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Eram grandes as expectativas da sociedade, especialmente de setores sociais mais carentes que compõem a classe trabalhadora, com relação ao governo Lula, no que se refere à resolução dos problemas sociais mais urgentes do país, dentre estes a melhoria da qualidade da educação pública. Esperava-se que fossem adotadas medidas radicais para resolver os problemas sociais que eram gritantes naquele momento.

As propostas deste governo para a educação no período para o qual foi definido esse estudo foram explicitadas nos documentos Concepção e diretrizes do programa de governo do PT para o Brasil – 2003-2005 (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002) e Uma escola do tamanho do Brasil – 2002 (DIRETÓRIO..., 2009).

O documento Concepção e diretrizes do programa de governo do PT para o Brasil (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002) prometia implementar um programa de governo de caráter democrático e popular para o país o que representaria a ruptura com o modelo econômico vigente propondo um modelo de desenvolvimento que seria economicamente viável, ecologicamente sustentável e socialmente justo, que se consolidaria por meio de um esforço conjunto do Estado e da sociedade para resolver os problemas sociais

mais urgentes que afetavam principalmente as camadas mais pobres e menos favorecidas da população.

Para dar conta da construção desse novo modelo de desenvolvimento, o programa de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) apresenta as bases de um programa democrático e popular para o Brasil estruturado sob três eixos: o social, o democrático e o nacional.

No eixo social, apresentam-se as diretrizes para a estruturação da política educacional. No campo da educação esse programa de governo demonstra intolerância com relação à questão do analfabetismo no país, considerando-se, no contexto atual, as exigências no mundo do trabalho e, sobretudo, no exercício da cidadania.

Diferente dos planos dos governos anteriores, que elegeram como prioridade o ensino fundamental de 7 a 14 anos, este governo propõe a universalização da educação básica, que compreende a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, bem como a redução da evasão escolar, tendo como principal preocupação a qualidade do ensino. Neste sentido o governo se propôs a reverter o processo de municipalização em curso e estabelecer um novo marco de solidariedade entre os entes federados. Considera-se, pois, a necessidade de se elevar a escolaridade média da população bem como o fomento ao ensino profissionalizante e de segundo grau (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002).

Tais proposições foram detalhadas em um segundo documento, lançado em agosto do mesmo ano pelo PT, Uma escola do tamanho do Brasil (DIRETÓRIO..., 2009), que foi elaborado pelo Grupo de Trabalho da Área de Educação, Ciência e Tecnologia do Partido dos Trabalhadores e apresentado como o Programa do Governo Lula para as áreas de Educação, Ciência e Tecnologia, no qual estão definidos os objetivos, metas e ações para os quatro anos de governo. Por meio desse documento o Partido dos Trabalhadores propõe um projeto de educação para o país fundamentado em três diretrizes básicas, quais seriam: democratização do acesso e garantia de permanência; qualidade social da educação, e; democratização da gestão da educação (DIRETÓRIO..., 2009).

Esse programa de governo compreende que, para democratizar a gestão da educação, é necessário subordinar o aparelho administrativo às exigências da democracia e, para isso, pretende adotar uma dinâmica de funcionamento interdisciplinar e descentralizado de forma que possibilite a participação da sociedade nas diversas instâncias de definição das políticas públicas.

Com o intuito de promover a democratização da gestão educacional o governo assume, por meio desse documento, o compromisso de

criar canais orgânicos de participação, autônomos, democráticos, representativos, paritários e articulados entre si, desde a unidade escolar até o nível mais geral do sistema de ensino, em que a escolha dos representantes em órgãos colegiados e dos dirigentes das unidades escolares em todos os níveis seja feita, mediante eleição direta, pela comunidade (DIRETÓRIO..., 2009, p. 10).

Visando a concretização da diretriz relacionada à democratização da gestão da educação o governo compreende que seria necessário: 1) implantar um novo Conselho Nacional de Educação de caráter normativo e deliberativo; 2) criar o Fórum Nacional de Educação que seria encarregado de promover Conferências Nacionais Quinquenais para construir, avaliar e acompanhar o Plano Nacional de Educação; 3) estabelecer as normas para aplicação de recursos nas três esferas de governo; 4) instituir o Fundo de Educação Básica (FUNDEB); e, 5) regulamentar, por meio de lei complementar federal, o Artigo 23 da Constituição Federal (BRASIL, 2007a) que trata das normas de cooperação entre os entes federados federal, estaduais e municipais.

Um compromisso importante assumido também pelo governo Lula foi o de rever os vetos do governo FHC ao Plano Nacional de Educação o que deveria garantir o aumento de investimentos em educação, elevando-os para 7% do PIB num prazo de dez anos. Tais proposições, no entanto, sequer foram discutidas e o governo, no período de 2003 a 2006 contabilizou gastos de apenas 4,2% do PIB, bem abaixo do que previa o PNE.

Dourado (2007) chama a atenção para o cenário ambíguo que se constitui num verdadeiro paradoxo no sistema educacional do país mostrando que enquanto, de um lado, um conjunto de programas parece avançar na direção de políticas de caráter inclusivo e democrático, de outro, tem prevalecido a ênfase gerencial marcada pelo viés tecnicista e produtivista. O autor destaca que grande parte das políticas educacionais só vieram ser reorientadas a partir de 2003, ocasionando alterações nos marcos regulatórios vigentes. A atuação desse governo, no seu entender, pautou-se no princípio da defesa da educação de qualidade norteada pelo binômio inclusão e democratização.

Numa perspectiva estrutural, a grande inovação proposta neste período foi a criação do Fundo de manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos

profissionais da Educação (FUNDEB) o que também não garantiu o aumento significativo de recursos para a educação, mas o redimensionamento dos gastos públicos nesta área, contemplando, também, as etapas inicial e final da Educação Básica – a Educação Infantil e o Ensino Médio. E, enquanto política de ação afirmativa, destaca-se a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos.

Na área da gestão educacional esse governo manteve alguns programas implantados no governo anterior, uns reformulados e outros em formato original, como o Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE) e o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE). Muitos outros programas foram criados e implantados com o intuito de contribuir para o processo de a democratização da escola. Nesse campo merece destaque a criação do Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares16. A partir da implantação desse programa o MEC entende que se faz necessária a implementação de vários mecanismos de participação com vistas ao compartilhamento da tomada de decisões apontando, dentre outros, o aprimoramento dos processos de provimento do cargo de diretor (BRASIL, 2007b).

Compreende-se, portanto, que a efetivação da gestão democrática da escola se dará por meio da garantia de mecanismos de participação e também de condições para que os espaços de participação, compartilhamento e descentralização das decisões possam se tornar realidades concretas.

Benzer Belgeler