• Sonuç bulunamadı

1. GİRİŞ ve AMAÇ 1-

2.2 KML’de Tedavi

3.1.2 ELISA Çalışmaları

3.1.2.5 Total Nitrik Oksit Düzeylerinin Saptanması 40-

As regras do Telecentro para uso das instalações e das máquinas foram sendo estabelecidas pelas instrutoras e usuários a partir das relações estabelecidas no uso cotidiano. O empréstimo da chave implicava no seguimento de algumas regras para uso do Telecentro como, por exemplo, zelar pelo bom uso dos equipamentos e monitoramento de outros usuários do local. Não registrei, conforme já visto em outros locais públicos, regras de uso ou normas de funcionamento pré-estabelecidas em cartazes ou em outros formatos. As regras foram definidas oralmente pelos usuários, sendo que os comportamentos, atitudes, tensões no interior do Telecentro foram construídos com base nos valores dos próprios usuários e administrados por eles. Não

foi evidenciado, durante o trabalho de pesquisa, qualquer tipo de discussão entre os usuários, no interior do Telecentro, como também não percebi qualquer tipo de desavença mais acalorada entre os moradores da comunidade. Advirto ao leitor que essa minha constatação não tem a força de revelar se essa interpretação é ou não compartilhada pelos membros da comunidade, por não ter sido do nosso interesse investigar os tipos de conflitos sociais existentes entre seus moradores.

Para uma boa convivência no Telecentro, Clara, uma das responsáveis pelo espaço e que, na maioria das vezes, estava presente quando o Telecentro estava aberto, pois era ela uma das instrutoras responsáveis pela chave, procurava controlar as tensões que emergiam no local, solicitando aos usuários que falassem baixo, que não ficassem ligando e desligando os computadores, pedindo cuidado com os equipamentos quando batiam ou davam solavancos no mobiliário, ou quando a emoção ficava exacerbada com o jogo, chamando a atenção dos usuários, à semelhança do comportamento solicitado pelos professores na sala de aula. Não foi registrado no diário de campo qualquer atitude de autoritarismo e exclusão ou pessoas que se sentiam ameaçadas por qualquer tipo de conduta no espaço e em relação ao acesso a fontes de informação fora de controle.

A faixa etária média dos frequentadores era de 7 (sete) a 25 (vinte e cinco) anos, sendo que as crianças eram frequentadoras assíduas do Telecentro. Os usuários na faixa etária de 7 (sete) a 12 (doze) anos perfaziam um total de 12 crianças, que frequentavam o Telecentro com a finalidade de jogar diversos tipos de jogos, como corridas de carro, labirintos, de obstáculos e memória. Os adolescentes na faixa etária entre 13 (treze) e 18 (dezoito) anos eram em sua maioria estudantes do ensino fundamental e médio, perfazendo um total de aproximadamente 25 adolescentes. Os adolescentes frequentavam em dias e horários diferentes para diversas finalidades: pesquisas escolares, jogos diversos, acesso às redes sociais, busca por informações em geral na internet, baixar músicas, busca por vídeos e imagens, desenhar. Os usuários acima de 18 (dezoito) anos eram acadêmicos, donas de casa, moradores da comunidade em geral, perfazendo um total de 15 pessoas que utilizavam o Telecentro para pesquisas acadêmicas, realização de trabalhos escolares, acesso às redes sociais, baixar músicas, buscar informações. Não foi registrado durante a pesquisa o uso do telecentro por moradores da 3ª idade.

Desde a primeira vez em que fiquei no Telecentro para realização da pesquisa, as crianças na faixa etária entre 7 (sete) e 12 (doze) anos pediam para entrar no

Telecentro com o intuito de acionar os jogos instalados nos computadores, principalmente na parte da tarde, horários em que estavam sem atividades escolares. Sempre que eu chegava ao Telecentro, lá estavam elas na área central da comunidade ou ao lado do Telecentro me esperando para que pudessem entrar e jogar nos computadores. A minha frequência no Telecentro alterou os usos pelos moradores da comunidade pelo fato de disponibilizar horários que normalmente o Telecentro ficava fechado. Muitas vezes, ao saírem da escola e me verem no Telecentro, comentavam: “A dona do Telecentro taí”; ou então me perguntavam: “Tia, tia, a gente pode ‘vim’ hoje”. Eu sempre respondia ‘sim’. Essa referência como “dona do Telecentro” foi sendo construída a partir da percepção das crianças da minha longa permanência no Telecentro para a realização da pesquisa.

É possível que essa referência estivesse relacionada às questões de funcionamento do local, uma vez que minha presença em horários em que normalmente o Telecentro não ficava aberto facilitou o acesso das crianças para utilizarem às

máquinas. A referência “dona” pode estar relacionada à identificação de tia, professora,

ou seja, uma pessoa mais velha, responsável pelo gerenciamento de proibições e possibilidades dentro da sala de aula.

Essa interpretação foi importante por me proporcionar o entendimento de quem era o interlocutor para o qual os meninos estavam se dirigindo e as consequências dessa

referência de “dona” para as relações com essas crianças no Telecentro.

Alguns detalhes da frequência das crianças me chamaram atenção. Primeiramente, notei que as ações das crianças no Telecentro tinham uma semelhança

Figura 37: Meninos da comunidade de Paineiras. Fonte: Acervo da pesquisadora.

com o comportamento típico da sala de aula. Ao chegarem, eles pediam permissão para entrar, à semelhança do comportamento na escola, onde são submetidas a diversas normas, dentre elas a de pedir licença para entrar na sala de aula. Foucault (2005), em suas discussões sobre o conceito do poder disciplinar, afirma que o sistema disciplinar incide de forma implacável sobre a vida do sujeito em todas as instituições pelas quais transita. Ao entrarem no Telecentro, as crianças perguntavam se podiam sentar à mesa e jogar nos computadores; somente depois da minha aprovação, ligavam as máquinas. Durante o jogo, demonstravam os repertórios de ações disciplinares advindos da escola, como mandar o outro calar a boca, sentar-se, falar baixo. Como também na hora de encerrar as atividades, eles concordavam em sair do Telecentro sem oferecer resistências. Percebi, portanto, que havia uma submissão semelhante à lógica das culturas escolares.

Com o passar do tempo, o comportamento semelhante ao da escola ia se atenuando; as crianças pareciam se esquecer do código disciplinador da escola e como em uma rede de antidisciplina (CERTEAU, 1994) iniciavam com as brincadeiras, os corpos permanentemente em movimento; deslocavam-se no espaço, sentavam-se na cadeira do companheiro para olhar o jogo do colega; gritavam ao passarem de uma fase para outra no jogo ou, quando isso não acontecia, xingavam.

A observação do ato de jogar permitiu-me perceber também que durante o jogo, no momento antes de passar de uma fase para a outra, algumas crianças faziam o gesto de sinal da cruz. O sinal da cruz é distintivo da identidade da igreja católica, uma prática que combina gestos e palavra para o alcance de bênçãos para a pessoa. Dessa forma, as crianças traziam para o ato de jogar no computador as práticas relacionadas ao gesto sagrado, revelando o valor da religião também para elas. Pode-se inferir que eles relacionavam suas práticas de jogar com o conteúdo simbólico religioso internalizado através das práticas religiosas dos adultos na comunidade.

Outro hábito das crianças que me chamou atenção foi o de tirarem as sandálias antes de entrarem no Telecentro. A remoção das sandálias evitava que a poeira e a sujeira do exterior fossem levadas para a sala. Hábito esse que foi presenciado frequentemente ao visitar as casas em Paineiras, numa demonstração de respeito pelo lugar e distinção do espaço da rua, do entorno para o espaço privado, como o espaço do lar e do Telecentro.

Esse olhar para o cotidiano permitiu-me vislumbrar a dimensão do significado da ambiência do Telecentro para o conjunto das relações sociais que ocorrem no seu interior. Essa dimensão se assemelha ao comportamento típico da escola, mas que é subvertido quando os frequentadores percebem a liberdade de ação e a falta de uma ordem social imposta pela figura de um adulto ou mesmo a de um professor. Os frequentadores também trazem para o interior do Telecentro as práticas religiosas e

hábitos cotidianos, parecendo que viam o espaço como um “ambiente familiar”. De fato

os frequentadores, sendo todos moradores da comunidade, eram, em sua maioria, parentes consanguíneos, reforçando ainda a liberdade de conduta nas relações.

Figura 38:Chinelos na porta do Telecentro. Fonte: Acervo da pesquisadora.

Benzer Belgeler