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KARACİĞER TRANSPLANTASYONU GİRİŞ

TRANSPLANTASYONUN ZAMANLAMAS

Às raízes... – Os discursos sobre Educação13, seu conceito e finalidades manifestam as tendências de quem os profere e defende além de um compromisso que sempre se justifica pela defesa de uma educação que funcione e colabore com o crescimento da sociedade. Mesmo que se critique a educação, como ela é desenvolvida nos estabelecimentos escolares – tal como faz Illich (1988) –, a educação é defendida: ninguém quer acabar com a educação; todos admitem a sua necessidade individual e social. A variedade de posicionamentos é tanta que não é raro encontrar posicionamentos internamente contraditórios e contrários em relação a outros. Se a necessidade da educação é algo unânime, seu conceito não o é. De todas as grandes disputas em torno deste conceito uma das principais, senão a maior, parece ser a confusão entre educação em sentido universal (latu sensu) e educação em sentido específico (strictu sensu). Pode-se encontrar quem afirme a educação como uma parte de toda a sua abrangência, como se esta parte pudesse substituir a totalidade da educação. A substituição sumária do todo pela parte empobrece uma análise profunda, correta e necessária, para educadores e educandos, de modo espacial, acabando por comprometer a sociedade em aspectos necessários para a sua produção, avanço e manutenção. Mas esta confusão não é ingênua. Ela tem uma utilidade ideológica importante para manter a sociedade e sua estrutura de funcionamento (danificado).

O esclarecimento sobre a educação passa pela análise de como as práticas educativas são desenvolvidas hoje, mas o cerne da análise parece estar muito mais naquilo que se entende por educação (teoria), do que naquilo que parece estar errado nas escolas, ou seja, naquilo que se tornou um jargão entre educadores-pesquisadores ―no quotidiano da escola‖. Dito de forma metafórica: é preciso voltar às raízes da árvore, mesmo que os galhos e folhas manifestem debilidades. O quotidiano da escola é importante porque manifesta intenções que desconhece (e de quem lhes desconhece), por isto é ponto de partida para a compreensão da educação.

Quando a pesquisa educacional, em particular, se preocupa com a educação rural, seus métodos, seus fins, seu locus de desenvolvimento, com os sujeitos envolvidos etc. cumpre,

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Utilizo aqui a palavra Educação, com maiúscula no início, no sentido de educação geral, em uma acepção ampla, que engloba todas as especificidades, como diferencial e superior a qualquer outra forma específica de educação (profissional, religiosa, a distância, dentre outras); doravante utilizar-me-ei de ―educação‖, quando não houver nenhuma especificidade, caso contrário procurarei explicitá-la.

inicialmente, uma tarefa importante na sociedade e na academia. Mas o que é raro na maioria das abordagens sobre o tema, é a observação, igualmente necessária, de que a educação rural,

antes de ser rural, é educação. As críticas contra a ―urbanidade‖ da educação rural não são

improcedentes, mas precisam dar-se conta e serem explícitas quanto ao fato de que, urbano ou rural, todo brasileiro tem o direito institucional – sem falar do direito e necessidade humana – à educação. Assim, é interessante perceber, que o jovem rural não tem direito à educação rural, têm direito à educação. Isto será objeto de discussão posteriormente, mas é procedente fazer esta ressalva para que não se caia no discurso da parte pelo todo, na busca apressada para salvar as folhas da árvore, deixando fenecer as raízes.

Para os gregos, educação significa:

฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀฀14 quer dizer: ―direção de crianças, educação, pedagogia; cuidado (de um enfermo)‖. Merece destaque a etimologia do termo pedagogia (฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀: ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀: ―menino, filho, escravo jovem‖; e:

‘À฀฀ ฀‘฀ ฀฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀15: ―levar (consigo), conduzir, guiar, dirigir, mandar, educar, formar, arrastar, pesar, apreçar, construir, fazer [...]; condutor, guia‖. Do mesmo radical de ‘À฀ tem-se o verbo ‘฀ ฀ ฀ ฀ ฀ ฀ñ฀16: ―ação de transportar, ação de conduzir, direção, educação, método, maneira, compasso‖ (PEREIRA, 1976). Toda expressão indica condução, transporte, direção de crianças no sentido de educar, de formar. Apesar de quase

não se manifestar, claramente, conotações de valor, ao se ler ―cuidado (de um enfermo);

formar, construir‖, pode-se perceber uma certa intencionalidade, diria, positiva.

Em latim, educação parte do mesmo radical de educar, no sentido de ―dar educação:

disciplinis excolĕre, expolīre‖, observe-se que disciplinis pode ser traduzido como disciplina

ou ―matéria ensinada, sistema, método, ensino, organização política, princípios de moral‖ e excolĕre (excŏlō, -is, -ĕre, -colŭī, -cūltum) pode ser traduzido como: ―cultivar com acuidade,

preparar bem, tratar bem, cultivar, aperfeiçoar, polir, civilizar, honrar, venerar, respeitar, ornar, embelezar‖; assemelha-se a expolĭō, (-īs, -īre, -īvī, - ītum), traduzido como: ―polir inteiramente, dar lustro, dar os últimos retoques, embelezar, ornar, cultivar, aperfeiçoar‖. Instruir é traduzido como: educare, erudire, instruĕre. Educação e instrução, embora sejam entendidas e traduzidas de forma diferenciada, sempre aparecem associadas. Educação: disciplina, educatio, institutio; semelhante à ―instrução‖: cultus, cultura, institutio. O latim

reconhece a boa educação: ―receber boa educação‖: salubriter institui; delicadeza: urbanitas;

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Paidagugia, paidagugos. 15Agũ, aguguéi, éus. 16

delicado: cultior; e o indivíduo ―sem educação‖: inurbanus; indelicado: petulans homo; o bem-educado é o bene institutus, eruditus egregie, liberaliter educatus; o mal-educado é o: politioris humanitatis expers (FARIA, 1974).

A multiplicidade de significados, em latim, tem uma conotação e uma denotação

―positivas‖: polir, aperfeiçoar, cultivar, instruir. Contudo, se percebe que há o reconhecimento

de um mal-educado (inurbanus: inurbano) e de um bem-educado (urbānus, -a, -um: urbano). Na linha dos derivados de urbano, ainda se encontram o adjetivo urbān e o substantivo

urbānĭtās, -tātis. O adjetivo traduz-se como: ―com urbanidade, civilmente, polidamente; (daí,

referindo-se ao estilo:) com finura, finamente, delicadamente, espirituosamente‖; enquanto

que o substantivo é traduzido como: ―morada na cidade, morada em Roma‖ e, no sentido figurado, ―polidez, urbanidade, civilidade; graça, elegância, polidez (de linguagem);

zombaria, gracejo, dito espirituoso‖, donde vem a tradução de urbano como ―da cidade, da

cidade de Roma‖ e, no sentido figurado, ―polido, fino, delicado, urbano, espirituoso,

engraçado, folgazão, gracejador‖, mas, também, ―impudente, indiscreto‖. Parece, então, que se estabelece uma valorização da cidade – tomada como referência a cidade de Roma – não só como espaço de morada, mas como sinônimo de educação. A cidade não é somente o lugar, mas é sinônimo de civilidade.

É, ainda, significativo que o substantivo agrícola, -ae, signifique ―lavrador, agricultor‖

e, como adjetivo, possa ser traduzido por ―rústico‖. Na mesma linha de sinônimos, pode-se

encontrar agr stis, traduzido por ―camponês‖, ou ―o que se acha ou vive no campo, selvagem,

agreste, silvestre, bravio; rude, rústico‖. Agr stis também pode ser traduzido por ―rural‖

(FARIA, 1974; KOEHLER, 1955; CARO et al. 1955).

No sentido de cultura como cultivo, cidade (urbano) e rural (agreste) se distinguem,

caracteristicamente. Na cidade se cultiva pessoas, as coisas que se referem ao seu ―espírito‖,

como a polidez, a delicadeza, a própria cultura, a graça, a civilidade, em suma: o que é urbano. Enquanto que, no meio rural, se cultiva a terra e se produz as coisas para o ―físico‖ das pessoas. O mal educado não é o agr stis, mas o inurbanus, ao que parece, aquele que teve má educação, usa mal ou não usa a educação que recebeu. O agr stis, estaria na condição de quem ainda não se tornou urbānus, ou seja, ―ainda não teve o espírito cultivado‖. O agr stis não é a negação do urbānus, apenas que, aquele, ainda não chegou nesta condição, mas o inurbanus nega o urbano, faz mau uso da urbanidade.

Sobre o termo educação há, ainda, a expressão latina dūcō17, cujo sentido pode ser

―criar, amamentar‖ e, em sentido figurado, ―educar, instruir, ensinar‖; e dūcō18

, sob a

tradução de ―levar para fora, fazer sair, tirar de, criar, educar, dar à luz, produzir, elevar,

exaltar‖. Em educação, tem-se: e -ducação, onde: a desinência ―e‖ (ou ―ex‖) significa ―fora de, desde, da parte de, do número de, em conseqüência de, conforme‖ (exemplo: e natura vivere, viver conforme a natureza); e ducĕre (deducĕre, ductare), cuja tradução é ―conduzir, guiar (para junto de), fazer ir, ser caminho para‖. Educĕre significa, assim, ―conduzir para fora (inducĕre, ―conduzir para dentro‖) (CARO et al. 1955; FARIA, 1974).

Na Transamazônica, quando alguém vai do lote (rural) para a cidade, há o costume de

se dizer que ―‗fulano‘ foi na rua‖ ou ―eu preciso ir na rua‖, ou seja, educĕre; se tomarmos a

educação como sinônimo de urbānus tem-se uma – dentre outras – proposição interessante na

relação entre ―sair do rural‖ para a cidade e a proximidade com educação. Ainda que se possa

fazer ressalvas sobre a diferença no radical de e-ducĕre e -dūcō, ambas as expressões têm

este sentido de ―levar para fora, fazer sair, tirar de‖, sempre como uma ação de fora sobre

outrem e com a mesma estrutura básica: dūce/ educ.

Sob muitas das traduções e entendimentos possíveis, educação tem a ver com a condução de alguém por outrem. Não permite – até aqui – a interpretação de uma auto-

condução ―do espírito‖, ainda que se possa admitir o indivíduo como ―educador, guia ou condutor de sua consciência‖ para fora de uma situação, para outra. O educador19

é o criador, nutridor e, educação20, é a criação, alimentação. O sentido de guia se assemelha ao pedagogo

– grego –, e pode ser traduzido como tal em latim; e, com a aproximação entre bem educado e

urbano, pode-se admitir a educação como a condução para a civilidade. Apesar do preconceito contra quem não mora na cidade (urbānĭtātis) ou ―não mora em Roma‖, contra quem não falava o latim (o diferente, que foi chamado de bárbaro), como alguém desprovido de cultura

(bons costumes), parece que não está excluída a possibilidade de que, estes que ―não estão cultivados‖ possam ser ―tornados cultos‖.

Ainda, nestas incursões etimológicas, é possível perceber que educação não se apresenta como uma questão moral em que se deve aprender sobre o bem e o mal. Educação seria sinônimo de aprender e de adquirir hábitos (bons). A urbanidade não se efetiva somente como manifestação destes bons hábitos: ela tem um aspecto geográfico, também; por isto não é estranho que se entenda o educado como o morador de Roma. A ruralidade, a rusticidade e a

17 dūcō, -ās, -āre, -āvī, ātum (verbo transitivo e intransitivo). 18 dūcō, -īs, - re, -dūxī, -dūctum (verbo transitivo e intransitivo). 19Educātor (masculino), educātrix (feminino).

selvageria são exemplos de falta, ou de negação da educação, esta seria uma atividade ―para

fora‖ do meio rural.

A polidez, elegância, urbanidade, civilidade não têm, necessariamente, uma conotação

mais do que aparente, ou seja, alguém pode exercer uma ―boa educação‖ e ser um mau

caráter. Educação, nestas investigações lingüísticas, pode ser algo meramente aparente. Talvez, por isso, não se trate, a não ser de forma tão distante quanto substituível, de alma,

moral, espírito. Uma exceção bem clara é a tradução de ―dar educação‖: disciplinis excolĕre, que pode ser traduzida por ―princípios de moral‖, mas é uma passagem rápida e não se apresenta com constância; a mesma expressão pode ser traduzida por ―organização política‖

que, em latim, tem um correlato óbvio que é polītīa.

O entendimento de ―educação‖ estaria muito próximo de ―ter classe‖, no sentido de etiqueta, boas maneiras. A superação da rudeza e rusticidade pode ser – até aqui – entendida

como um ―mudar-se para a cidade, assumindo o seu modus vivendi‖, o que, neste início de

século é algo extremamente problemático. Mesmo na época dos imperadores romanos – hoje os imperadores não moram apenas em Roma! – as guerras e barbáries não eram uma iniciativa do campo, a não ser aquelas em defesa do campo. Mas uma conclusão interessante a que se pode chegar é que a educação é a condução ou preparação do homem, para que ele passe do campo para a cidade e, traduzindo de forma mais aprofundada a expressão, educação é a condução ou preparação do homem, para que ele passe da selvageria para a civilidade. O morador da cidade pode orientar o estanho, na cidade, assim, o culto, (polido, delicado e

instruído) pode ser o guia do ―rústico‖. Mas é preciso estabelecer conteúdos para ―selvageria‖ e para ―civilidade‖. Aqui entram as intenções – derrotadas – do iluminismo, do

esclarecimento.

Fala oficial21 – A legislação maior do país garante a oferta e o acesso à educação

escolar de todos os brasileiros, mas não define o que é educação. Pela Constituição de 1988,

denominada Constituição Cidadã, ―é competência comum da União, dos Estados, do Distrito

Federal e dos Municípios [...] proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à

ciência‖ (Art. 23, V), como direito social ―dos trabalhadores urbanos e rurais [a educação],

além de outros que visem à melhoria de sua condição social‖ (Art. 7º, caput, IV). No Artigo 205, a Carta Magna garante o direito à educação, atribuindo responsabilidades e

21

estabelecendo as finalidades deste direito: ―A educação, direito de todos e dever do Estado e

da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para

o trabalho‖. Como um dever do Estado, a lei garante o acesso à educação fundamental

gratuita inclusive para aquelas pessoas que não tiveram acesso a ela na ―idade própria‖ (Art.

208, I) e incrementa esta obrigatoriedade garantindo: ―atendimento ao educando, no ensino

fundamental, por intermédio de programas suplementares de material didático-escolar,

transporte, alimentação e assistência à saúde‖ e acrescenta:

O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo; o não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente; compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola. (Art. 208, VII, § 1º, 2º, 3º).

O que está implícito no termo da Lei é a grande necessidade da educação para os cidadãos. Quanto a isto os direitos e deveres – cidadão-Estado, respectivamente – não só não deixam dúvidas, como expressam a meta de uma sociedade educada, além de um Poder Público empenhado para que isto aconteça, juntamente com a sociedade e a família. Até aqui, na redação da Constituição, o Estado aparece como o maior responsável pela educação dos cidadãos. O artigo 227, de modo especial, reafirma o direito à educação, esclarecendo as

responsabilidades pelo ―dever‖ e, de certa forma, estabelece outros responsáveis, relegando o Estado a uma condição de ―parceiro‖ no cumprimento deste dever22

:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Ou seja, ainda que se esteja tratando de ―criança e adolescente‖, a legislação é

cristalina: a primeira responsabilidade é da família, em seguida da sociedade – cuja

compreensão é ampla e vaga por envolver ―todo mundo‖, inclusive a família e aqueles que

ocupam os cargos e funções do (de) Estado – e do Estado.

Ao franquear a possibilidade de oferta de educação a organismos não oficiais, o que pode significar liberdade e expressão de democracia em um país, o Estado não abre mão da ingerência em oferta de educação não estatal: ―O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I - cumprimento das normas gerais da educação nacional; II -

22

A Lei 9394/96 reafirma a obrigação do Estado e o direito dos cidadãos, mas somente no que diz respeito ao ensino fundamental: ―O acesso ao ensino fundamental é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída, e, ainda, o Ministério Público, acionar o Poder Público para exigi-lo‖ (Art. 5º).

autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público (Art. 209)‖. Por isso, ―compete

privativamente à União legislar sobre: diretrizes e bases da educação nacional‖ (Art. 22, XXIV), e de estabelecer o plano nacional de educação:

A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do Poder Público que conduzam à: erradicação do analfabetismo; universalização do atendimento escolar; melhoria da qualidade do ensino; formação para o trabalho; promoção humanística, científica e tecnológica do País (Art. 214, I, II, III, IV, V).

Todos os artigos da Constituição permitem uma clareza sobre as intenções do Poder Público para com a educação, mesmo quando invertem a ordem dos responsáveis para que cada preceito se cumpra – o que se pode entender como uma inversão destas responsabilidades – é importante ressaltar a reconhecida necessidade da educação para que os fundamentos do Estado Democrático e de Direito – a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; o pluralismo político – se cumpram. Apesar de oferecer conteúdo para uma definição de educação, a Constituição deixa

―em suspenso‖ este conceito, que será mais claramente apresentado na Lei de Diretrizes e

Bases da Educação Nacional (LDBEN, Lei 9394/96), promulgada oito (8) anos após a Constituição.

A Lei 9394/96 é, por assim dizer, filha de seu tempo; nasceu no tempo que ficou conhecido, acadêmica e economicamente, como o período de consolidação do neoliberalismo. Desta forma, se se pode atribuir ao neoliberalismo a redução do Estado – como mais uma das estratégia do capitalismo para superar suas crises contumazes, a LDBEN pode ser

caracterizada como neoliberal. A sua ―racionalidade‖ não diverge da racionalidade do sistema

que a gerou e promulgou. Desde a protocolização do primeiro projeto de LDBEN na Câmara Federal, de autoria do Deputado Octávio Elísio (Partido da Social Democracia Brasileira –

PSDB/MG), até a promulgação, em dezembro de 1996, do substitutivo ―Darcy Ribeiro‖

(BRITO, 1997, p. 50), travou-se embates ideológicos de toda sorte. Houve, inclusive, quem admitisse que nem era necessária uma nova Lei, sob a justificativa de que a Constituição já havia cumprido este papel (ibidem, p. 51). Os processos que se desenvolveram e se frustraram até a sua promulgação revelam o embate de forças civis, políticas e econômicas do país, inclusive sob ingerências de organismos internacionais, como o Banco Mundial23.

Na LDBEN a educação é definida como abrangência dos ―processos formativos que se

desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino

23

Não é minha intenção adentrar-me nesta questão, mas cito como referência para o conhecimento e compreensão deste processo é a obra de Brito (1997).

e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais‖ (Art. 1º.). Reconhece a amplitude da educação e, adiante, define o seu limite, ou

seja, disciplina ―a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias‖ (Art. 1º, § 1º). No termo da Lei, a educação não se limita à

escola, mas a Lei se limita à regência da educação escolar24.

Para uma definição de educação é importante destacar a associação que se faz entre educação e processos formativos. Processo significa sucessão de fatos, mudança de um estado, ou situação, para outro, com alguma gradatividade; e, por formativo, se pode entender

algo usado para formar, que dá forma a alguma coisa. ―Processos formativos‖ seria, na

LDBEN, uma sucessão de realizações que produzem, gradativamente, a finalidade maior da

educação, ou seja, ―o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da

cidadania e sua qualificação para o trabalho‖ (Art. 2º). O objetivo de ―pleno desenvolvimento

do educando‖ já foi diferentemente redigido na Constituição, que propunha o ―pleno desenvolvimento da pessoa‖; as Leis de Diretrizes e Bases anteriores, também contavam com redação mais profunda: ―o respeito à dignidade e às liberdades fundamentais do homem; o

fortalecimento da unidade nacional e da solidariedade internacional; o desenvolvimento integral da personalidade humana e a sua participação na obra do bem comum‖ (LDB, Lei 4024/61, Art. 1º, b, c, d); também é diferente na LDB de 1971 (Lei 5692/71, Art. 1º, caput):

―proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas

potencialidades como elemento de auto-realização, qualificação para o trabalho e preparo para

o exercício consciente da cidadania‖.

Para que a escola possa cumprir esta finalidade a LDBEN, de acordo com o disposto no artigo 210 da Constituição25 estabelece diretrizes para a educação básica:

Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes:

I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e a ordem democrática;

II - consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento;

III - orientação para o trabalho;

IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não- formais.

Pelo texto não há uma obrigação para que os currículos obedeçam ao socialmente vigente, a partir da realidade dos educandos. Isto é importante porque o Estado deve oferecer

24 Pelo artigo 21 da LDBEN, ―a educação escolar compõe-se de: (I) educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; (II) - educação superior‖.

25 ―Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais‖.

o ensino fundamental e, se fosse estabelecida a obrigatoriedade do cumprimento destes incisos, o governo poderia ser cobrado pelo poder judiciário para o cumprimento do preceito

legal. O ―observarão‖, em lugar de ―deverão‖, ou ―cumprirão‖, isenta o poder público, bem como àqueles que ―investem‖ em escolas de ensino fundamental, de uma gama de

responsabilidades. Por outro lado – talvez existam outros lados – também permite relativa liberdade às iniciativas escolares. O que pode parecer estranho é que nesta redação, a educação básica (ensino infantil, fundamental e médio26), não ―forma‖ para o trabalho,

simplesmente ―orienta‖, ao passo que, no Art. 1º, § 2º, a redação é: ―A educação escolar

deverá vincular-se ao mundo do trabalho e a prática social‖. Dentre as finalidades do ensino

Benzer Belgeler