3. LİTERATÜR TARAMASI
3.2 TRD İşlemi İle İlgili Çalışmalar
Após o golpe de março de 1964, os militares interviram no sistema político derrubando governadores em estados como São Paulo121 e Sergipe122. Mediação que, do ponto de vista das carreiras políticas, subsidiou o ressurgimento da figura do interventor frequentemente identificado no Estado Novo123 e pontualmente observado em algumas capitais de estados brasileiros no multipartidarismo124.
Os nomeados, através do patrocínio dos militares e redes clientelísticas, assumiram cargos eletivos em instâncias hierarquicamente superiores. Pode-se afirmar que esta ação se tornara uma espécie de atalho, proporcionando um salto na carreira, a exemplo do identificado pela ascensão de um vice-prefeito, de presidentes de câmaras municipais ou mesmo um militar das forças armadas no exercício de funções executivas municipais.
A presença de diversas divisões das Forças Armadas, uma das principais características da fronteira e interior do estado gaúcho, que após o golpe de 1964 e a publicação do Ato Institucional Número 1, atuaram na deposição de políticos não alinhados ao regime, marcando um momento de grande agitação na chamada “operação limpeza”125. Diversos políticos do PTB foram presos, perseguidos126 e, em decorrência desta intervenção, perderam suas posições políticas127, como o exemplo de prefeitos de municípios localizados na fronteira e regiões estratégicas128. A criação das ASN no ano de 1968 fez com que os prefeitos eleitos pelo MDB nos municípios de Canoas e Osório fossem substituídos por nomeados, os quais nunca desempenharam função executiva129.
121 (Abrucio, 1998) 122 (Montalvão, 2011)
123 Para uma boa descrição da nomeação de prefeitos em municípios gaúchos durante o Estado Novo, ver os trabalhos de Luciano Arone de Abreu (2005, 2007a, 2008) especialmente o quarto capítulo do livro “Um olhar regional sobre o Estado Novo” (2007b). Consultar também (Colussi, 1996).
124 Um exemplo destas nomeações pode ser observado no estado de Santa Catarina, onde os prefeitos da capital Florianópolis vinham sendo nomeados pelo governo desde 1889. O primeiro prefeito eleito por voto direto é encontrado apenas em 1927. Partindo de 1889, os próximos 96 anos registram a ocorrência de apenas cinco eleições para prefeito, a maior frequência após 1964. O restante das legislaturas acusam políticos nomeados pelo governo. Assim, para alguns municípios, a nomeação de prefeitos não era uma novidade.
125 A operação limpeza ocorre após o golpe e tinha como principal objetivo ocupar os principais postos de instituições políticas, ocasionando a destituição de dirigentes de empresas públicas, autarquias, sindicatos, para uma melhor compreensão ver: (Cardoso, Farias e Montemezzo, 2009; Fernandes, 2009; Gaspari, 2002a; b; Motta, 2002, 2013; Zachariadhes, 2009)
126 A consulta dos nomes e o motivo da cassação do mandato de muitos políticos podem ser encontrados em (Oliveira, 2000)
127 A exemplo: Paulo Lauda, de Santa Maria, Alberto Plentz, de Cruz Alta e Beno Orlando Burmann de Ijuí. 128 Como os casos de Izabelino Abad, prefeito de Uruguaiana; Farido Salomão, de Rio Grande; Gil Cunegatto Marques de Itaqui; Luis Maria Ferraz em Bagé; do Cel. José João, de Medeiros em Canoas; Sérgio Fuentes de Santana do Livramento e Sereno Chaise em Porto Alegre.
129 A criação das ASN também impediu a carreira de outros políticos que alcançaram a vitória nas eleições de 1968, como Angelo Gabriel Boff Guausselli de Osório e Celso Corrêa D´Avila em Tramandaí.
Os municípios ASN contornam toda a extensão da fronteira brasileira, formando uma espécie de “moldura”, que preocupava o governo e chamava a atenção de generais, como Golbery do Couto e Silva, Mario Travassos e Carlos de Meira Mattos, desde a década de 50130. As ASN podem ser entendidas como parte dessa geopolítica, que formara a denominada “moldura geográfica”, a qual deveria impedir que oposicionistas conquistassem executivos municipais, além de combater a circulação de guerrilheiros e fugitivos políticos brasileiros, bem como de outros países do Cone Sul.
O trânsito de “subversivos”, dentro e fora do país, só poderia ser combatido através de mudanças na composição dos governos locais, um dos motivos para as prefeituras ficarem fora do jogo político. O regime entendera que, se estas estruturas estivessem sob poder da oposição, facilitariam o financiamento de “subversivos” e a resistências ao regime, tornando a fronteira mais “porosa” e suscetível ao contrabando de armas, o que favoreceria movimentos contrários ao governo.
Nos relatos dos ex-prefeitos, o repertório mais amplo aponta para a inexistência de qualquer tipo de repressão estatal nas ASN. Embora, por parte das forças do governo, reconheçam a existência de exageros nos primeiros momentos após o golpe, relatam que a repressão nunca existiu ou foi presenciada no decorrer de suas administrações.
Contrariando o relato dos nomeados, há o exemplo de Porto Mauá – na época distrito do município de Tuparendi e localizado no Extremo Oeste do RS – que abrigava o quartel dos fuzileiros navais, responsável pelo policiamento da fronteira, onde no momento do golpe realizou a prisão de cidadãos que supostamente se opuseram ao governo que se instalara. E na cidade de Itaqui – ASN localizada na fronteira Oeste do estado – o comandante do Regimento de Cavalaria, Caetano Pinto Rocha, foi responsável pela detenção de 40 pessoas da comunidade, acusadas de cometer “crimes contra o Estado”, estas ficaram detidas por 111 dias no hangar do aeroporto local – espécie de campo de concentração131. Entre os detentos estavam o prefeito petebista Gil Cunegatto Marques, seu vice-prefeito, alguns vereadores e cidadãos comuns.
Os recentes relatórios produzidos pela Comissão Nacional da Verdade demonstram a intensa atuação repressiva das Forças Armadas na fronteira gaúcha132, onde, além de realizar a deposição de políticos petebistas, eram responsáveis por solucionar o problema das
130 Estes generais foram os primeiros teóricos da geopolítica brasileira, responsáveis por formular teorias, como a dos “círculos concêntricos” (Couto e Silva, 1981; Miyamoto, 1995; Silva, Franco e Couto e Silva, 1967)
131 (Cf. Teixeira, 2009)
132 Como o objetivo deste trabalho não é estudar a repressão e terrorismo estatal, para maiores detalhes, consultar especialmente o volume IV do relatório da CVN, onde foi destacado a “Operação Três Passos”. (Brasil, 2014)
cassações, para isso, buscavam acordos com os prefeitos titulares ou promoviam a sucessão do vice-prefeito. Na impossibilidade de firmar estes acordos, os presidentes de Câmaras Municipais assumiam o cargo de prefeito por indicação militar. A exemplo está a cassação de Sereno Chaise133, prefeito eleito pelo PTB em Porto Alegre, preso em 3 de abril de 1964 e detido por aproximadamente 40 dias:
Neste interregno, o general Poppe tinha chegado e recém havia assumido o comando do III Exército. Mandou chamar o Ajadil de Lemos, vice-prefeito. O Ajadil foi lá e o general Poppe ordenou: “Doutor, lhe chamei aqui porque preciso dar uma solução legal para a Prefeitura de Porto Alegre. Quero que o senhor assuma hoje”. O doutor Ajadil respondeu: “General, a solução legal que o senhor tem que dar à prefeitura é soltar o prefeito que está ilegalmente preso”. (KLÖCKNER, 2007, p. 88)
O vice-prefeito de Porto Alegre, Ajadil Ruiz de Lemos, ao recusar os termos do general Pope, foi cassado134 juntamente com o prefeito Chaise, em 4 de maio de 1964. Assumindo o cargo o seu substituto legal: o presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre, Célio Marques Fernandes. Como apoiador incondicional do regime, permaneceu no cargo até 1965, quando a Câmara de Vereadores de maioria petebista, em votação interna determinou a nomeação do vereador Renato Souza ao cargo de prefeito. Célio não aceitou a decisão e recorreu ao STF, que o reconduziu ao cargo. Posteriormente, com o decreto do AI-3 Célio permanece no cargo de prefeito, nomeado diretamente pelo regime até 1969, quando fora substituído Telmo Thompson Flores.
Em Santana do Livramento, município localizado na Fronteira Sul do estado gaúcho, o prefeito petebista Sérgio Fuentes, foi confrontado pelo Coronel Knaack de Souza, comandante do 7º Regimento de Cavalaria e da Guarnição Federal no município, que formulou junto a Câmara de Vereadores um pedido de cassação de seu mandato. Esse procedimento foi protelado inúmeras vezes, devido a recorrente falta de quórum. Fuentes, contrário a decisão, ingressou com uma ação no Tribunal de Justiça do Estado, reclamando sua inocência, processo que se estendeu por mais de um ano, até que uma decisão da justiça reestabeleceu o seu mandato. No dia seguinte a decisão, foi preso e levado para um quartel de Uruguaiana, onde após a realização de procedimentos médicos, atestaram a existência de problemas de saúde que o incapacitariam para o exercício do mandato político. A Câmara Municipal, apesar de ser de maioria petebista, convocou uma sessão secreta, onde foi votada a cassação do mandato do prefeito Fuentes. E em poucos dias assumiu o vice-prefeito, Milton Molinos (UDN), que permaneceu no cargo até o inicio de 1969 (ASEFF, 2008, p. 64-65).
133 Para uma descrição da carreira de Sereno Chaise e os fatos referentes a sua cassação (Cf. Cardoso, Farias e Montemezzo, 2009).
Cumpre ressaltar que apesar da Constituição de 1946 estar em vigor entre 1964 e 1966, o dispositivo das nomeações não foi acionado e os prefeitos cassados no ano de 1964 não foram substituídos por políticos nomeados e sim por substitutos legais patrocinados pelas Forças Armada. Nesse contexto, a solução política foi tomada exclusivamente pela corporação militar, que intervinha diretamente na política.
A tabela seguinte apresenta a forma ingresso de prefeitos em municípios classificados como ASN, entre o ano de 1964 e 1985 e desagregadas por categorias, permitindo a seleção dos casos que serão estudados.
Tabela 2 – Em que condição desempenha o cargo de prefeito entre 1964 e 1985?
Freq. (%) Cum.
Nomeado 89 65,93 65,93
Interino 11 8,15 74,07
Prefeito eleito, depois nomeado 10 7,41 81,48 Eleito pela Câmara Municipal 8 5,93 87,41
Vice-Prefeito eleito 6 4,44 91,85
Prefeito Eleito 5 3,70 95,56
Eleito, com mandato prorrogado 4 2,96 98,52 Prefeito Substituto (vice) 1 0,74 99,26 Presidente da Câmara Municipal 1 0,74 100,0
Total 135 100,0
Fonte: Elaboração própria
Com base a elaboração da tabela acima, os grupos que integrarão a análise serão os seguintes: (i) nomeados, (ii) prefeitos eleitos, depois nomeados, (iii) prefeito substituto (vice) e (iv) os eleitos pela câmara municipal. Os eleitos e substitutos serão desconsiderados nesta pesquisa, ficando organizados da seguinte maneira:
Tabela 3 – Quantidade de prefeitos nomeados entre 1966 e 1985
Freq. (%) Cum.
Nomeado 89 83,18 83,18
Prefeito eleito, depois nomeado 10 9,35 92,52 Eleito pela Câmara Municipal 7 6,54 99,07 Prefeito Substituto (vice) 1 0,93 100,0
Total 107 100,0
Fonte: elaboração própria.
Do quarto grupo (eleitos pela Câmara Municipal) serão considerados quatro vereadores eleitos pela Câmara Municipal de Vicente Dutra, escolhidos entre os vereadores do MDB entre 1975 e 1985, dado o desinteresse dos membros da Arena local em solicitar a indicação do prefeito nomeado; um vereador do PDS do município de Irai e; dois casos de Bagé, um prefeito e um vice indicados pela Câmara de Vereadores após a cassação dos titulares em 1964.