As rodelas foram manufaturadas por modelagem. Através de uma quebra acidental e de alguns pontos de erosão notamos que os antiplásticos/temperos são os mesmos identificados na pasta A (pequenos cacos-moídos, cauixi, matéria orgânica e quartzo). A queima observada é completamente redutora.
A peça nº 1 possui um diâmetro de 4,5cm e 2,5cm de espessura. O furo em seu centro mede 0,5cm de diâmetro. Seu peso é 49,5g, com a porosidade da pasta de 14%.
166 Apresenta uma seção metade cônica e metade troncônica, com a extremidade deste segmento levemente côncava.
A peça nº 2 apresenta 4cm de diâmetro e 2,5cm de espessura, com o furo central medindo 0,5cm de diâmetro. Seu peso é 33,9g, com a porosidade da pasta de 17%. Apresenta uma seção bicônica.
A peça 3 é a menor de todas. Possui 3,5cm de diâmetro e 2,2cm de espessura, com o furo central medindo 0,3cm. Pesa 19,7g com uma porosidade da pasta na ordem de 16%. Apresenta uma seção semelhante à peça 1, com seção metade cônica e metade troncônica, no entanto, a extremidade desta é plana ao invés de levemente côncava.
Com relação aos furos realizados nestas três peças, só percebemos o sentido de sua produção apenas na peça 3: ele foi feito da parte cônica para a plana, visto que nesta encontramos um acúmulo de matéria advinda no momento da perfuração, quando a pasta estava ainda úmida. Curioso é que o furo nesta peça não é reto como das outras duas peças e sim oblíquo. Na página seguinte, apresentamos fotos destas peças junto a um desenho dos cortes das mesmas com indicação do sentido dos furos.
As três peças foram encontradas no Quadrado dos potes na escavação de 2010. A peça número 1 estava na quadra H10 e as outras estavam na quadra G8. Estas duas distando 43 cm entre si. Como não estavam em superfície sofreram pouca ação erosiva. Apresentam uma superfície bem alisada, porém, sem marcas de alisamento como acontece na superfície dos potes. Identificamos um negativo de lasca na peça nº 2. Ao que indica o contra bulbo, a pancada se deu na extremidade lateral da peça, ponto com ângulo mais agudo, como demonstram as fotos 38 e 39.
Atribuir uma função a estas peças é algo um tanto complicado. Com lupa binocular e microscópio ótico intentamos observar algumas marcas nas extremidades de cada pequeno orifício, talvez um polimento causado por movimentos repetitivos e/ou desgastes pontuais, mas nada encontramos.
Comumente estas peças são chamadas de fusos por analogia com rodelas utilizadas em tortuais de fuso para a produção de fios, estes, ulteriormente utilizados para as mais diversas artes têxteis. Entretanto, como salientaram P. Junqueira e I. Malta (1978) além de
167 rodelas de fuso podem ter sido utilizados como adornos, pesos de anzol, ou até pesos de pequenas redes.
No levantamento faunístico consultado por nós (Herrmann et al., 1998) nada foi descrito com relação à ictiofauna. Sabemos que atualmente há peixes nas lagoas próximas ao sítio (para uma localização ver capítulo 4), pois moradores da região pescam nelas. Contudo, não foi possível checar se são espécies nativas ou se foram introduzidas na região.
Pensando numa utilização destas peças como pesos para anzol, ou para rede, ficam umas perguntas, por que foram feitas com a pasta A, com cauixi, mais porosa e leve, ao
Suave concavidade
Foto 37 Peças semelhantes a rodelas de fuso, junto ao desenho dos perfis. Escalas de 5cm. Autor: Igor Rodrigues
Foto 38: Peça 2 com negativo de lasca indicado pela seta. Autor: Igor Rodrigues.
Foto 39: Peça 2 com negativo de lasca. a direção da pancada está indicada pela seta. Autor: Igor Rodrigues
168 invés de utilizar a pasta C, mais densa, com quartzo, que contribuiria para um aumento de peso? Em caso de estar, como peso de anzol ou de rede, atrelado a um fio, será que este teria 0,5cm de diâmetro? Se não, este fio menor não poderia deixar algum tipo de desgaste no pequeno orifício por fricção?
Podemos lembrar apenas da possibilidade de terem sido utilizadas como adorno, sem maiores considerações.
Em caso de sua utilização como tortual de fuso (figura 42), como comumente são interpretados na arqueologia brasileira, é difícil imaginar algum tipo de marca de utilização que seria deixado no orifício da peça, uma vez que estaria adaptado a uma vareta. Talvez desgastes nas laterais devido ao movimento rotatório da peça no ato de manufatura do fio. Alguns lascamentos, como o observado na peça nº 2, poderiam ser gerados em casos de pequenos impactos durante a utilização, ou até mesmo acidente de queda. Por outro lado, a inclinação do furo identificado na peça nº 3 parece não ser condizente com uma utilização de tortual de fuso, ao e os ue esta defo idade o at apalhe o o i e to de rotação do fuso no ato de fiar.
De acordo com registros etnográficos de utilização de fusos, cujos tortuais podem ser de cerâmica, pedra, osso, entre outros, há duas maneiras (figura 43 e foto 40) de trabalhar:
No p i ei o aso, a fia dei a e e uta o t a alho se tada, o o fuso em posição horizontal, apoiando e rotando a extremidade pós-tortual do mesmo em algum suporte. Esse método só é praticado no Brasil pelos Borôro. No modo de fiar bakairí, que é o mais generalizado entre os índios do Brasil, a artesã imprime um movimento de rotação à parte pré-tortual do fuso, encostando-a na perna ou na coxa, mantendo o fuso em posição vertical. Em função disto, a parte inferior da haste é mais alargada, para que o tortual não escape, e a superior provida geralmente de um dispositivo para segu a o fio Ri ei o, :
tortual
Figura 42 Exemplo de fuso. Ilustração extraída de http://sleekfreak.ath.cx:81 /3wdev/VITAHTML/SUBLE V/PO1/HANDLOOM.HTM, acessado em 4/10/2010
169 Todavia, a morfologia destas rodelas de fuso etnográficas é discoidal, e nenhuma de nossas peças arqueológicas, como visto, apresenta esta morfologia. A morfologia com seção cônica e troncônica, até onde sabemos, aparece em tortuais de fuso gregos, especificamente atenienses (Lessa, 2002: 16), como mostra a foto 41. Interessante é observar que há uma variabilidade de morfologia para os tortuais, inclusive a discoidal. Contudo, o autor não faz considerações sobre estas diferenças, apenas comenta que estes são instrumentos utilizados
Figura 43: Modo de fiar Borôro. Extraído de Ribeiro (1986: 357).
170 para a fiação. Como o tortual de fuso serve para exercer um peso auxiliar no movimento de rotação durante a fiação, fica a seguinte pergunta: será que a morfologia influencia durante fiação, ou só seu peso é que influencia?
Não temos como afirmar que as peças que encontramos foram de fato utilizadas como tortuais de fuso, embora seja tentador pensá-las enquanto tais. Ficam dúvidas quanto as razões da diferença morfológica entre a peça 2 e as demais. Indica que foram feitas por pessoas diferentes? Ou possuíram funções diferentes?