A explicitação detalhada de um dos sujeitos a serem pesquisados – os alunos – é fundamental para o desenvolvimento da pesquisa etnográfica, visto que se pretende analisar minuciosamente o conhecimento sobre o mesmo como agente participante de sua própria história, de modo a significar os dados e a interpretação dos mesmos nesta investigação.
Nesse contexto, definiu-se o trajeto de contextualização do perfil dos alunos a partir da caracterização da turma 302 que, por sua vez, embora tenha iniciado com trinta e oito 33 alunos matriculados no ano letivo de 2007, no mês me maio tinha apenas 29 alunos, sendo 6 (seis) do sexo masculino e 23 (vinte e três) do sexo feminino. São alunos e alunas de classes sociais distintas e de diferentes etnias. A faixa etária varia de 17 a 20 anos, sendo que um número bem expressivo tem 19 anos. Algumas alunas já são casadas e têm filhos. Dos trinta e oito alunos, quatro (um rapaz e três moças) cursam o Ensino Médio na modalidade científico no C. E. Paulo Ramos (escola da rede pública estadual), no turno vespertino e no turno noturno, cursam o Ensino Médio formação para o Magistério no Centro Educacional Professora Olga Damous.
Do total que cursam o Magistério da Escola Olga Damous, a maioria dos alunos são negros e três se consideram brancos. Sendo que um rapaz e três moças são aquilo que o Brasil democrata racial chamaria de “moreninhos” ou “mulatinhos”, mas, a despeito da hipocrisia reinante, eles são, na verdade, negros.
Conforme Reichmam (1995), esta diferença na quantidade de alunos negros e brancos em sala de aula é devido à renda mais baixa entre as famílias negras, assim a população jovem negra tende a entrar na força de trabalho mais cedo e em maior número do que a branca. Outros fatores, porém, interferem no abandono da escola pelos negros, como por exemplo, as suas condições de vida e a qualidade das escolas nos seus locais de moradia, que não apresentam as condições necessárias para um ambiente favorável a um desenvolvimento mais pleno do aluno e ao estudo. De fato, o acesso desigual à educação é um fator crucial na determinação do status subordinado da população negra.
Por outro lado, constatou-se que os alunos que evadiram, dentre outras causas está, por exemplo, alguns que foram contratados pela Secretaria Municipal de Educação para lecionar em escolas no interior. Estes alunos não concluíram o Ensino Médio na modalidade Formação para o Magistério, que é oferecido pela escola com duração de quatro anos. Portanto, não estão habilitados para ensinar alunos na educação infantil nem as quatro primeiras séries do Ensino Fundamental. O que se conclui que a educação nas escolas do interior do município é uma temeridade.
A esse respeito, Mello (1993, p. 93-94), coloca que dentre as causas que levam o aluno a abandonar a escola está “a falta de recursos econômicos da família [...] aspecto que inegavelmente possui um peso específico na produção do fracasso.”
Paralelamente, a observação de alguns fenômenos laterais, como é o caso dos trabalhadores estudantes que muitas vezes, não concluem os seus cursos porque não conseguem compatibilizar os horários das aulas com o horário do trabalho. Motivo pelo qual leva alguns a abandonarem os estudos ou mesmo ficarem repetentes. Nesse sentido, há um caso de abandono da escola bem específico e que vale a pena se ressaltado: é aquele que ocorre quando os alunos estão a ponto de repetir o ano. De acordo com Gomes (1999), esta é a “reprovação branca”. Muitas vezes, os estudantes preferem abandonar a escola a passar pela repetência, seja pela necessidade de trabalhar, como se observou, ou por considerar que não tem nota suficiente para passar, entre outros motivos.
Quando eu comecei a trabalhar, eu pensei em deixar a escola. Muitos dos alunos saem da escola pensando assim: “Ah, eu vou ficar reprovado mesmo, então é melhor eu dizer que desisti”. Eu não reprovei. Eu desisti e saí. Há, prof., o senhor sabe como é... (informação verbal).28
[...] As desistências começam logo no início do segundo semestre. A gente vê que não tem nota para passar de ano. Não vai conseguir os vinte e oito pontos. Aí eu pensei que aquele tempo vai ser perdido. O que adianta estar correndo para a escola, se a gente sabe que não vai conseguir ? Que vai ter que repetir tudo de novo? (informação verbal).29
Eu abandonei meus estudos porque consegui um trabalho pela Prefeitura. Se não, este ano de 2008, terminava o meu segundo grau. O trabalho era longe, não tinha como eu estar no colégio à noite. Eu tive que optar. Ou trabalhava ou estudava, por que não dava para eu fazer as duas coisas” (informação verbal).30
Em concordância com o pensamento de Gomes (1999), Gutenberg (2008, p.16), afirma que “é justamente durante o ensino médio que os alunos caem fora. Eles ‘aguentam’ a rotina escolar pelos primeiros oito anos. Aos 14, 15 anos, quando acreditam ser adultos o suficiente para tomar decisões importantes e sobreviver sem escola, deixam de estudar”.
Também se observou que assim como qualquer grupo, esta turma possui características próprias e marcantes. Antes de o pesquisador iniciar suas observações, o professor de Biologia descreveu que os alunos eram participativos e também agitados. Tão logo o pesquisador adentrou ao campo de pesquisa, pode constatar essa realidade.
Com exceção de alguns alunos, a turma era participativa frente às aulas, chegando a responder aos questionamentos feitos. Por outro lado, acredita-se que a ausência da participação de alguns alunos deve-se ao fato destes não se identificarem com o curso Magistério, pois obrigados pela ausência de outras ofertas a cursarem. Esse fato leva a desmotivação, e, não a forma como são conduzidas as aulas de Biologia, onde a discussão e a interação professor-aluno faz parte das propostas pedagógicas do professor. O aluno cursa o Magistério como sendo a forma mais rápida de conseguir um emprego como professor ou cursa o Ensino Médio, educação geral, que acredita ser a possibilidade de “passar” no vestibular e cursar a faculdade.
O pesquisador ao se defrontar com alunos bastante desmotivados e desinteressados com o que se passa na sala de aula, trouxe para o eixo de análise a postura assumida por estes, vez que parece ser reflexo de uma desmotivação e desorientação da própria instituição escolar e de alguns professores em função do curso que lhes é oferecido. Há alunos que fazem a seguinte declaração: – “Não há outras opções, mas quero exercer a profissão.”31 Outros, porém, não sabem ainda o porquê estão a cursar o magistério.
29 Informação fornecida por um aluno que desistiu. Convencionou-se denominá-lo de aluno B. 30 Informação fornecida por um aluno que desistiu. Convencionou-se denominá-lo de aluno C. 31 Profissão a que os alunos se referem é ser professor.
Isto pode ser comprovado pelas faltas nas aulas de Biologia, mas fica mais evidente em outras disciplinas. Alguns alunos vêm à escola, mas não frequentam as aulas, ficam do lado de fora da sala de aula. Além do problema com a frequência, há alunos que não respeitam o horário das aulas. Segundo o regulamento da escola32, as aulas do turno noturno iniciam às 19h, porém são raros os professores que entram nas salas de aula neste horário. Isto acontece não somente com a turma 302, mas também com outras turmas. Por isso, fica difícil exigir que os alunos sejam pontuais, uma vez que boa parte do corpo docente não serve de exemplo de pontualidade e responsabilidade para com a função assumida.
Enfim, os alunos da turma 302 são oriundos de meios familiares praticamente semelhantes: mãe doméstica e pai pescador, mãe é doméstica e o pai comerciante ou mãe professora e pai lavrador. A grande maioria dos pais tem baixo nível de escolaridade, cursaram apenas o Ensino Fundamental; somente uma mãe cursou o Ensino Médio e outra, o ensino superior.
Quando à questão sexo, as mulheres predominam na população de alunos da turma pesquisada, e essa predominância ocorre na escola como um todo. Esta é uma tendência já registrada em outras pesquisas realizadas nas capitais do país, (ABRAMOVAY; RUA, 2002). A presença de mulheres nos níveis mais elevados da educação é confirmada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP, segundo o qual dos 8,4 milhões de alunos matriculados no Ensino Médio, 54,4% são do sexo feminino (INEP, 2002).
No que se refere à idade, um percentual bem elevado representa o quantitativo de alunos com 19 anos. Contudo há alunos mais jovens na faixa etária dos 17 e 18 anos, mas é um quantitativo bem pequeno. Dos 29 alunos que compõem a sala de aula, apenas 7 alunos têm 20 anos, 2 alunos têm 25 anos e somente 1 aluno tem 23 anos.
Alerta-se para o fato de que ainda é alto o número de alunos com 20 anos, cursando o Ensino Médio (cerca de 24,1%), idade superior à considerada adequada pela LDB para a conclusão do Ensino Médio. A relação idade/série estabelecida é que o aluno de 15 anos deva estar cursando o primeiro ano desse nível de ensino, o que levaria à sua conclusão aos 17 anos. Aqueles que estão acima dessa idade são considerados em atraso escolar.
32 A escola funciona das 7h30 às 11h30 na parte da manhã, das 13h às 17h30 na da tarde e das 19h às 22h30 na
da noite, todos os dias da semana. Os módulos de horários da manhã e da tarde são de 50 minutos, os da noite, são de 45 minutos.