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TORTOY KAPSAMINDA ARAÇ KATEGORİLERİ

Entende-se que a imagem (desenhos, colagens, experimentações gráficas, poemas visuais) é norteadora no processo criativo do de Sebastião Nunes. Ao privilegiar a iconicidade e o não- verbal, ao diagramar suas páginas, ele está inserido na categoria de “artistas e poetas que reivindicam a reintegração da iconicidade e da espacialidade da escrita em suas práticas artísticas. Escrever e colar tornam-se verbos que recobrem gestos e práticas de mesma natureza,

indiferenciáveis”.356 Ao narrar, como escritor antropófago, de forma transgressora, faz do seu processo criativo o seu discurso literário e sua estética.

Mesmo com a primazia das imagens, porém, pode-se encontrar nas obras nunianas diferentes relações entre a imagem e o texto, segundo a classificação de Leo Hoek.357 Torna-se necessário averiguar fragmentos de cada obra, para que seja possível entender como se estabelece a estética nuniana pelas colagens. Porém, primeiramente, cito aqui a classificação de Hoek, a partir do seu texto “A transposição intersemiótica; por uma classificação pragmática”.

Leo Hoek defende a hipótese que, ao se discutir a relação de texto e imagem, seria necessário a anulação da natureza intrínseca do texto ou da imagem, e que prevalecesse sua leitura a partir da situação de comunicação relativa à produção e à recepção:

A sucessividade (texto existindo antes da imagem, ou imagem existindo antes do texto) caracteriza a perspectiva da produção; a simultaneidade (texto situado em uma imagem, imagem situada em um texto, texto próximo a uma imagem, imagem próxima a um texto) determina a perspectiva própria da recepção.358

Nessas condições, para o autor, a classificação de uma imagem sob o ponto de vista da recepção e da produção pode ocasionar situações diferentes, porque uma mesma imagem pode acarretar tanto a primazia do texto quanto da imagem.

Quando se escolhe a perspectiva da recepção (do leitor), pode-se ter a apresentação simultânea,

“quando discurso visual e discurso verbal são combinados – como no discurso misto (cartazes,

356 ARBEX. Poéticas do visível; uma breve introdução. In: ______. Poéticas do visível: ensaios sobre a escrita e a imagem, p. 29.

357 HOEK. A transposição intersemiótica: por uma classificação pragmática, p. 167-187. 358 HOEK. A transposição intersemiótica: por uma classificação pragmática, p. 168.

selos, propagandas) – ou imediatamente justapostos – caso dos livros ilustrados”.359 Há também

a situação de correferência, quando texto e imagem são autônomos, ou comparados, “em virtude

de correspondências históricas, individuais ou coletivas”.360 Nota-se, ainda, que, na correferência, as relações texto e imagem serão de responsabilidade do leitor (sujeito-receptor), que deve estabelecer as aproximações.

Leo Hoek também atenta para a distinção dos três tipos de relações físicas entre o texto e a imagem, a saber: do ponto de vista da produção: i) a primazia da imagem, e ii) a primazia do texto; do ponto de vista da recepção: iii) a apresentação simultânea do texto e da imagem. Na primazia da imagem, esta se constitui como critério, sendo assim, a relação se dá a partir do discurso verbal, no qual o texto pressupõe a imagem. Pode-se ter, então, uma relação

“multimedial”, quando o texto tem a função de nomear e identificar a imagem. Na relação “transmedial”, a transposição intersemiótica se faz de uma obra de arte não-verbal a uma outra,

verbal. Acontece quando há comentários, críticas, manifestos; quando há explicação, descrição. Também pode ocorrer uma situação de rivalidade, quando o autor, a partir da poesia, tenta transpor (poetizar) uma imagem pela escrita. Também, na primazia da imagem, pode ocorrer a descrição de uma obra de arte; seria um relato de uma obra de arte em um texto narrativo, mas

podendo ocasionar um efeito estático, como um quadro, ou em uma “realidade dinâmica”,361 que pode vir a ter diferentes funções na narrativa: psicológica (caracterização dos personagens); retórica (produção de efeito nos personagens); estrutural (projeção da estrutura pictural sobre a obra literária) e ontológica; a obra de arte simboliza o próprio sentido da obra literária.

Sobre a primazia do texto; é previsto que o texto é que inspire a imagem. A ilustração seria o exemplo mais previsível dessa relação e, quando ambos são autossuficientes, serão reconhecidos como obra multimedial. Pode-se, também, como é bastante comum, resultar na relação de intertextualidade transmedial, quando uma obra de arte é inspirada por temas literários e filmes realizados a partir de romances.

A “simultaneidade do texto e da imagem” se dá quando há perda da autossuficiência tanto do

texto quanto da imagem. Se cada um mantiver sua própria identidade, ter-se-á um discurso misto, como em selos, cartazes, quadrinhos, letreiros, legendas e títulos; e, caso haja fusão, um

359 HOEK. A transposição intersemiótica: por uma classificação pragmática, p. 170. 360 HOEK. A transposição intersemiótica: por uma classificação pragmática, p. 170. 361 HOEK. A transposição intersemiótica: por uma classificação pragmática, p. 176.

discurso sincrético, como o caligrama, a tipografia. O que pode contribuir no entendimento do discurso sincrético é o valor que se pode atribuir ao grau de iconicidade (imagem) e simbolicidade (texto) dessa relação.

Para Leo Hoek, todos esses critérios, a primazia tanto da imagem quanto do texto, bem como a simultaneidade, em uma transposição intersemiótica, são coerentes como procedimento de uma classificação pragmática, por reconhecerem a contextualização do que será avaliado a partir da situação de comunicação relativa à produção e à recepção.

Nesse sentido, em seguida, será feita a análise de algumas colagens, em seus contextos, nas diferentes obras de Sebastião Nunes. Todas serão examinadas sob o ponto de vista da recepção. São elas: Antologia mamaluca I e II (1988/1999), Sacanagem pura (1995), Decálogo da classe média (1998), Somos todos assassinos (2000), Elogio da punheta (2004), e a compilação de suas crônicas jornalísticas, Adão e Eva no paraíso amazônico, de 2009. Nota-se que História do Brasil, de 1992, foi editada na compilação das duas antologias.

Benzer Belgeler