, avaliação pública da ATES, além da autorização pelo repasse de recurso, está relação será aprofundada adiante. O Movimento dos Trabalhadores
25 Apesar das cooperativas surgirem no Brasil no final do século XIX, desde 1932, a partir de lei específi-
ca, os interesses do Estado e do patronato guiaram as características do cooperativismo no Brasil. A OCB, fundada em 1969 foi definida pelo Estado como a única organização que representa o sistema cooperati- vista no Brasil, em lei de 1971. Contudo, após a constituição de 1988 a organização passa a ser questio- nada quanto aos princípios empresariais e patronais, levando a disputas em torno da representação única. A partir da década de 1990, por influência de elementos presentes no tema da Economia Solidária, diver- sas cooperativas passam a questionar a OCB. Por influência de entidades como a CARITAS, FASE e IBASE e com a fundação em de outras entidades representativas do cooperativismo nacional, como a CONCRAB, em 1992, da UNISOL, em 2004 e da UNICAFES em 2005, se fortalece as cooperativas, tidas como populares quais questionam a contradição de cooperativismo empresarial das entidades filia- das a OCB, tidas como cooperativas tradicionais. Cf. OLIVEIRA (2006); SILVA (2006).
Sem-Terra (MST), assim como o trabalho da FETAG/RJ, também são instituições im- portantes, sobretudo na constituição e nos primeiros anos de assentamento com política de ATER, contudo, a pesquisa não intenciona debruçar-se diretamente no papel MST e da FETAG/RJ nos assentamentos assessorados.
A CEDRO assessora assentamentos antigos, na maioria que tiveram apoio e a- companhamento da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Rio de Janeiro (FETAG/RJ), sendo alguns com característica de regularização fundiária26 e todos com processos descontínuos de ATER, e assentamentos novos, alguns dos quais só foram reconhecidos, mas não tiveram divisão oficial dos lotes. Nesta pesquisa, em função da distância com a malha urbana da capital e da concentração de áreas reformadas, optou- se por estudar áreas de assentamento do norte e noroeste do estado do Rio de Janeiro.
Identificou-se a partir de critérios sobre o histórico do processo de assessoria – quando e quem acompanhou a ATER, o tempo do assentamento e de diferentes Núcleos Operacionais (NO)27da CEDRO – dois assentamentos a serem pesquisados e os extensi- onistas entrevistados, responsáveis diretos por estes assentamentos. A história de cada assentamento revela as diferentes realidades da luta e permanência na terra no Rio de Janeiro, associada à complexidade das diferentes formas de intervenção, em diferentes realidades. A escolha da identificação destas duas áreas se deu em um assentamento antigo do norte (Tipity, no município de São Francisco do Itabapoana), com uma socia- bilidade de décadas e o qual já teve inúmeras experiências de ATER e um assentamento novo do noroeste (Floresta de Belém, no município de Itaperuna), com uma sociabilida- de recente e pouco tempo de acompanhamento em experiências de ATER, ambos no estado do Rio de Janeiro. Entre os assentados foram indicados dois a três “informantes privilegiados”28
, a partir de diálogo com os extensionistas, que tiveram diferentes expe- riências de ATER, com o trabalho da CEDRO (roteiro da entrevista em ANEXO II).
26 Existe um debate, sobretudo quando relacionado a números, da quantidade de assentados e de famílias
em que ocorreu regularização fundiária ou processos de colonização, em determinados períodos de go- verno. Com intuito de “inchar” os números de assentamentos, incluíram-se os moradores antigos de aé- reas que sofreram desapropriação. No Estado do Rio de Janeiro há pelo menos 53 intervenções fundiárias que combinaram a regularização fundiária com assentamentos e pelo menos cinco casos de serem apenas regularização fundiária, para detalhes Cf. ALEIXO (2007) e MEDEIROS et al. (2009).
27 Os Núcleos Operacionais, na estrutura do programa de ATES, são as menores unidades de intervenção
que atuam no campo, presentes no dia-a-dia dos assentamentos e responsáveis diretos por cumprir as metas acordadas.
28 Os informantes privilegiados são pessoas que representam certa centralidade no acesso ao contexto
social do estudo e apresentam informações privilegiadas para a pesquisa. Para aprofundamentos sobre o conceito, consultar COSTA, 2007.
Foram entrevistados cinco cooperados da CEDRO (roteiro em ANEXO I), dos quais quatro atuantes (três profissionais de campo e o gestor interno); cinco assentados (três de Tipity e dois de Floresta de Belém). Além da equipe do Departamento de ATES da Superintendência Regional INCRA do Rio de Janeiro (INCRA/SR7), em uma entrevista coletiva com três profissionais. Com o objetivo de obter a opinião de um maior número de profissionais da CEDRO foi enviado um questionário (ANEXO III) aos vinte e um (21) cooperados atuantes, somente nove (9) responderam.
As dificuldades, explícitas ou tácitas, na coleta de dados, os limites e prazos da pesquisa, redefiniram a abrangência do objeto e da metodologia utilizada. Apesar da aceitação dos informantes em participar com a pesquisa, as condições e o retorno dos dados, sobretudo o questionário, revelam dificuldades e interesses que limitaram um estudo mais profundo sobre a política da ATES e sobre os próprios objetivos definidos pela pesquisa.
Apesar da disponibilidade e da ajuda da diretoria da cooperativa, os informantes se mostraram extremamente heterogêneos quanto à quantidade e à qualidade das infor- mações, não apenas pelo diferenciado trabalho em situações diversas, mas acredito que pela importância (ou a falta dela) que foi depositada no trabalho de pesquisa pelos pró- prios extensionistas. Assim como as diferenciadas experiências e formações dos exten- sionistas, como veremos à frente, refletem em diferentes formas de enxergar, internali- zar e operacionalizar os objetivos das políticas de ATES e os desafios do processo de assessoria.
O acesso às informações, sejam bibliográficas e de relatórios foram disponibili- zadas pela diretoria e pelos profissionais dos Núcleos Operacionais (NO), assim como a disponibilidade de entrevistar os extensionistas de campo, coordenadores de núcleo e o gestor do projeto ATES da CEDRO, apesar do pouco tempo e as condições das entre- vistas ocorrerem, em sua maioria, em momentos de trabalho dos extensionista, não por uma opção metodológica, mas por encontrar disponíveis os cooperados somente em momentos de operacionalização do trabalho extensionista.
As primeiras entrevistas direcionaram para um estudo exploratório, focando a inserção no campo e coleta de informações a partir de informantes privilegiados. As entrevistas direcionam para o entendimento sobre o significado da assessoria e da políti- ca do Programa de ATES, as mudanças sociais ocorridas e a percepção sobre os resulta-
dos e os desafios da política do Programa de ATES. Seguidamente forma entrevistados informantes privilegiados dos assentados de cada assentamento estudado, buscando en- contrar formas diferenciadas de inserção e percepção sobre o processo de assessoria.
A segunda fase, de caráter descritivo e analítico, buscou uma associação entre o histórico do processo de extensão e da política do Programa de ATES na construção do significado da assessoria, identificando nas atividades pretéritas e presentes, a forma de intervenção da cooperativa. Os atores e as interfaces aprofundadas limitaram-se aos assentados e cooperados (extensionistas locais), deixando inicialmente o aparato institu- cional (técnicos do MDA e principalmente do INCRA), sindicatos, organismos não- governamentais e os grupos de poder local, como atores de interfaces secundárias.
A pesquisa apresenta um escopo em perspectiva exploratória, voltada a um tra- balho descritivo e analítico, focando as percepções sobre fenômenos interdependentes à prática extensionista, assim como pela situação pretérita da assessoria, confrontando as diferentes acepções provocadas pela operacionalização da ATES. Não objetiva-se um estudo de avaliação da política pública, mas sim, da percepção dos atores, diretamente envolvidos em sua implementação, sobre a mesma, qual pode resultar em uma interven- ção reflexiva sobre o desencadear dos processos que a ATES provoca no assentamento.