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Tribenzil boratın 1 H NMR analizi

Em seu livro Processos Criativos com os Meios Eletrônicos: Poéticas Digitais, os pesquisadores Julio Plaza e Monica Tavares, ao discorrerem sobre o conceito de poética, recorrem ao teórico Umberto Eco, para quem a noção de poética é equivalente ao programa operacional inicialmente proposto para uma obra, ou seja, trata-se de seu projeto de formatação e estruturação. Eco ainda enfatiza que uma pesquisa sobre as poéticas artísticas deve levar em conta as declarações do artista e uma análise das estruturas de sua obra, em função da maneira como ela foi realizada.

Dessa forma, uma poética visa à construção de determinado objeto artístico, o qual se concretiza, de modo operativo, em decorrência dos métodos heurísticos utilizados no desenvolvimento dos processos de criação; todavia, não se esquecendo que, em sentido mais amplo, este objeto é resultado de um projeto proposto com base em programas e ideais artísticos (PLAZA & TAVARES, 1998:120).

Aristóteles, em sua Poética, ao definir o ofício do poeta, enfatiza o devir que envolve a atividade poética, destacando a universalidade da arte e seu valor filosófico superior ao dos relatos históricos. Sua visão da função poética-artística nos remete ao caráter antecipatório da FC explicado pelo “deslocamento conceitual” proposto por P.K. Dick e relatado no capítulo II.

Não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer, o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (...) diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e o

outro as que poderiam suceder.52 Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular (ARISTÓTELES, 1987: 209).

No contexto de minha definição das poéticas ciberartísticas prospectivas, utilizo o termo “poética” para referir-me aos métodos operacionais utilizados pelos ciberartistas, que envolvem sempre o ferramental das novas tecnologias, sobretudo: telemática, robótica, biogenética e nanoengenharia; mas também no sentido aristotélico de poética, segundo o qual a poesia é universal e envolve o devir, aquilo que pode “vir a ser”.

Tradicionalmente, o termo “prospecção” estava relacionado à sondagem por meio da qual se procuram os filões ou jazidas de uma mina. No contexto das organizações econômicas contemporâneas, o termo “prospecção” ganhou um novo significado metafórico relacionado à antecipação, um exercício de pesquisa do presente para vislumbrar possibilidades múltiplas de futuro, é a chamada “prospecção tecnológica”, explicada pelos pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) David Kupfer e Paulo Bastos Tigre:

A prospecção tecnológica pode ser definida como um meio sistemático de mapear desenvolvimentos científicos e tecnológicos futuros capazes de influenciar de forma significativa uma indústria, a economia ou a

sociedade como um todo.53 Diferentemente das atividades de previsão

52

Grifo meu. 53

clássica, que se dedicam a antecipar um futuro suposto como único, os exercícios de prospecção são construídos a partir da premissa de que são vários os futuros possíveis. Esses são tipicamente os casos em que as ações presentes alteram o futuro, como ocorre com a inovação tecnológica. Avanços tecnológicos futuros dependem de modo complexo e imprevisível de decisões alocativas tomadas no presente por um conjunto relativamente grande de agentes (KUPFER & TIGRE, 2004: 17).

Aproprio-me, então, do termo “prospecção tecnológica” para referir-me aos discursos poéticos de muitos ciberartistas e às reflexões que suas obras engendram, é nesse sentido que utilizo o termo prospecção para batizar “As Poéticas Prospectivas das Ciberartes”. Essa nova categoria que proponho não objetiva engessar obras e/ou artistas numa sistematização rígida, na verdade ela procura expressar essa evidente identificação e interpenetração entre certas obras ciberartísticas e a ficção científica contemporânea, chamada também aqui de FC pós-humana. Essa idéia de “prospecção artística” remonta às idéias de teóricos como Marshall McLuhan, ele acreditava que os artistas são dotados de uma sensibilidade singular, que os torna avançados para sua época, cabendo a eles um papel cada vez mais importante na adaptação da sociedade aos choques provocados pelas mudanças tecnológicas.

O artista, ele escreve, capta a mensagem do desafio cultural e tecnológico várias décadas antes que seu choque transformador se faça sentir. Ele constrói então maquetes ou espécies de arcas de Noé para afrontar as mudanças que se anunciam (MCLUHAN apud COUCHOT, 2003: 308).

Para Umberto Eco, esse caráter prospectivo da ficção científica, observado também por mim nas ciberartes, pode ser caracterizado como uma metatopia ou metacronia, em que as obras cumprem um papel de antecipação: "Metatopia ou Metacronia: as épocas retratadas nas obras representam um tempo futuro que, por mais diverso que seja do real, é possível e verossímil porque as transformações a que foi submetido nada mais fazem do que complementar as linhas de tendência do mundo real” (ECO, 1989:168).

Ainda sobre esse papel cognitivo fundamental das artes, Edmond Couchot emenda:

A arte seria, à sua maneira, uma ferramenta de conhecimento potente, capaz de descrever o mundo sob o aspecto que lhe é próprio e de exercer um empreendimento simbólico sobre este mundo. E é incontestável, por mais longe que olhemos, que a arte sempre teve uma função pedagógica ou cognitiva (COUCHOT, 2003: 309).

As obras que se enquadram nas “poéticas prospectivas das ciberartes” são aquelas em que efetivamente é possível detectarmos as três características presentes na Tabela 1, apresentada anteriormente, ou seja: interdisciplinaridade, visões utópicas e/ou distópicas de futuro e o chamado caráter antecipatório; e também, pelo menos, outras três características elencadas na Tabela 2. Muitos ciberartistas, como Stelarc, Natasha Vita-More e Eduardo Kac podem ter quase todas suas obras enquadradas como “poéticas prospectivas”, outros, no entanto, apenas eventualmente produzem trabalhos que podem ser enquadrados nessa categoria.

Selecionei alguns ciberartistas para fazer uma análise breve sobre suas obras nesse capítulo, os critérios para essa seleção envolveram três aspectos fundamentais, primeiramente optei por ciberartistas cuja maior parte das obras pudesse ser enquadrada dentro das poéticas

prospectivas, já definidas aqui. O segundo critério de seleção priorizou artistas que unem ao

– caso de Natasha Vita-More e sua “Arte Extropiana”, de Roy Ascott e sua “Era Pós- biológica” e de Stelarc e sua “Teoria do Corpo Obsoleto”. Por fim, procurei incluir artistas que possuem obras que podem ser consideradas expoentes dentro das poéticas prospectivas, trabalhos realmente emblemáticos e seminais. Dessa forma, somei aos três nomes anteriores outros três: Eduardo Kac, expoente da arte transgênica, Mark Pauline, grande destaque na arte robótica e a dupla de ciberartistas Christa Sommerer & Laurent Mignonneau, pioneiros na área de arte e vida artificial.

O trabalho iconoclasta e singular desses ciberartistas nunca será passível de uma categorização reducionista, por isso é importante frisar que não são todas as suas obras que podem ser enquadradas como poéticas prospectivas, pois essa sistematização não pretende circunscrevê-los a um único gênero e sim agregar aqueles trabalhos que possuem características semelhantes. Como visto nas duas tabelas comparativas apresentadas anteriormente, é possível detectar pontualmente poéticas prospectivas presentes nas obras de diversos outros ciberartistas além dos que escolhi para minha análise. Na verdade, essas poéticas estão cada vez mais se enraizando na produção ciberartística contemporânea. Durante as análises, percebi semelhanças que geraram uma classificação das poéticas prospectivas em três tipologias possíveis:

Poéticas Prospectivas Eutópicas: É possível perceber no discurso do artista e contexto da obra uma clara visão eutópica, ressaltando os benefícios da tecnologia. Exemplos: Primo Posthuman, de Natasha Vita-More; Third Hand, de Stelarc.

Poéticas Prospectivas Neutras: O artista não se posiciona claramente a respeito de sua obra, deixando que os interatores tirem suas próprias conclusões. Exemplos: GFP Bunny e Time Capsule de Eduardo Kac.

Poéticas Prospectivas Distópicas: É possível perceber no discurso do artista e contexto da obra uma clara visão distópica (neo-ludities), ressaltando os malefícios da tecnologia. Exemplo: Performances robóticas do grupo SRL (Survival Research Laboratories), coordenado por Mark Pauline.

As análises apresentadas aqui pretendem vislumbrar a obra dos artistas à luz das características das poéticas prospectivas das ciberartes, demonstrando a presença dos elementos estruturadores dessas poéticas (Tabelas 1 e 2). Meu objetivo no contexto desta pesquisa não é uma análise extensa das obras desses artistas, mas sim uma síntese de suas características marcantes. Por isso, optei por me ater a uma ou duas obras de cada artista, eventualmente citando outros trabalhos. Também procurei discutir brevemente os elementos pós-humanistas presentes no discurso dos ciberartistas enfocados.

O objetivo fundamental da análise dos trabalhos desses artistas é a sistematização e consolidação final das características pós-humanas vislumbradas nos três grandes universos ciberculturais abordados até o momento na tese: as ciberartes, a ficção científica e os movimentos transhumanistas. Essa sistematização final solidificando os laços entre esses

fenômenos ciberculturais contemporâneos foi fundamental para a estruturação do universo ficcional da Aurora Pós-humana, a minha poética artística de síntese a ser

Benzer Belgeler