O debate público ampliado envolvendo a sociedade brasileira acerca do tema surge quando do encaminhamento, em 2003, ao Congresso, do projeto de biossegurança. O projeto propunha a regulamentação e o estabelecimento de regras para a pesquisa, cultivo e comercialização dos organismos geneticamente modificados (OGM), entre eles as células-tronco e os alimentos transgênicos, e substituir a legislação de 1995, descaracterizada por inúmeras medidas provisórias e decisões judiciais.
O eixo inicial das discussões em torno do projeto se deu em relação à legalização do plantio de soja e outros alimentos transgênicos em território nacional para, a seguir, dar espaço às discussões acerca do uso de células- tronco embrionárias. No primeiro momento, os principais opositores ao projeto eram os movimentos sociais e grupos ligados às questões ambientais. O segundo momento das discussões apresenta maior intensidade a partir de 2004. Tratava-se da questão da clonagem de seres humanos para fins terapêuticos, o que dividiu a comunidade científica e encontrou rejeição da sociedade civil e de comunidades religiosas. Posteriormente, a discussão direcionou-se para o uso de embriões nas pesquisas com células-tronco, reagrupando a comunidade científica em torno do grupo de defesa, e em oposição aos grupos contrários ao projeto, fortemente influenciados por doutrinas cristãs. A sociedade ficou dividida. Entretanto, era forte o apelo humanitário trazido pelas pesquisas com células-tronco embrionárias:
possibilidades de serem tratadas as doenças degenerativas e quadros decorrentes de acidentes. Parcela significativa da população apoiou o projeto. A mídia colaborou ao apoiar o argumento dos benefícios de tratamentos e ceder espaço aos especialistas para defenderem a proposta. O projeto de biossegurança tramitou no Congresso por cerca de dois anos, até ser caracterizado nos termos da lei, em outubro de 2005 (lei 11.105/05), com a sanção presidencial. Por meio dessa lei, cientistas podem manipular, para pesquisa, embriões obtidos por fertilização in vitro congelados há mais de três anos e sob autorização dos fornecedores do material genético.
O artigo 5o da lei 11.105/05 diz:
“Art. 5o É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento, atendidas as seguintes condições:I – sejam embriões inviáveis; ou, II – sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais, na data da publicação desta Lei, ou que, já congelados na data da publicação desta Lei, depois de completarem 3 (três) anos contados”.
Houve reação das pessoas vinculadas ao governo em torno do projeto de lei.
No dia 30 de maio, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no STF, contra o artigo da Lei de Biossegurança. Para Fonteles, as pesquisas vão contra o artigo 5º da Constituição, que garante o direito à vida. Segundo ele, a vida começa na fecundação, e os pesquisadores estariam destruindo um embrião:
"por certo inobserva a inviolabilidade do direito à vida, porque o embrião humano é vida humana, e faz ruir fundamento maior do Estado democrático de Direito, que radica na preservação da dignidade da pessoa humana. É, objetiva e certamente, mais promissora que a pesquisa com células- tronco embrionárias, até porque com as primeiras resultados auspiciosos acontecem, do que não se tem registro com as segundas"( Folha de S. Paulo, Ciência, página: A14, 31/05/05).
O então ministro da saúde, Humberto Costa, no programa Diálogo Brasil73, se posicionou:
"Esperamos que o parecer da maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal seja pela garantia da constitucionalidade da lei". O ministro afirmou que as células embrionárias têm mais capacidade de se diferenciar do que as adultas, e por isso manifestou a posição do governo de que elas possam ser usadas em pesquisas no Brasil. "Confio no bom-senso do STF, pois se trata de um artigo muito importante para o desenvolvimento do país”. (Programa Diálogo Brasil, TV Cultura, 08/06/05)
Ainda com a liberação do uso de células-tronco aprovada na Lei de Biossegurança 11.105/05, ficou fora a questão em torno da geração de embriões especificamente com a finalidade de pesquisas ou tratamentos, inclusive com a compra de óvulos e sêmen para essa produção.
A presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado, senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), afirmou:
73 O Diálogo Brasil é parceria entre a Radiobras, TV Cultura de São Paulo e a TVE Brasil do
Rio de Janeiro. O programa é mediado pelo jornalista Florestan Fernandes Jr. e exibido ao vivo todas as quartas-feiras, com uma hora de duração, integrado à rede pública de televisão, sendo veiculado em 19 Estados e no Distrito Federal. O programa citado foi apresentado no dia 8 de junho de 2005, sobre o tema” Discussão sobre o uso de células-tronco embrionárias”. Participaram o então ministro da Saúde, Humberto Costa, Lenise Garcia (professora da Universidade de Brasília (UnB), especialista em microbiologia), Cláudia Batista (professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Mayana Zatz (professora da USP, especialista em genética humana).
“a decisão não implica retrocesso nas pesquisas científicas, até porque não é uma técnica totalmente desenvolvida e pode aguardar uma nova iniciativa do governo. A iniciativa precisa ser do Executivo, e o governo poderá enviar ao Congresso um projeto de lei para regulamentar especificamente a “clonagem terapêutica”. Segundo a senadora, procedia a preocupação dos parlamentares ligados à Igreja, que "se sentiam inseguros em liberar a clonagem sem instrumentos que pudessem coibir o mau uso pelos inescrupulosos". (Jornal do Senado. Ano X – Nº 2.010 – Brasília, quinta-feira, 16 de setembro de 2004, p. 4)
4. FATORES DE CONFLITOS EM TORNO DO USO DE CÉLULAS-