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As instituições são formas de fortalecer os fixos e fluxos por meio do controle do Estado. Nelas, encontra-se o espaço de amenizar a força nas crenças leigas, para inculcar a crença na perícia, no conhecimento técnico, já que a cidade constitui-se pela prática social do técnico. Muitos dos sistemas peritos, oriundos da composição da sociedade moderna, partem da premissa que a realidade é uma totalidade homogênea e de semelhantes habitus.

Visando diminuir as distâncias entre as percepções dos leigos e a dos peritos, a comunicação dos riscos é fundamental e um dos maiores desafios para os técnicos. Guivant (2001), nos situa sobre os conflitos entre visões peritas e leigas. Na racionalidade técnica e quantitativa dos riscos, a percepção do leigo é tida como irracional, pobre de informação e não necessariamente correspondente aos riscos reais. A percepção perita é, segundo a própria racionalidade que lhe dá vida, o olhar ideal sobre os acontecimentos, pois corresponderia aos riscos reais, analisados e calculados pela ciência.

Tendo em vista esta representação de verdade, cabe às ciências sociais questioná-la, já que a estimação dos riscos relevantes para uma determinada comunidade pode brotar adequadamente ainda que não parida por uma racionalidade técnica. Também o conhecimento não-formal teria o potencial de avaliar os riscos e os danos referentes aos desastres. Assim, nem sempre a evidência científica teria o papel esclarecedor. Segundo Mary Douglas, a influência

dos fatores sociais na percepção dos riscos não deveria ser considerada um obstáculo ao entendimento. Ao contrário, tal influência possibilitaria uma análise mais completa, “mais precisa tanto sobre a sociedade, seus valores, suas instituições e sua cultura, como sobre as formas pelas quais os indivíduos avaliam os riscos” (Douglas apud Guivant, 1998, p. 07).

Contudo, não devemos romantizar a visão do leigo, pois tanto a percepção leiga como a perita estão permeadas de pressupostos morais e sociais, formados a partir de diferentes experiências, e respondendo a diferentes racionalidades dos riscos (GUIVANT, 1998).

Essa discussão da relevância tanto de uma visão leiga quanto de uma perita faz-se necessária, pois, com o advento cada vez maior dos desastres, as instituições que vão surgindo para prevenir e/ou mitigar os danos trazem o eco das mútuas desqualificações dos contextos envolvidos.

Reportando propriamente às instituições, no caso deste trabalho, a Defesa Civil e os órgãos coordenados por ela (Assistência Social e Saúde), a forma como ela atua no Brasil não tem se mostrado eficaz, pois esta instituição pouco aparece antes dos períodos chuvosos para avaliar a situação, para ouvir o morador que vivencia a situação, para prevenir que algo aconteça a partir de uma dialogicidade das representações de risco. Consequentemente, não há um diálogo entre a percepção de risco por parte de órgãos de Defesa Civil e das famílias para uma aferição consensual das dimensões dos ganhos e perdas envolvidos. E também, é preciso considerar recortes socioculturais outros, como o rural, as populações tradicionais, as dimensões étnicas e de gênero antes de uma ação de Estado, pois como bem afirma Pacheco (2008):

No caso das grandes cidades, para onde muitos desses refugiados ambientais são sumariamente deslocados, indígenas, ribeirinhos e outros tantos tendem a desaparecer, muitas vezes escondendo suas origens para poderem se candidatar ao emprego e serem aceitos, enfim. São os negros e – nas regiões Sudeste e Sul – também os nordestinos que se mantêm ‘visíveis’. Mas é uma visibilidade indesejável, eivada de preconceitos e, no geral, associada diretamente a um dos problemas centrais das grandes megalópoles: a violência urbana. São precisamente eles que ocupam, na maioria, as favelas, os arredores dos lixões, as periferias marginalizadas, os diferentes locais onde a miséria é a tônica (...) (p. 18).

A cultura de prevenção a ser engendrada é a de considerar o outro e as trocas de saberes, o que diverge da forma autocrática como o Estado constrói, historicamente, sua relação com a sociedade civil. Um exemplo disto é que, quanto mais frágil a inserção sócio-econômica da família em risco, o uso de instrumentos coercitivos para que tal família abandone sua casa é mais recrudescido. É preciso considerar que os peritos de tais instituições precisam estar a serviço do cidadão, nos termos da cidadania, e não o contrário. Assim, o que cabe aos órgãos de Defesa Civil é fazer a ponte com os fragmentos de Estado que darão suporte de alimentação, vestuário, saúde, abrigo, etc, os quais não são facilmente acessíveis ao afetado (VALENCIO, 2005).

Segundo Valencio et al (2007), a relação entre desabrigados e gestores deve estabelecer bases para aquilo que Sousa Santos (2002) chama de uma “hermenêutica diatópica”, isto é, ensejar que o perito manifeste topoi com a

idéia de promoção do outro nos termos do outro. A tradução entre saberes assume a forma de uma hermenêutica diatópica quando “consiste no trabalho de interpretação entre duas ou mais culturas com vista a identificar preocupações isomórficas entre elas e as diferentes repostas que fornecem para elas” (SOUSA SANTOS, 2003, p. 31). Quando uma das partes se dispõe à tradução, procura estabelecer o que o autor denomina de zonas de contato, isto é

Campos sociais onde diferentes mundos-da-vida normativos, práticas e conhecimentos se encontram, chocam e interagem’ [...] O que é posto em contacto não é necessariamente o que é mais relevante ou central. Pelo contrário, as zonas de contacto são zonas de fronteira, terras-de-ninguém onde as periferias ou margens dos saberes e das práticas são, em geral, as primeiras a emergir. Só o aprofundamento do trabalho de tradução permite ir trazendo para a zona de contacto os aspectos que cada saber ou cada prática consideram mais centrais ou relevantes (SOUSA SANTOS, 2003, p. 38).

Tal teoria, de Sousa Santos, é de grande valia para mostrar que a sociedade acabada não existe em princípio, sendo ela um processo contínuo de estruturação e desestruturação; de negociação e renegociação entre seus pares.