230 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 8 ed. São Paulo: Saraiva: 2010.
p.27-28.
231 GALINDO, Bruno. Teoria Intercultural da Constituição: A transformação paradigmática da
Teoria da Constituição diante da integração interestadual na União Européia e Mercosul. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 45.
Segundo Marcelo Neves232,
O conceito de Constituição em sentido moderno relaciona-se originalmente com o constitucionalismo como experiência histórica associada aos movimentos revolucionários dos fins do século XVIII. O constitucionalismo apresenta-se inicialmente como semântica político-jurídica que reflete a pressão estrutural por diferenciação entre política e direito no âmbito da emergente sociedade multicêntrica da modernidade. Mas a semântica constitucionalista reagiu construtivamente no plano das estruturas, servindo como “ideologia” revolucionária para o surgimento das Constituições como pressupostos possibilitadores e asseguradores da diferença entre sistemas político e jurídico.
Continua Dieter Grimm233,
Embora a semântica constitucionalista tenha surgido no centro da emergente sociedade burguesa, sobretudo na Inglaterra e na França, a afirmação de Constituição no nível estrutural apresentou-se primeiramente “em 1776, na periferia do mundo ocidental de então, na América do Norte”, só se configurando “treze anos mais tarde, em 1789, na Europa”. Como já foi observado acima, na Inglaterra o processo de constitucionalização teve um caráter evolutivo, não se podendo caracterizar a Revolução Gloriosa de 1688 como fundadora de um Constituição em sentido moderno, pois foi “uma revolução para defesa da velha ordem, nomeadamente dos direitos do parlamento, contra as intenções transformadoras da coroa”. Isso se associa com o fato de que a conversão prática da semântica constitucionalista em estruturas constitucionais pressupôs a ocorrência de revolução no sentido de rupturas com a velha ordem do poder.
Percebe-se uma fase do constitucionalismo que substitui o até então Estado absolutista autoritário por um Estado regulado pelo Direito. Agora, a constituição passa a garantir direitos de liberdade e propriedade, a economia livre de mercado e a igualdade dos cidadãos perante a lei, tudo administrado e mantido por poderes rigorosamente separados. É uma constituição essencialmente garantista.
232 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Saraiva, 2009. p.53.
233 GRIMM, Dieter. A Constituição do Processo de desestatização (Die Verfassung im Prozess
der Entstaatlichung). In: Michael Brenner, Peter M. Huber e Markus Möstl (orgs.). Der Staat des Grundgesetes – Kontinuität und Wandel: Festchrift für Peter Badura zun siebzigen Gerburtstag. Tünbingen: Mohr Siebeck, 2004. pp. 145-67. Apud Neves, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. PP. 53-54.
Ressalta Bruno Galindo234 que,
Apesar de garantias, a livre iniciativa e as liberdades políticas, só quem as exerce são os que detêm meios e recursos para tal, ou seja, apenas a classe burguesa que se torna classe hegemônica no lugar na nobreza. [...] As condições sociais das classes menos favorecidas, sobretudo dos trabalhadores assalariados, são muito deficitárias, não adiantando as garantias legais de liberdade e de igualdade, se na realidade o trabalhador é obrigado a vender sua força de trabalho a quantias pecuniárias desproporcionalmente baixas, já que não é detentor de capital para exercer a apregoada liberdade de iniciativa, restando a ele submeter-se a salários muitas vezes irrisórios e condições precárias de trabalho.
Percebe-se que o Estado deveria se abster de atuar em favor de quem quer que fosse, prevalecendo uma espécie de lei do mais forte, onde prevalecia a burguesia, em detrimento do operariado que somente possui a própria força do trabalho. Dentro desses aspectos contraditórios do Estado liberal surgiria o Estado social e, consequentemente, o constitucionalismo correspondente.
Importante observar que o maior desenvolvimento do Constitucionalismo a partir da segunda metade do século XX, com expressiva contribuição para o aumento da eficácia das normas constitucionais no mundo contemporâneo, ocorreu justamente naqueles países que, tendo vivido sob sistemas totalitários até a segunda guerra mundial, procuraram consolidar, com base numa Constituição, uma ordem social e político democrática. Tenha-se em conta, igualmente, a importância da Constituição na vida dos povos saídos ou tentando sair de uma situação de dominação colonial ou
imperialista, em seus vários matizes antigos e modernos235.
234 GALINDO, Bruno. Teoria Intercultural da Constituição: A transformação paradigmática da
Teoria da Constituição diante da integração interestadual na União Européia e Mercosul. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 55-56.
235 DALLARI. Dalmo de Abreu. A Constituição na vida dos povos: Da idade média ao século
O Constitucionalismo contemporâneo identifica-se com a verdade, a solidariedade, o consenso, a continuidade, a participação, a integração e a universalização. Ainda na época de Weimar se discutia na Alemanha se as Constituições deveriam ser entendidas como um conjunto de princípios ou como
sistema de força vinculante236.
A Constituição Weimar é, para fins histórico-constitucional, o marco do constitucionalismo social, embora tanto a Constituição mexicana de 1917 como a Declaração de Direitos do Povo Trabalhador Explorado soviética de 1918 já previssem direitos sociais e econômicos e prestações positivas por parte do Estado com a finalidade de realizá-los. A constituição alemã traz em seu bojo um leque de proteção dos direitos sociais como a proteção à maternidade, à saúde, ao desenvolvimento social da família, educação pública gratuita, assistência e previdência social aos trabalhadores.
No bojo do processo amplo de transformação da forma primária de diferenciação social em determinados âmbitos espaciais da sociedade moderna, do tipo hierárquico para o funcional, a ideia de um poder político supremo acima do direito, que orientava a noção absolutista de soberania, perde o seu significado em face da pressão decorrente dos movimentos pela diferenciação do direito em relação à política.
Para a realização de direitos, o Estado não podia ser mais aquele negativo vinculado ao liberalismo. Agora o Estado passa a ser intervencionista, não sob o fundamento na vontade da autoridade onipotente, mas na necessidade de intervir na economia e na sociedade para ampliar o acesso dos cidadãos aos direitos que o liberalismo lhes negara. O grande desafio do constitucionalismo social é a conciliação
de ideologias opostas: por um lado o liberalismo individual, na defesa dos direitos
individuais; e do outro, o socialismo coletivo enfatizando os direitos sociais237.
Isso acaba tornando extremamente complexa a tarefa da constituição como instrumento propiciador de realização de direitos fundamentais, demandando por parte dos poderes estatais, uma postura política diferenciada, calcada em padrões constitucionais dirigentes, vinculantes e intervencionistas. De um lado é consideravelmente ampla a demanda para a realização dos direitos fundamentais, mas por outro, há o que poderíamos denominar de limites operacionais do dirigismo
vinculante-intervencionista, como é o caso da reserva do possível238.
A eclosão da segunda guerra mundial foi um hiato nessa evolução, mas pode-se dizer que, pelas brutalidades que produziu, e por ter despertado a consciência da humanidade para a necessidade do estabelecimento de normas de organização da sociedade e do governo que impossibilitassem o retorno de qualquer forma de absolutismo e de degradação da pessoa humana, deu impulso decisivo para a formação
de um novo constitucionalismo, democrático e humanista239.
A proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, feita pela Organização das Nações Unidas em 1948, estabeleceu alguns parâmetros fundamentais, a partir dos quais, e tendo em conta as circunstâncias concretas das sociedades humanas
237 GALINDO, Bruno. Teoria Intercultural da Constituição: A transformação paradigmática da
Teoria da Constituição diante da integração interestadual na União Européia e Mercosul. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 58.
238 CANOTILHO. J. J. Gomes. Constituição Dirigente e Vinculação do Legislador: Contributo
para a compreensão das normas constitucionais programáticas. Coimbra: Coimbra Editora, 1994, p.172-198.
239 DALLARI. Dalmo de Abreu. A Constituição na vida dos povos: Da idade média ao século