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Na visão de alguns entrevistados, uma das finalidades dos Consep em Belo Horizonte é a de ajudar nas tomadas de decisões sobre alocação de policiais nos diversos pontos da cidade e assim fazer face às possíveis pressões de diferentes grupos. Nesse caso, não são as IEG que, de uma maneira impessoal e objetiva, vão dizer onde alocar os recursos, mas a comunidade, organizada nos Consep, tomando como base as IEG.

Os Consep surgiram no final de 1999, quando a PM adotou, aqui em Belo Horizonte, um modelo, uma filosofia de atuação, chamada polícia orientada por resultados e, dentro dessa filosofia, que tinha o geoprocessamento da criminalidade e da violência, (...) a PM editou uma diretriz para produção de segurança pública, na qual especifica os objetivos, finalidades e o que se pretende realmente em relação à participação comunitária. Então o modelo eleito aqui em BH para a participação da comunidade na segurança pública foi o Consep. Como que a coisa acontecia? A PM sofria muita pressão e sofre até hoje, de presidentes de associações de bairro, de grandes comerciantes, de pessoas que têm maior poder aquisitivo, que acabam, se a gente não tiver uma conduta mais ética, mais científica mesmo, por tratar a questão da criminalidade e da alocação dos nossos recursos, por puxar os melhores recursos para uma região, por exemplo, que, às vezes, não é a mais necessitada. Então, a idéia da construção dos Consep veio com a idéia de congregar a participação de presidentes da associação de bairros, de comerciantes das regiões, de lideranças comunitárias de uma maneira geral, a igreja, de outras instituições que compõem o sistema de defesa social, para que esse grupo mais amplo pudesse discutir as questões de segurança pública de forma mais isenta e dentro do conceito de regionalização adotado pela PM, ou seja, foram criados 24 Consep na cidade de Belo Horizonte. Um Consep para cada companhia da PM (EFE2).

Junto com esse objetivo mais pragmático, o mesmo entrevistado diz, diferentemente, mais à frente em sua entrevista, que os Consep foram criados “para captar as demandas por

segurança pública” e “ao mesmo tempo” para “avaliar o trabalho que a PM estava desenvolvendo e tentar auxiliar de alguma maneira”, constituindo-se como “um elo de ligação entre a comunidade e a polícia militar” (EFE2).

Pode-se perceber a existência de finalidades ou objetivos diversos, pelo que cabe perguntar: Haveria compatibilidade entre esses dois objetivos? São objetivos concorrentes? Estaria esse segundo tipo de objetivo, de conotação mais participativa e democrática, apenas encobrindo a verdadeira finalidade do Consep, que seria fazer com que a comunidade divida

com a PM a responsabilidade pela repartição de recursos sempre escassos? Mais a frente, na mesma entrevista, há uma fala que justifica, ainda mais, a questão levantada.

Então, a idéia do geoprocessamento é essa, de mostrar para ele: olha, essa é a situação de criminalidade na minha sub área, a sub área da minha companhia. Aqui são os meus recursos, que são finitos. O que é que nós vamos priorizar? Dá para atender a tudo? Dá para colocar policiamento na porta de padaria, na porta de drogaria, na porta do supermercado, na porta de açougue, na porta de banco, na porta de escola, de garagem de ônibus? Não dá. Então o nosso problema está aqui e o meu efetivo está aqui. Como é que nós vamos alocar o recurso? Essa que é a idéia básica. Funciona é assim. Então é um instrumento fundamental. É uma ferramenta que viabiliza a democratização da informação de segurança pública e cumpre aquele objetivo da comunidade realmente estar influenciando na alocação do recurso da PM. Para depois não falar: está privilegiando fulano de tal, está privilegiando o outro, é amigo do proprietário da empresa tal que é rico. Então corta isso. Porque opa! Olha o Consep aqui. Nós reunimos e decidimos que a nossa prioridade aqui não é homicídio, a prioridade aqui é arrombamento a residência. Então, estamos trabalhando nesse foco, discutido com a comunidade. E para ela discutir, para ela participar ela tem que conhecer essas informações. Se o comandante de companhia é mal- intencionado e não passa, então a visão dele é enviesada, ele não tem a visão da realidade, mas a orientação nossa é nesse sentido (EFE2).

Já o EFE3 define de uma outra forma, e com bastante segurança, o que são os Consep:

São ONGs, num primeiro momento idealizadas ou fomentadas pela PM e é um espaço democrático onde os líderes comunitários e principalmente aquelas pessoas que estão querendo contribuir com a melhoria da segurança pública participam ativamente, junto com a PM e outros órgãos do sistema de defesa social, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do cidadão daquele bairro onde ele reside (EFE3).

As diferentes maneiras de ver e definir os Consep são importantes na medida em que vão influenciar o processo de construção das informações durante as reuniões. São possibilidades diversas de construção da realidade que, provavelmente, se encontram em situação de concorrência e que são expressas nas falas, muitas vezes confusas e contraditórias, dos oficiais. Se os Consep foram, por um lado, criados para dividir com a comunidade o peso das dificuldades e carências, por outro, na medida em que são colocados em funcionamento, vão assumindo outras perspectivas, tanto pela população quanto pelos próprios policiais participantes. Essa interpretação corrobora o ponto de vista de que o Consep, embora tenha nascido como estratégia desenvolvida pelo Estado através da polícia, vem sendo, progressivamente, apropriado pela comunidade, não sem muitas dificuldades, como meio de participação na gestão da segurança pública.

Sobre essa questão é interessante a seguinte fala de um entrevistado quando comentava sobre as resistências que se verificam entre policiais em relação à participação da comunidade no trabalho da PMMG: “... o nosso policial já entendeu que sem informação nós

não conseguimos trabalhar e a informação não é só de pegar bandido não. A informação que eu falo é de saber onde estão acontecendo os problemas ...” (EFE7).

Benzer Belgeler