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No Brasil, o rádio se estruturou a partir de duas delimitações. Na década de 1920, segundo Calabre, era um veículo de comunicação privado

subordinado às regras do mercado econômico, mas, ao mesmo tempo, controlado pelo Estado, que é responsável tanto pela liberação da concessão para o funcionamento das emissoras (normalmente por um período de dez anos) quanto pela cassação das mesmas, caso haja desrespeito às leis do código de comunicação em vigência308.

Foi um período em que muitas emissoras surgiram e também desapareceram. E uma das maneiras de criar uma rádio era por meio da formação de uma rádio-sociedade, cujo estatuto previa a existência de associados que

307 Op. Cit. ORTRIWANO, Gisela Swetlana. p. 21

tinham como obrigação mensal de colaborar com uma quantia em dinheiro. Em geral, essa era a principal fonte de renda das estações radiofônicas e nem sempre os associados eram fiéis aos pagamentos. E para que a programação musical ficasse no ar, os sócios e os ouvintes emprestavam espontaneamente os discos. Em troca, eles recebiam agradecimentos no ar. Em outros momentos, eram organizadas apresentações de artistas ao vivo, que não cobravam nada. Calabre define essa fase como amadora, já que não existia uma regulamentação oficial para que as rádios tivessem patrocinadores e pudessem criar e veicular publicidades, a exemplo do que era verificado nos Estados Unidos.

Uma das primeiras regulamentações foi o decreto-lei nº 16.657, de 15 de novembro de 1924, que aprovava o regulamento dos serviços de radiotelegraphia e radio telephonia e, assim, o governo reservava para si o direito de permitir a difusão por esses meios. Mas, por ser um veículo de comunicação novo, havia um descrédito por parte dos possíveis anunciantes, que preferiam e acreditavam mais nos anúncios pagos em jornais e revistas. Calabre recorda que na década de 1920, a radiodifusão era “uma área de incertezas, investimento caro e retorno duvidoso309”. Além disso, o país vivia dentro de uma conjuntura com instabilidade

social e política, com revoltas tenentistas e momentos de Estado de Sítio.

Apesar de poucas pessoas possuírem um aparelho receptor em casa, os governos tinham receio de que pelas ondas sonoras fossem divulgados acontecimentos e propagandas contra o regime estabelecido. Com o intuito de evitar maiores riscos, o governo determinou que a programação se restringisse a fins educativos, educativos e científicos, beneficiando os ouvintes, proibiu a transmissão de informações com cunho político e sem a autorização prévia do governo.

De acordo com o Anuário Estatístico do Brasil – 1941/1947310, entre 1923 e

1940, existiam 75 emissoras no país e, em 1929, somente em São Paulo, havia 60 mil unidades de aparelhos receptores e o “hábito de ouvir rádio ia se consolidando311”.

Em 1930, quando foram realizadas as eleições, a Rádio Educadora Paulistana tinha como um de seus associados o candidato a presidente da

309 Op. Cit. CALABRE, Lia. p. 15 310 Idem. p.15

República Julio Prestes e, deixando de lado os princípios de uma emissora educativa, fez campanha para ele. E o nome de Vargas, que estava nessa disputa presidencial como candidato pela Aliança Liberal, era proibido ser pronunciado.

Um ano depois, em 27 de maio de 1931, Vargas publica o decreto-lei nº 20.047 que regulamenta os serviços de radiocomunicação no território brasileiro. É a primeira vez que o termo radiodifusão é citado em um texto legal onde estão asseguradas a condição, no artigo 12, de que o serviço é considerado de interesse nacional e de finalidade educacional e, segundo o parágrafo segundo, que as

estações da rede nacional poderão ser instaladas e trafegadas, mediante concessão, por sociedades civis ou empresas brasileiras idôneas, ou pela própria União, obedecendo a todas as exigências educacionais e técnicas que forem estabelecidas pelo Governo Federal312.

O parágrafo terceiro definia que as emissoras da rede nacional deveriam ter uma orientação educacional proposta pelo Ministério da Educação e Saúde Pública e a sua fiscalização técnica competia ao Ministério da Viação e Obras Públicas.

O documento determinava, no artigo 14, que todas as

irradiações de conferências, aulas e discursos de caráter educacional, científico, artístico, religioso ou político serão precedidas sempre da indicação da pessoa que os pronunciar ou que os tiver escrito, para esse fim, a qual ficará responsável pelos conceitos que emitir, na forma da legislação que regular a liberdade de pensamento313.

Em 1º de março de 1932, Vargas cria o decreto-lei nº 21.11 que regulamenta o decreto anterior e normatiza a publicidade no rádio, possibilitando que 10% das transmissões fossem destinadas para a divulgação de comerciais, sendo que cada uma deveria ter uma duração de até 30 segundos. A decisão permite, portanto, que as rádios pudessem captar recursos e com o lucro investir na programação. No capítulo XII, o decreto-lei trata sobre a radiodifusão e, nos artigos 66 e 69, determina a organização de um programa nacional para ser transmitido por uma

312 Decreto-lei nº 20.047, de 17 de maio de 1931, disponível no site

http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-20047-27-maio-1931-519074- publicacaooriginal-1-pe.html, visitado em 28 de setembro de 2014, às 11h30.

estação para as demais, por meio de uma rede nacional, com retransmissão simultânea.

Conforme o artigo 69, o programa nacional deveria ser destinado para todo o território nacional, em horas pré-definidas, e abordar assuntos educacionais, políticos, sociais, religiosos, econômicos, científicos e artísticos. Essa uma hora diária destinada para um programa noticioso obrigatório embasaria, segundo Ferraretto, a criação do Hora do Brasil. Para ele, a regulamentação da publicidade impulsionou o rádio para ser um empreendimento comercial e não apenas educativo, como havia idealizado por Roquette-Pinto, quando fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923.

Para Calabre, a permissão da publicidade fez com que as rádios disputassem o mercado e também se organizassem como empresas. Cada uma procurava investir em qualidade técnica, para alcançar um maior número de ouvintes, e na programação. A partir dessa jurisprudência, os anúncios publicitários tornaram-se a principal fonte de recursos para a maioria das estações.

Essa legislação radiofônica, diz Ferraretto, lançou as bases para que o rádio que hoje é conhecido se configurasse com uma indústria cultural.

Até 1962, o serviço de radiodifusão foi regulado pelos decretos-leis nº 20.047 e nº 21.111. Naquela data, após nove anos de debate, foi promulgado o Código Brasileiro de Telecomunicações, pela lei nº 4.117, que reforçou alguns tópicos importantes dos dois decretos anteriores, como sendo um serviço de interesse público e um bem público, por causa do espectro de radiofreqüência, e estabeleceu que cabia ao poder Executivo Federal organizar a radiodifusão e também gerir e conceder as outorgas e renovação de outorgas às emissoras de rádio e televisão no Brasil.

Benzer Belgeler