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TRANSKRİPSİYON ALFABESİ

Os 48 laudos relativos à Tirol (19), Petrópolis (25) ou à “Cidade Nova” (04) datados da década de 1940 foram elaborados principalmente por meio do IAPC (20), do IAPB (12) e do IAPI (10), restando poucos exemplares do IPASE (01) e das Caixas (03). Ao utilizarem-se dos modelos do Instituto dos Industriários, os avaliadores reforçaram e ratificaram sua imagem de áreas “residenciais” e “modernas” por excelência, conforme haviam sido concebidas. Também o classificaram, em 45% dos casos, como de tipo “médio” (09 - 45%), mas também “médio e de luxo” (06 - 30%) ou simplesmente “de luxo” (04 - 20%). Wilson Miranda, ao referir-se a Petrópolis em 1950152, diria ainda que era “dos melhores [bairros] da cidade”, mais especificadamente, “pelo seu traçado urbanístico, sua situação, bem como pelo padrão das residências existentes”. Esses aspectos – por si – tornariam, segundo ele, “os seus terrenos valorizados e de preço sempre crescente”.

Pouco se evidenciou acerca dos equipamentos de uso coletivo, pois esse tema não era contemplado nos formulários do IAPI e do IAPC e não foi observado na maioria dos registros do IAPB e do IPASE. Figurou apenas em três casos do primeiro e um do segundo. Esses especificavam “escolas”, “igreja” e “diversões”, os quais foram detalhados pelo IPASE – “colégios primários e secundários, públicos e privados”; “associações recreativas”, “parque” e “playground, retretas, sports”, perfil que se distinguia daquele apontado na Cidade Alta em avaliações do mesmo instituto, ao privilegiar a prática de atividades ao ar livre. Hospital e dispensário também foram assinalados pontualmente, em laudo anterior à remoção do último equipamento para local mais afastado. A ausência de cinema e comércio foi, por sua vez, criticada como aspecto negativo por Wilson Miranda, em 1950.

141 Assim como verificado em relação aos outros bairros, as condições de higiene e conforto não foram avaliadas de forma consensual, sendo consideradas “boas” (03) e “relativas” (02), por Mário Bandeira, embora não “sofríveis”, como no Alecrim e Cidade Alta. Na escala dos logradouros foram tidas, em geral, como “boas” (05 casos), mesmo quando era apontada a falta de água e esgoto – caso de um trecho da Rua Mipibú, segundo laudo de Sebastião Medeiros153. Contribuía nesse sentido a ciência dos princípios higienistas que orientaram o desenho das vias e regulamentação das construções. Além disso, as ruas onde se situavam as casas dispunham, em sua maior parte, de água (23 - 88%) e uma parcela significativa também de esgoto154 (12 - 46%). A carência desses serviços só ficou registrada em três laudos (11%), dois dos quais tratavam de unidades de baixo padrão construtivo, uma de taipa, financiadas pelo IAPI em setor até então mais periférico de Tirol, à Rua Joaquim Fagundes, e de Petrópolis, à Rua Dois de Novembro. Essa última estaria situada, segundo Mário Bandeira155, num “bairro antigo e proletário”, bastante distinto daquele “moderno”, “médio” e/ou “de luxo” no qual estava oficialmente inserido. Tratava-se do chamado “Alto do Juruá”, área ocupada por pescadores desde fins do Século XIX no monte Petrópolis, que, segundo Souza (2008) cresceu mais rapidamente ao longo da década de 1950 – assim como Mãe Luiza –, em decorrência da instalação de retirantes das secas nessas localidades.

A principal infraestrutura ausente nas ruas avaliadas era pavimentação, aspecto reiterado em 88% dos laudos com essa informação (17), o que não se correlacionava necessariamente com o padrão das edificações financiadas ou com o instituto. A ressalva “plano de melhoramento aprovado”, identificado em três deles156, sinalizava que a superação dessa situação seria, no entanto, apenas uma questão de tempo. Assim, além das características urbanísticas, as perspectivas de obras – de maneira análoga à Cidade Alta –, assinaladas pelos avaliadores, contribuíam com o maior valor relativo do solo nessas regiões. Também em termos de acessibilidade ao centro, via transportes coletivos – ônibus e bondes –, percebe-se que os tempos de percurso estimados eram relativamente menores, em geral, que apontados nos laudos do Alecrim.

As descrições dos bairros de Tirol e Petrópolis na década de 1950 e 1960 apresentam, por sua vez, maior riqueza de detalhes, sobretudo no que concerne aos equipamentos e serviços coletivos. Nos 40 laudos do IAPB, os avaliadores destacaram nos “arredores” das casas a

153 A residência cuja construção era avaliada tinha, apesar disso, padrão elevado. Acervo INSS, caixa 3, pasta 31. 154 Esse dado relativo à presença de esgoto aparece, por vezes, de forma dúbia nas avaliações, sendo por vezes

assinalado positivamente devido à instalação de fossa séptica, e não necessariamente a ligação a uma rede coletiva.

155 Acervo INSS, caixa 03, pasta 24, 1946.

142 presença de igreja, a Matriz de Santa Terezinha (14 citações – 70%), “praça com playground” – referindo-se provavelmente à Praça Pedro Velho (12 – 60%), e, sobretudo, instituições de ensino de maneira geral (17-85%)157. Com menos recorrência, citaram equipamentos de saúde (05 - 25%) – hospitais e maternidades –, as quais haviam crescido em número, devido à inauguração da Maternidade Januário Cicco158, em 1950, e da Casa de Saúde São Lucas, em 1952. Provavelmente por se situarem em locais mais distantes de onde se procediam as avaliações, foram pouco referidos os clubes (03 - 15%) e o parque da Lagoa Manoel Felipe – destacado em 04 de 14 avaliações posteriores à inauguração, em 1962 (28%). O estádio de esportes, Juvenal Lamartine, e a praia foram ainda citados, mas apenas pontualmente.

Por meio dos laudos do IPASE, Tirol e Petrópolis seriam melhor categorizados que no momento anterior como bairros “de luxo” (40%) ou “médio e de luxo” (20%). Nas palavras de Milson Dantas, em 1958, tratava-se “de um bairro de classe, com muito transporte e vida social elevada” e Tirol seria, segundo Kleber Bezerra, em 1963, "o mais valorizado da cidade"159. As escolas também foram citadas praticamente em todos os laudos, e, em seguida, destacaram-se os equipamentos de saúde – hospitais (12 – 60%) dispensário (3), policlínica (6) – e os clubes ou associações recreativas (12 – 60%), e, em menor proporção, “parque” (9 – 45%) e playground (5 – 25%). Em dois documentos, ressaltou-se a condição de “bairro na orla marítima”160, evidenciando a crescente tendência de incorporação desse fator à imagem de Petrópolis, ou ainda, a maior proximidade das casas financiadas à praia, estando ao menos duas delas à beira mar161. As obras de urbanização realizadas anteriormente, durante a prefeitura de Sylvio Pedroza, colaboraram, decerto, nesse sentido.

As perspectivas de valorização e a qualidade dos bairros, “dos melhores da cidade”, continuaram a ser reiteradas, bem como a crescente valorização dos imóveis, conforme se pode ver nos trechos dos laudos de Wilson Miranda e Kleber Bezerra, de 1962 e 1964, respectivamente:

157 Mais detalhadamente, citaram: as faculdades (11– 55%) – de medicina, direito, serviço social e filosofia – e os

colégios estaduais (11), o Ginásio 07 de setembro e o Instituto de Educação, novo edifício do Atheneu, e, em menor proporção, o Jardim de infância Modelo (5), instalado em 1956. Pontualmente, evidenciaram ainda o Instituto Maria Auxiliadora, inaugurado em 1951 e a Escola Doméstica.

158 O edifício, conforme mencionado anteriormente, fora concluído nos anos 1940, mas antes que funcionasse como

maternidade passou a abrigar o Quartel General das Forças Aliadas e Hospital de Campanha, no contexto da II Guerra Mundial. Após o fim do conflito, foi necessário retomar o projeto de implantação da maternidade, executar reformas e reparos no edifício, que só passou a funcionar efetivamente como Maternidade em 1950.

159 Acervo INSS, caixa 12, pasta 115 e caixa 69, pasta 612, respectivamente. 160

Acervo INSS, caixa 1, pasta 2; caixa 52, pastas 462 e 163.

161

143 O terreno está situado em rua muito boa [Ceará-Mirim] do bairro residencial Tirol, onde construções várias de padrões médio, bom ou mesmo elevado e a procura de terrenos estabeleceram uma valorização rápida, justificável pelo clima, traçado urbanístico e pelos melhoramentos existentes de água, luz, esgotos, pavimentação e transportes (ACERVO INSS, caixa 51, pastas 456, 457 e 458).

***

(...) O prédio fica localizado em um dos melhores bairros residenciais da cidade, em rua nova [Alberto Maranhão] onde existem várias construções novas de alto gabarito (ACERVO INSS, caixa 16, pasta 146).

Outra avaliação de Wilson Miranda, em 1962, mostra ainda a ocupação desses bairros “nobres” mediante a abertura de novas ruas sem redes de abastecimento de água, em áreas mais próximas ao centro que outros trechos previamente planejados, ocupados e dotados de infraestrutura:

Os terrenos da Rua Progresso e de outras ruas próximas eram sítios com fruteiras até há poucos anos, não tendo sido beneficiados com a rede do Departamento de Saneamento do Estado, quando a mesma foi lançada porque então as ruas não existiam. Outros locais mais afastados, urbanizados anteriormente, receberam esse melhoramento e (...) apresentam hoje (...) muitas casas de padrão alto. Muitas construções têm surgido nestas novas ruas mesmo sem a existência da rede distribuidora de água (que já está projetada), prevendo- se uma alta de valorização para esses imóveis, dentro de breve tempo (ACERVO INSS, caixa 24, pasta 225).

Esses sítios configuravam-se provavelmente como vazios urbanos, mantidos à espera de valorização promovida pela ocupação daquelas áreas mais distantes. A constatação da falta de serviços de abastecimento de água ou de esgotos não implicava, contudo, qualquer ressalva à salubridade do bairro ou às condições de higiene, indicando que a questão do saneamento passara, conforme observou Dantas (2003a), ao segundo plano no direcionamento do crescimento da cidade.

A síntese das ponderações dos avaliadores sobre essas três localidades, no decorrer de dois decênios (1944-1964), traz elementos sobre a constituição de visões hegemônicas sobre a realidade urbana natalense e suas transformações, dada a perspectiva da formação dos valores imobiliários. Destaca-se a diversidade de leituras que cada “bairro” – oficialmente delimitado – comporta, seja devido à própria heterogeneidade interna, seja pelas variações na interpretação dos parâmetros e conceitos pré-estabelecidos pela instituição, quanto à categorização do espaço, segundo classes sociais, usos e temporalidades. No capítulo seguinte, apresenta-se, igualmente, uma reconstituição da leitura dos laudos acerca das edificações residenciais em si.

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Benzer Belgeler