do
à
memória do consolidador da República, o marechal Floriano Peixoto, herói modesto, culto e patriota, que como go
vernante agiu em prol da emancipação do Bras
il
. Afonso Celso, o prefaciado� do livro, aponta as qualidades da obra e do autor. Defende Alvaro Bomilcar da acusação de ser lusitanó fobo e diz que seu nativismo era a expressão de uma força de defesa, conservação e progresso.
Alvaro Bomilcar principia sua reflexão dizendo
"O
Brasiltem uma história honrada, mas pouco interessante; não pela ca rência de fatos dignos de menção ou de sistematizadores emi
nentíssimos, mas por falta de um Michelet, capaz de consubs
tanciá-los numa obra virtual e volitiva,
de a.cordo com os interes�
ses nacionais"
Cp.2). O
autor demanda uma versão histórica que seja orientada pelos interesses nacionais. Seu apelo por um Michelet deixa isso claro quando nos lembramos que ' este au tor se atribuía, enquanto historiador, a obrigação de prestarum serviço
à
pátria. Michelet destacava ser o povo o maioragente do passado .da França. Para ele, o fracasso da Revolu ção se relacionava exatamente com o afastamento deste persona gem coletivo da arena política. Michelet expressava a crença nas virtudes do povo francês, no valor do Exército e no com promisso com o nacionalismo.
Além desta demanda pela construção de uma história de cunho nacionalista, BomiJcar reconhece e assume a interpreta ção de Alberto Torres quando este diz que o destino de um país é função de sua história e sua geografia. A história do Brasil só começará quando a solidariedade entre os habitantes produzir uma consciência de unidade moral, algo que a unida de política está longe de realizar.
O
livro, composto de artigos escritos a partir de1917,
éum texto de propaganda nacionalista. Nele o autor procura analisar as causas do problema da nacionalidade e propor soluções.
134 LÚCIA LlPPI OLIVEIRA
o Brasil perdeu sua consciência nacional; extinguiu-se, aqui, o
desejo de adquirir individualidade própria. Neste sentido, sua questão mais geral é contrapor o nacionalismo ao cosmopolismo: Somos todos condicionados pelo amor, é bem verdade, mas o amor da espécie humana só é proposição verda deira quando se inspira na idéia de família e na concep ção de Pátria. O cosmopolitismo não é uma aspiração dos povos, não é uma necessidade: é uma teoria; e, como toda teoria, filosófica ou política, está sujeita a discus
sões e a contraditas, enquanto que o patriotismo é um sen timento natural, que jamais poderá ser discutido, não sen do possível extirpá-lo do coração humano, sejam quais fo rem o grau de cultura e o poder de abstração a que atin
girem os supostos "espíritos emancipados" (p.
14).
O patriotismo é para o autor um sentimento natural, as sim como a razão é para os iluministas uma faculdade natural. No caso brasileiro, este sentimento natural fundamenta-se em honrosas tradições, na capacidade da nossa raça, na consciên cia das nossas possibilidades e na nossa força. Foram estes princípios que levaram Bomilcar a fundar revistas e impulsio nar movimentos. Cabe indagar, porém, por que este sentimen to natural precisa ser propagandeado. O que desviou este sen timento do seu curso natural? Para responder a essas perguntas temos de destacar aqui as dificuldades e os problemas do nacio nalismo brasileiro, identificando seus amigos e inimigos mais notórios.
O primeiro problema está relacionado, como acreditava Raul Pompéia, com o evento histórico da colonização portugue sa. BomiJcar faz a citação: "Nação nenhuma talvez pecou mais contra a humanidade do que a portuguesa, de que fazía mos_ outrora part�. Andou sempre devastando não só as terras de Africa e de Asia, como disse Camões, mas igualmente as do nosso país. Foram os portugueses os primeiros que, desde os tempos do Infante D. Henrique, fizeram um ramo de co mércio legal de prear homens livres e vendê-los como escravos
nos mercados europeus e americanos" (p.
175,
nota7
b).Ao refazer a leitura da história do Brasil, Álvaro Bomilcar
apóia-se igualmente em Rodrigo Otávio. A República e as aspi rações nativistas foram sempre sufocadas pelo partido português,
A CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA DA NAÇÃO 135
Iítica entre brasileiros e portugueses, "desvantajosa camarada gem entre vítima e o algoz" .
Com a República, houve a esperança de redenção de quin
ze milhões de brasileiros. Floriano Peixoto, orientando a política
no sentido nacional, reagiu contra os açambarcadores estrangei
ros' defendeu a nacionamização do comércio a retalho e rebateu
"esse absurdo culto de duas mães-pátrias" (p.
7).
Esse culto "desvirilizador" renasceu com a morte prematura de Floriano e foi fa vorecido pela desnacionalização da imprensa do Rio de Janeiro.
O
português, antigo senhor, manteve-se "dono do quarto podersocial" - a imprensa -, orientando a opinião pública.
Como podemos ver, o português não só teve responsabili dades no passado como também era responsável por desvios,
por influências negativas, no momento em que o autor escrevia
sua obra. O poder negativo da imprensa, controlada por estrangei
ros, no caso por portugueses, aparece em inúmeros momentos do texto, inclusive quando Bomilcar se refere à SUa obra ante
rior,
O
preconceitode
raça noBrasil,
ignorada pema imprensa.Por defender posições nacionalistas e ser contrário ao domínio português, este mivro foi esquecido e pouco divulgado. Nele,
Bomilcar afmna: "No Brasil rende-se um culto exagerado a
Portugal ( . . . ). Que somos uma colônia de lusitanos, tudo está a indicar, desde a nossa prevenção contra os estrangeiros de outras origens, até a nossa intolerância e hostilidade aos próprios bra sileiros que têm a infemicidade de descenderem mais proxima
mente dos negros e dos espomiados indígenas ( . ..
)
. Só se encontram surtos de progresso e reais manifestaçôes de cultura nos quatso Estados do sul - precisamente naqueles em que a influên
cia portuguesa é nula" (Martins,
1976,
voLVI,
p.76).
O
controle dos portugueses sobre os jornais ftzera a obraA América
Latina, de Manuel Bonfim, ser abafada, e, segundo Bornilcar, também Alberto Torres morreu pouco conhecido por não ter tido o apoio da imprensa'.3 A questão do domínio português sobre a imprensa carioca é analisada por Gilberto Amado em suas memórias. O autor tece comentários sobre a impren
sa do ruo de Janeiro. em especial Sobre o jornal O Pais dos anos de 1910 e
1911, cujo proprietário, O português João Lage, proclamava-se um exilado polí
tico do Portugal monárquico. Amado escreve: "Hoje, quarenta e cinco anos
depois. não se faz idéia entre nós de quanto o Brasil era português. A im
prensa estava, em grande pane. em mãos de imigrantes lusos. Eram portugue
ses o gerente e o cronista do Jornal do Comén:io, o cronista e o gerente do
Correio da Manhã. Era portuguesa a direção da Gazeta de Notícias" (Senna,
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