O Visagem tem vários programas que utilizam a literatura nas edições. O conto (mini-conto) e a poesia são os principais gêneros utilizados, como vimos no capítulo anterior. Além de trabalhar com narrativa própria, originalmente criada para o programa, Guaracy também utiliza os audiobooks para elaborar alguns programas. Aqui encontramos a poesia de Augusto de Campos (programa Augusto de Campos Inteiro), Gandhi, Lao Tsé, Kalil Gibran e William Blake (programa I Ching), Max Martins (programa Max Martins), Dalto Trevisan e
Manoel de Barros (programa Miniaturas), Edgar Allan Poe (programa Pensamento de Corvos), Augusto dos Anjos (programa Poetas Malditos), entre outros.
4.2.2.1. Carta inacabada - As poesias e contos são veiculados sempre com o uso de música e
determinados efeitos sonoros como neste programa que faz o relato da história da dançarina
stripper Sonata Star, abduzida por seres alienígenas:
A dançarina Sonata Star fazia seu show numa boate famosa de Belém, quando um disco voador a carregou para o espaço longínquo onde as estrelas nascem e morrem em explosões gigantescas. Sonata estava nua no cosmo, pois era uma stripper e assim foi pega. Não sabia onde esconder a vergonha. O medo por sua vez estava estampado em cada centímetro de seu corpo que pedia algo que o protegesse do frio que fazia dentro da nave. Sonata estava só e de repente ouviu um ruído que vinha da direção da única fonte de luz que havia por ali, um foco brilhante e azul que derramava-se do teto e a iluminava com generosidade (em BG, som de ruídos). Junto com o ruído, desceu um par de asas coladas às costas de um tigre magnífico (som de animal mordendo e gritos). Sonata começou a gritar, pois o animal rugia e arreganhava os dentes para o alto (...) O tigre pousou no chão, rodeou Sonata três vezes e deitou ao lado dela em silêncio. Sonata parou de gritar assim que o animal a olhou bem nos olhos. Séculos ou talvez milênios ou bilhões de anos se passaram sem que esse quadro se alterasse. Sonata nua e com frio sob uma luz azul com um poderoso tigre de asas deitado ao lado dela. Minto. A única coisa que se alterava continuamente eram as notas de uma música feita especialmente para Sonata pelos alienígenas que a capturaram. Uma, das incontáveis versões dessa música, você vai ouvir agora.
Como se vê, a história de Sonata ganha força com a utilização de músicas, ruídos e efeitos que ajudam a compor o clima de terror na história. Ao final, a música incorpora-se ao texto, pois se torna parte do contexto narrado.
4.2.2.2. Círio e a Quadra Nazarena – O narrador pega como mote o Círio de Nazaré, uma
das maiores procissões católicas do país, para levar o ouvinte a acompanhar algumas anedotas.
O Síria do Círio. O siri do Círio. A sirigaita do Círio. A Síria do Círio. O Círio do Círio. Vocês vão achar que é mentira, tudo bem. Mas é a mais pura verdade. Eu vi um sujeito sósia do Bin Laden, atravessando a rua ao lado da Basílica de Nazaré. Lançou um olhar cheio de ameaças, promessas de bombas (som de bombas), meu carro pelos ares (som de bombas), mas sobrevivi. E fui embora contente por saber da existência de um sujeito como esse, parecido, parecido com o Bin Laden (...) Ah, é bom esclarecer: o Bin Laden não é sírio, hein? É de Alfa de Centauro.
O programa segue com vários mini-contos usando como introdução as formações derivadas das palavras Círio e Síria. A cada entrada do narrador uma dessas formações é desenvolvida: Síria do Círio, sirigaita do Círio, Siri do Círio, Síria do Círio. As músicas que compõem este programa vão das composições eletrônicas, músicas do pop europeu a Bjork, cantora irlandesa.
4.2.2.3. Max Martins – Este programa homenageia o poeta paraense, o modernista
autodidata Max Martins (1926-2009), não na voz do narrador, mas na voz do próprio poeta. O programa é construído a partir de sua fala, constante no CD que acompanha a antologia “O Cadafalso”. O programa começa com a marca “Visagem” e o narrador que apenas diz: Max Martins, seguindo da fala do poeta: “A poesia pode ser uma amante e pode ser uma traidora que me apunhale pelas costas e que me rasgue as carnes de meu corpo”.
O narrador explica cuidadosamente: “Max Martins. Máximo múltiplo incomum. Max. Um xamã das pedras palavras lavra o Visagem de hoje. Ele. Ele. Eleito à poesia que fala por si, por Max, por nós. Por nós. Por nós. Mínimos mortais”.
A fala de Max Martins declamando suas poesias mixadas com uma música suave arrebata o ouvinte, como na poesia “O Estranho”: “Não entenderás o meu dialeto nem compreenderás os meus costumes. Mas ouvirei sempre as tuas canções e todas as noites procurarás meu corpo. Terei as carícias dos teus seios brancos. Iremos amiúde ver o mar. Muito te beijarei e não me amarás como estrangeiro”. É assim que o programa prossegue, entre poesias e músicas, compondo um programa único, uma justa homenagem ao poeta e mais que tudo, uma homenagem à poesia, como diz o Max Martins:
Num poema cabe tudo, qualquer signo, qualquer saber olhar para o poema, os poemas, para a vida, para a comunicação cotidiana entre as pessoas, a música que pode ser bossa-nova, pode ser a música erudita ou pode ser só um baque, “tec-tec-tec”, “tec-tec-tec”. Mas eu que tenha olhar para ver ou ouvido para sentir o “teco-teco”, para que eu guarde esse “teco-teco”, esse “blá-blá-blá” no coração, na minha sensibilidade.
Vez ou outra, entre um poema e outro, ouvimos o sussurrar de “Visagem” e “Max Martins” como forma de orientar o ouvinte desatento ou que acabou de sintonizar o programa. É importante ainda destacar que este programa foi veiculado antes do falecimento do poeta e foi reprisado quando de sua morte.
4.2.2.4. Pensamento de corvos – O narrador entra em três minutos e quarenta e quatro
segundos para falar sobre o programa do dia:
Pensamentos ocorrem aos corvos também, mas não é na forma de um sabor de maçã, nem de pacotes de amor eterno; são reencontros dolorosos; lâminas de vidro voando pelo ar; espinhos nascendo nos pés; inesperados cogumelos venenosos brotando na sopa do jantar. Mas para que servem os pensamentos dos corvos. Ora, pra atrair moscas contaminantes, para vestir luto o ano inteiro, pra fatiar pescoços de girafas mortas e coisas assim. O pensamento dos corvos, esses pássaros negros, literários, sobrevoam o Visagem de hoje e depois, nunca mais.
Esta é uma edição feita em homenagem e inspirada no escritor Edgar Allan Poe. O primeiro texto traz justamente um Poe bêbado que dorme na calçada e tem corvos povoando seus sonhos. O som de corvos serve para anunciar a entrada de cada uma das historietas e poemas: uma aranha viúva-negra que se alimenta de moscas, mas o melhor mesmo era ter um marido; uma jibóia que aperta a garganta de uma cantora; o escorpião que se transforma numa interrogação para matar - “o escorpião é tão estranho e perigoso quanto esta música”, neste momento começa a tocar uma música japonesa, já utilizada nos programas “Max Martins” e “Patrícia Explode” e por fim, um poema sobre borboletas e lacraias.